Coluna

Lilia Schwarcz

Quando torcer contra o país significa torcer a favor dele

19 de julho de 2021

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Durante a Copa do Mundo de 1970, quem torceu a favor da Ditadura Militar torceu contra o Brasil que viu sua democracia ser transformada numa arena romana baseada no pão e circo

Não poucas vezes na história torcer contra significou torcer a favor. Aliás, essa não pode ser definida como uma situação de exceção ou eventual. Tampouco como uma mera coincidência. Contra ou a favor são situações polares, e, portanto, uma tomada de decisão em uma das direções significará sempre abdicar de outra. Em geral, quem é contra se opõe a algo que desgosta e lhe faz mal. Quem é a favor defende a bandeira de algo em que acredita. Mas por vezes essas relações se invertem. Quem é contra luta para que uma situação injusta se altere. Já aquele que é a favor muitas vezes representa o grupo no poder e quer, justamente, que ele se perpetue. Portanto, ser contra ou a favor não são situações fixas e nem é possível uma atitude normativa diante delas. Seu significado está sempre em risco e só faz sentido no interior de um determinado contexto.

Vamos aos exemplos. Aprendemos na nossa história, dita universal – mas que na verdade é apenas Ocidental, incluindo-se a Europa Central e os Estados Unidos –, que a modernidade começou com três revoluções: a Industrial, que mostrou ao mundo que pessoas podiam ascender e decair numa sociedade de classes e não mais estamental; a Francesa, que provou que ninguém, nem ao menos o rei, tem poder divino – todos devem passar pelo julgamento da sociedade; e a Norte-Americana, que determinou como uma colônia poderia se livrar do jugo dos colonizadores e até agir como metrópole. Não foi, porém, por obra do esquecimento que nos nossos compêndios de História, uma quarta revolução foi sistematicamente apagada. Me refiro à Revolução de São Domingos, atual Haiti, que ocorreu basicamente no mesmo contexto – de 1791 a 1804. Ela representou, simbólica e praticamente, que escravizados poderiam se libertar e gerir os Estados em que até então viviam oprimidos e subjugados. Inverter sua condição.

Foi exatamente isso que ocorreu nessa colônia francesa – a pérola do Caribe, como era então definida. Por lá, um movimento muito mais radical do que a Revolução Jacobina deixou claro como a noção de liberdade, preconizada pelos franceses, não incluía as pessoas escravizadas. Foi então necessário provar na marra e na base do assassinato de todos os proprietários de terra brancos que a escravidão era não só um sistema infame como tinha seus dias contados.

O silêncio dos arquivos prova, entretanto, como nem todo mundo torceu a favor dos oprimidos. Na verdade, a grande maioria torceu contra, e inclusive bloqueou o jovem país independente, que foi durante toda a sua história muito prejudicado por esse tipo de torcida: uma torcida contra o Haiti e, sendo assim, contra a liberdade.

Parecia ser mais fácil falar em liberdade, igualdade e fraternidade para si do que para os “seus outros”: os africanos escravizados que até então “serviam” como mão de obra forçada e compulsória. Eles e elas foram excluídos desses princípios ditos universais.

Torcer contra a vitória do Brasil na final da Copa América de 2021 significou na verdade torcer a favor. A favor de um outro Brasil

E não foi só a França revolucionária que torceu contra a liberdade alheia. Também países escravocratas como o Brasil fizeram o mesmo. Tanto que o termo “haitianismo” virou adjetivo com sentido negativo, com os senhores encontrando perigo e denunciando todas as vezes em que seis ou mais escravizados estivessem reunidos. Portanto, por aqui se lutou muito “contra” movimentos de autonomia, a despeito das elites advogarem a independência política, com relação à metrópole portuguesa, a partir do princípio “universal” da autonomia. Também a primeira Constituição do Império tratou da liberdade, mas nela não incluiu os escravizados. Como se pode notar, torcer a favor da autonomia do Brasil não tinha nada a ver com torcer a favor da liberdade dos cativos. Tanto que, o primeiro país com quem a monarquia brasileira estabeleceu relações diplomáticas, logo em outubro de 1822, foi Angola, na época o maior provedor de mão de obra escravizada.

Talvez o exemplo mais conhecido nesse certame do “torcer contra é torcer a favor” seja a história do nazismo. Por conta dos tratados que estabeleceu após sua derrota na Primeira Guerra Mundial, a Alemanha dos anos 1920 era uma nação falida. E junto com a crise econômica e o desemprego que se abateram no país, cresceu o radicalismo político e social. E, com ele, muita gente passou a acreditar que ser a favor de seu país significava ser contra muita gente: os comunistas, os judeus, os ciganos, as pessoas com deficiência. Esses viraram “os outros dos outros” e precisavam ser eliminados. O final da Guerra mostrou uma Alemanha com valores partidos: a vergonha diante do crime de lesa humanidade mal guardada nos campos de concentração, o julgamento sumário de quem torceu a favor e se aproveitou dessa situação, o trauma e a morte em massa daqueles que faziam parte e torciam pela pátria alemã e se viram forçados a torcer contra. Fenômeno semelhante ocorreu com a Itália fascista, que transformou em estrangeiros muitos dos seus cidadãos, e na antiga URSS com o stalinismo. Por lá, quando os campos foram abertos ficou claro como era preciso torcer contra. Torcer contra todas as formas de totalitarismo; fantasma maior da democracia.

