Coluna

Lilia Schwarcz

Sobre o sequestro da política empreendido pelo governo federal

21 de junho de 2021

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Momentos de crise ou de ascensão de novos governos não raro trazem consigo batalhas de narrativas e muitas vezes a história acaba sendo manipulada de forma instrumental para justificar novas realidades

Sequestro é o ato de tolher a liberdade ou de reter alguém em algum lugar ao qual a pessoa não pertence, se identifica ou gostaria de estar, lhe prejudicando, assim, a liberdade de ir e vir. Sequestro também pode ser entendido, metaforicamente, como um conceito de deslocamento – quando se retira um termo de seu lugar original para colocá-lo em outro, diverso do que se supõe.

Gostaria de tratar mais da acepção metafórica e simbólica da noção de sequestro. Uma série de sequestros desse tipo têm sido feitos a partir da utilização de palavras, expressões e símbolos de forma diferente e de alguma maneira afastada do que seria o seu uso mais convencional.

Momentos de crise ou de ascensão de novos governos não raro trazem consigo batalhas de narrativas. A história muitas vezes é manipulada de forma instrumental, de maneira a se transformar numa espécie de bengala para justificar novas realidades. Basta ver o uso que o atual governo brasileiro faz da ditadura militar. A democracia que o chefe do Planalto deseja, é um governo da ordem, dirigido pela caserna e com mão forte. Para tanto, inventa-se um passado que nunca existiu, buscando transformar 1964 em um “golpe democrático” – o que não passa de uma contradição em seus próprios termos – e procurando retomar a nostalgia de um tempo que nunca existiu. Hoje sabemos que a ditadura praticou todo tipo de corrupção, entregou um Estado com alta inflação, isso sem esquecer de como sequestrou, matou, fez desaparecer, torturou e cassou muitos brasileiros e brasileiras.

Também a filosofia política tem sofrido com esse tipo de manipulação, quando se busca capturar o sentido de certos termos convencionais e aplicá-los de modo estranho ao seu significado mais canônico. Vejamos o conceito de “liberdade de expressão” que nos tempos do agora tem sido usado e abusado pelo governo e seus simpatizantes. A expressão que remete à garantia de livre manifestação na proteção jurídica de um espaço para que cada pessoa possa se exprimir socialmente e tenha direito de se pronunciar ou de se manifestar de qualquer outra forma, passou a ser sistematicamente sequestrada por pautas opostas ao conceito original.

Por exemplo, em contextos pandêmicos e de manifestações constantes de negacionismo, por parte do presidente e de seus ministros, tem sido comum ouvir do chefe do Planalto e de seus asseclas que eles são os defensores da “liberdade de ir e vir” e da “liberdade de expressão” – aliás, duas garantias democráticas. Todavia, não se pretende defender a autonomia política e individual, mas sim questionar o isolamento social, a obrigatoriedade do uso de máscaras e até mesmo da vacina. É como se a expressão fosse talhada para dar conta da liberdade de decidir se a pessoa quer contaminar e ser contaminada, ou não. Ora, estamos enfrentando uma epidemia coletiva quando o desejo individual precisa se adequar e respeitar as necessidades coletivas. No entanto, usada em momentos de clara temperatura emocional, e com retóricas apropriadas, a expressão gira de sentido e passa a justificar, com pretensa sofisticação e elaboração teóricas medidas claramente anti-democráticas

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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