Coluna

Luciana Brito

Um flecha que veio de Tóquio no país dos terrivelmente racistas

26 de julho de 2021

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Do Japão, o jogador Paulinho nos lembra a não nos acomodarmos com a tragédia política e sanitária que vivemos

No último sábado, dia 24 de julho, um ato político teve como iniciativa queimar a estátua de Borba Gato , localizada em São Paulo, umas das várias estátuas que homenageiam (mais um) dos maiores escravistas da história do Brasil. Imortalizado na imagem de corpo inteiro, para que sempre seja lembrado por qualquer pessoa que passe na via pública, Borba Gato, assim como todos os bandeirantes, promoveram violências de todas as ordens para levar a cabo o projeto de ocupação branco europeia do Brasil, que se tornou a maior nação escravista das Américas.

Enquanto aplaudem atos semelhantes em outros países, opiniões vacilantes e supostamente ponderadas trataram de imediatamente gritar “alto lá” e esvaziar o ato político acusando-o de ser um ataque ao patrimônio histórico brasileiro. Pois bem, aguardo os mesmo posicionamentos dessas pessoas sobre os atos de ataque ao patrimônio, cosmovisão e cultura brasileira quando tratamos de vidas, assim como territórios e espaços sagrados afro-brasileiros e indígenas.

Vejamos então o episódio a seguir.

Dias antes, numa quarta-feira, e não poderia deixar de ser, a Yalorixá Ivone Maria de Oya decidiu, com a permissão dos orixás (com certeza) mandar sua mais nova filha de santo para a escola , uma menina de 13 anos. Vestida com seus trajes de Yaô, carregando seu apoti (banquinho) e acompanhada da sua mãe biológica, a jovem foi informada pelo porteiro da escola que ela não poderia sentar no banquinho durante as aulas. Em seguida, veio lá de dentro da escola a postura de desprezo da diretora da unidade escolar, que disse: “diga a ela para ir (pra casa) que não vai tomar falta”, como se o direito à educação, obviamente algo valorizado pela Yalorixá e pela família da jovem, resumia-se a um X na caderneta de frequência da estudante.

Ciente dos seus direitos porque, como falamos aqui na Bahia, “ninguém mais é besta”, a Yalorixá foi à portaria da escola, cujos porteiros, exercendo seu suposto micropoder, em nenhum momento permitiram que a menina, Yalorixá e mãe biológica, todas mulheres negras, discutissem a questão no interior da escola. Da portaria mesmo, a Yalorixá explicava a delicadeza do processo religioso vivido pela estudante: “Enquanto ela estiver com a Jóia no pescoço ela não pode sentar em cadeira”. A “jóia” em questão está longe de tratar-se da jóia do mundo material, ouro ou prata, e por se tratar daquilo que consideramos ser um “segredo”, não discorrerei sobre isso.

Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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