Coluna
Carlos Bezerra Júnior
Sebastiânicos tupiniquins, o mito do salvador da pátria
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Dom Sebastião “sumiu” na batalha, mas voltará para nos livrar de todos os males?
A pergunta vivia pairando no ar depois que Dom Sebastião, rei de Portugal, viveu uma história épica de luta na África em 1578, seguida de morte, que depois foi transformada em desaparecimento misterioso, sem que houvesse uma substituição que cumprisse o fio hereditário da sucessão.
A partir daí, cresceu a crença de que o rei não havia morrido na batalha, e iria regressar como um redentor do seu povo, trazendo de volta a autonomia da coroa portuguesa. Foi assim que surgiu o sebastianismo que emprestava auras messiânicas ao falecido rei de Portugal. E Dom Sebastião ganhou o epíteto de “o Encoberto”.
Neste contexto, havia duas questões fundamentais: um passado inventado e um futuro nebuloso. O passado inventado é uma reconstrução memorial em que diferentes pessoas lembram ou esquecem determinados “pedaços” da história, e vão replicando a versão que ouviram, ainda que ela vá ficando cada vez mais distante da versão original. Desta forma, o rei sumiu, não morreu. O passado imaginário é contado como verdadeiro. E no final, se esse passado foi real ou apenas imaginário é o que menos importa, porque é desta forma que ele foi e será contado.
O futuro era nebuloso porque Portugal não teria mais um rei lusitano– quem reivindicava o trono era o tio de Dom Sebastião, o rei da Espanha, Dom Filipe II. O país se viu mergulhado em angústias e incertezas e criou o mito sebastianista. O messianismo e o nacionalismo se fundiram criando uma espécie de crença popular do retorno do rei para salvar a pátria.
No Brasil, há registros históricos de movimentos messiânicos inspirados no sebastianismo. Dentre eles, o que ocorreu na Bahia com Antônio Conselheiro na Guerra de Canudos, e no Rio Grande do Sul com Jacobina Mentz, na Revolta dos Muckers. Na política brasileira, temos uma tradição de cultuar e valorizar caudilhos, demagogos, populistas e fanáticos religiosos dos variados espectros ideológicos.
O messianismo na política, assim como aconteceu em Portugal que vivia de versão inventada sobre a morte do rei em meio a um futuro incerto, tem origem na insatisfação popular e ganha ainda mais força quando forrado por um bom colchão de nacionalismo. Na verdade, é um sistema político em busca de salvação. Essa figura do redentor também é contada na história da proclamação da República que traria ordem e progresso à nossa nação subjugada.
Nos tornamos sebastiânicos, viciados em uma ideologia fantasiada na crença de que alguém irá nos salvar, nos defender e nos garantir a soberania
Certamente esse passado nos dá boa explicação para a tendência que temos por seguir e repetir o nome de figuras carismáticas na política, sempre acreditando que delas surgirão fórmulas capazes de nos tirar do atoleiro e de resgatar nossa esperança no futuro. Aqui, abro parênteses, porque mesmo quando essas figuras se mostram incapazes de atender as expectativas de um povo e se vê às voltas com escândalos de corrupção, ainda assim, há os que simplesmente as seguem com idolatria e devoção, enquanto aqueles que não fazem parte deste séquito se perguntam: “como pode?” Sem dúvidas não é pela razão, e com certeza, está distante também de qualquer senso crítico.
Enquanto alguns sobem em uma moto proclamando o “Acelera para Cristo”, outros usam o carisma indubitável para garantir cuidado aos pobres e um Brasil melhor e menos injusto.
Assim, de sebastianismos em sebastianismos fracassados, mas mistificados, nos tornamos sebastiânicos, viciados em uma ideologia fantasiada, na crença de que alguém irá nos salvar, nos defender, nos garantir a soberania, aconteça o que acontecer, porque ele será o novo salvador, defensor da família, restaurador do bem perdido, interventor místico, que por obra e graça do acaso ou do nosso fracasso, vai, sim, a partir do nada, começar um novo mundo. Esse messias moverá a espada Excalibur da pedra e será proclamado nosso líder com poderes acima de qualquer defeito ou falhas, sejam de quais naturezas forem, inclusive as de cunho moral e ético.
Em uma espécie de renovação das esperanças do retorno do Encoberto, vivemos acreditando em um mártir que, na posteridade, será pintado em estandartes como aquele que nos salvou. A única coisa certa disso tudo é que no Brasil de hoje há um farto e fértil terreno para o sebastianismo prosperar.
Há momentos que creio ser necessário nos perguntarmos por quê. Afinal, por que esperarmos por mudanças grandiosas que virão de uma única pessoa quando poderíamos agir conforme uma das frases mais conhecidas de Mahatma Gandhi “seja a mudança que você quer ver no mundo”? Ou melhor ainda, como diria meu poeta da periferia predileto, Sérgio Vaz: “Revolucionário é todo aquele que quer mudar o mundo e tem a coragem de começar por si mesmo.”
Por que é tão difícil mudarmos pequenas coisas ao nosso redor para que a transformação que tanto almejamos ocorra em larga escala? Talvez a resposta esteja no nosso fascínio por super-heróis. Só não devemos nos esquecer que os super-heróis estão no imaginário inocente das crianças e se alimentam do narcisismo, sempre se colocando acima da lei.
É preciso ser mais pé no chão. É preciso enxergar que não será o glamouroso “Superman”, que surge com toda a pompa e circunstância para salvar alguém em perigo e combater o inimigo, mas, sim, a simplicidade, as imperfeições, as contradições e as inquietações de um “Macunaíma” que, de fato, fazem parte da nossa realidade. Menos fantasia e fanatismo. Mais verdade e lucidez. É do que o Brasil precisa.
Carlos Bezerra Júnior
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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