Também no Brasil já tivemos vários momentos em que quem torceu contra estava na verdade torcendo a favor. Nos tempos da Ditadura Militar, que durou de 1964 até 1985, muita gente para lutar a favor teve que brigar contra. Durante 21 anos, o Brasil contou com cinco mandantes militares e instituiu 17 atos institucionais – mecanismos legais que se sobrepunham à Constituição e que sistematicamente tolheram os direitos dos brasileiros. Nesse período houve grave restrição à liberdade, repressão aos opositores do regime e censura sistemática.

Em meio a esse cenário conflagrado, lançaram-se à luta armada dezenas de organizações, das quais destacaram-se a ALN (Ação Libertadora Nacional), o Colina (Comando de Libertação Nacional), o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), o PCdoB (Partido Comunista do Brasil), a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e a Vanguarda Armada. Muita gente que torcia a favor da Ditadura não teve dúvida ao definir esses grupos como terroristas e subversivos, no sentido de serem contra o Estado, e de subverterem a ordem e a lei.

O tempo provou, porém, que a Ditadura brasileira não trouxe qualquer “milagre” econômico, social e político. Depois de tantos anos no poder, os militares entregaram um país falido e com uma inflação galopante, resultado da má gestão e da corrupção que fazia parte do coração do sistema. O tempo também provou quão arbitrários, violentos e autoritários foram os dirigentes militares que fizeram do Estado uma máquina de tortura. A Comissão Nacional da Verdade, em seu relatório final, reconheceu 434 mortes e desaparecimentos políticos entre 1964 e 1988, dos quais a maioria ocorreu no período da ditadura. Mesmo assim, por força da Constituição, que foi escrita num momento de redemocratização, concedeu-se anistia aos militares – eles podiam, assim, serem mencionados pela equipe que integrou a CNV, mas não julgados. O resultado é um país sem política de reparação e que não pode julgar como aqueles que eram a favor da ditadura jogaram contra o país: contra a pátria e os brasileiros.

Nesse ínterim, a Copa do Mundo de 1970 foi transformada num momento simbolicamente carregado. O evento esportivo, a 9ª edição da Copa do Mundo, ocorreu de 31 de maio até 21 de junho, durante os anos de chumbo da Ditadura Militar. A competição, sediada no México, foi conquistada pelo Brasil, e virou palco de disputa contra e a favor. Os jogos não acabavam nos 90 minutos regulares ou na prorrogação, isso porque a partida vinha carregada de outros sentidos. O então dirigente militar Emilio Garrastazu Médici fez de tudo para agenciar o resultado favorável, incentivando gestos de “patriotismo”, recebendo os jogadores pessoalmente, organizando desfiles, ao mesmo tempo que torturava brasileiros e brasileiras nos porões da caserna. Sendo assim, quem torceu a favor da Ditadura Militar torceu contra o Brasil que viu sua democracia ser transformada numa arena romana, na base do “pão e circo”.

Foi exatamente esse tipo de pensamento que assolou parte dos brasileiro e brasileiras na final da Copa América, agora em julho de 2021. Fiquei pensando então que torcer contra a vitória do Brasil significou na verdade torcer a favor. A favor de um outro Brasil. A favor de um Brasil que seja menos paternalista, misógino e machista como esse, que agora ocupa o Palácio do Planalto. Significa torcer a favor de um Brasil que já foi campeão em vacinação pública e hoje patina na área da saúde e se demonstra incapaz de imunizar sua população num tempo desejável. Representa também torcer contra esse governo obscurantista, que trata com desdém qualquer informação de qualidade, faz ideologia com vacinas, inventa tratamento precoce que na verdade é atrasado, pois não segue os preceitos da ciência e do SUS. Significa dizer não a jogadores como Neymar que simbolizam a falta de caráter desse governo, que se pauta pela ética da malandragem e do levar vantagem em tudo. Torcer contra é torcer a favor de um país menos racista, que não impõe uma só religião, apenas uma forma de família e uma maneira de estar no mundo.

Somos muitas, muites e muitos. O que aconteceu na final entre Brasil e Argentina, não foi uma torcida brasileira a favor do país rival – justo a Argentina contra quem temos uma rixa futebolística tradicional. Foi antes uma torcida profundamente a favor do Brasil e que por isso torceu circunstancialmente contra seu país. Até porque, essa é hoje uma nação tocada por antipatriotas que sequestraram o Brasil, seus ideais, sua realidade, sua utopia, seus símbolos diletos.

Quero muito que chegue logo o dia de torcer a favor. A favor do Brasil em que acredito, um país que já foi e ainda será. Em tempo: #foraBolsonaro.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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