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Luciana Brito

O Haiti: símbolo de um sonho de liberdade nas Américas

12 de julho de 2021

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Pouco estudada, Revolução Haitiana do século 19 espelha acontecimentos atuais do país caribenho e a forma como ele é retratado

Poucas e poucos de nós, quando estudantes do ensino fundamental e médio, aprendemos sobre a Revolução Haitiana. A importância da declaração da independência da pequena ilha do Caribe, fruto de uma revolta liderada por pessoas escravizadas, é muito maior do que as imagens de barbárie que circularam na mídia nos últimos dias. A advertência tem sido evidente: o Haiti de 2021 tem sido utilizado como exemplo do poder das milícias em desestabilizar governos, instalar o caos social e fortalecer governos autoritários. Entendo o esforço na analogia, mas a questão do Haiti é muito mais complexa.

A pequena República do Haiti, antiga Santo Domingo, já foi exemplo de crença na liberdade para as pessoas negras do Brasil e no mundo, ao mesmo tempo que foi o terror dos senhores de escravos de todas as Américas. Sobre a Revolução Francesa, ocorrida de 1789, já ouvimos falar pelo menos duas vezes na vida escolar. Se a Revolução Francesa imprimiu no mundo ocidental os ideais de “liberdade, igualdade e fraternidade”, quando os ventos atlânticos chegaram na colônia escravista francesa de Santo Domingo, a população negra escravizada, grande maioria da população, entendeu que aquela liberdade também significava o fim da escravidão, mas não foi bem assim. Quando entenderam que a tal liberdade não incluía a população negra escravizada das colônias, revoltaram-se sob a liderança do general Toussaint Louverture, decretaram a deportação ou morte dos franceses e puseram fim à escravidão e ao sistema de castas na ilha, que colocava os brancos na condição de cidadãos plenos e mulheres e homens mestiços como pessoas intermediárias, sem possibilidades de ultrapassar a barreira social que lhes era imposta pela cor. A grande maioria da população, mais de 400 mil pessoas, era escravizada e seu trabalho fazia do Haiti a maior nação produtora de cana-de-açúcar até a revolta. A riqueza produzida pela mão de obra escravizada sustentava não só a riqueza e o poder da França, mas também das elites escravistas da ilha, que também eram francesas.

Traído por Napoleão Bonaparte, o general negro Toussaint foi levado para a França e por lá morreu no cárcere. A resistência ao domínio francês prosseguiu sob a liderança do agora general Jean Jacques Dessalines que, finalmente, em 1804, derrotou o exército francês, executou todos os senhores de escravos da ilha e declarou independente a República do Haiti, primeira república negra das américas, pioneira também na abolição da escravidão.

A revolta, que aconteceu sob as bênçãos dos deuses africanos, já que a população negra praticava o Vodu, foi temida em todas as américas escravistas. Foi justamente com a saída do Haiti da economia escravista internacional que o tráfico de africanos para o Brasil aumentou, assim como a escravidão no sul dos EUA endureceu, uma vez que agora as nações escravistas disputavam entre si o posto de maior nação produtora de cana-de-açúcar no mercado mundial. Mas da mesma forma pessoas negras escravizadas também olhavam para o Haiti como exemplo de resistência à escravidão. No Brasil, mulheres e homens negros apavoravam a sociedade escravista quando cantavam vivas ao imperador do Haiti, falavam abertamente dos negros livres de Santo Domingo e até mesmo quando carregavam imagens do imperador Dessalines. Essa “má influência” do Haiti sob a população escravizada do Brasil ficou conhecida como “haitianismo”. Nos Estados Unidos a população negra afro-americana também estava atenta aos acontecimentos da ilha, especialmente em 1831, durante a revolta de Nat Turner no Condado de Southampton, na Virgínia.

O revanchismo das nações escravistas europeias e americanas sobre o Haiti foi cruel. A nação, até então rica, ficou isolada do resto do mundo, que não a reconhecia como nação. A economia de exportação de cana-de-açúcar, que correspondia a cerca de 40% do mercado mundial, caiu para uma agricultura de subsistência, enquanto outras nações escravistas enriqueciam. Fora do mercado e das relações diplomáticas, no século 19, o Haiti começou a cair na profunda pobreza que hoje conhecemos, fruto de um longo processo histórico, do escravismo e do racismo ocidental.

Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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