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Desde o final de outubro estou entre Nova York e Princeton para dar aulas nessa universidade norte-americana. Tenho mantido esse tipo de agenda desde 2009, o que tem feito com que eu acompanhe, desde então, a construção e a desconstrução de certas imagens externas do país. Ou seja, presenciei desde o crescimento do interesse nesse que seria “um país do futuro”, ou da “promessa de futuro”, até sua queda flagrante, nesses últimos tempos. Sintomático, nesse sentido, foi um comentário que ouvi ao entrar num restaurante cujos funcionários conheço de longa data. Ao me ver o gerente disse, amigável: “— How are you doing, professor? I am so sorry for your country as you have a very crazy president”. (Como vai tudo no seu país, professora? Eu sinto muito por seu país já que vocês têm um presidente muito maluco).
Essa não foi, todavia, a primeira vez que me deparei com essas reações de solidariedade diante do péssimo estado em que nos encontramos no Brasil. E podem me acreditar que nem sempre foi assim. Na representação internacional já fomos um país em ascensão, já fomos um país BRIC (termo utilizado para designar um grupo de países de economia emergente, onde o Brasil aparece junto com Índia, África do Sul e China, que se encontram no momento a muitos e vários quilômetros de distância – em vários sentidos – em relação a nós), já fomos o país da esperança e hoje somos conhecidos como o país governado por líderes de extrema direita, sem responsabilidade civil e social, e que têm feito uma péssima gestão com relação à covid, à economia, à educação e ao meio ambiente.
Não é coincidência, portanto, que o representante maior do país, seu presidente Jair Bolsonaro, tenha se saído cada vez pior em suas visitas oficiais ao exterior. Na última vez em que esteve nos EUA, por exemplo, realizou um discurso risível na ONU acerca da sua gestão, bem como se fez fotografar junto com seus asseclas comendo pizza nas ruas de Nova York. Só não disse a razão para tal situação inusitada, em se tratando de um chefe de Estado de uma nação estrangeira. Na verdade, estava impedido de entrar em qualquer restaurante em Manhattan uma vez que não tem carteira de vacinação contra a covid, exigida na maior parte dos estabelecimentos.
Nesse mês de outubro foi a vez da comitiva presidencial – mais uma nababesca boca livre oficial – ser recebida com solene indiferença em sua viagem à Itália, para participar do encontro do G20. Numa reunião informal com os líderes mundiais, ficou emblemático um vídeo que mostrava o brasileiro completamente isolado, sem jeito e procurando de alguma maneira se ambientar. Bolsonaro aparece em um canto da sala, secundado apenas por seus comparsas e olhando a movimentação geral.
Em um determinado momento ele se aproxima de alguns garçons que trabalhavam numa bancada oferecendo bebidas e comidas, pede uma água em português, faz algumas piadas sem graça, que ninguém entende por conta do idioma, e segue ignorado. Em outro momento, comenta algo com uma pessoa de sua comitiva, apontando para Angela Merkel e Emmanuel Macron, como se fosse uma criança com medo de abordar pessoas mais velhas e realmente maduras na sala. Sua única interação foi com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, um político que se parece muito com ele nas ações antidemocráticas, mas que, mesmo assim, depois de uns poucos minutos de conversa fiada, se mostrou desconfortável e deixou o colega. Aliás, por conta de uma insistência quase adolescente, o brasileiro era o único líder mundial sem máscara.
A moral de uma nação é construída lentamente, mas pode ser destruída de forma muito rápida. E pior: toma tempo reconstituir uma imagem pública maculada
Quando teve algum espaço com os jornalistas, Bolsonaro soltou suas mentiras de praxe e caprichou: disse que Lula tem pacto na distribuição de drogas com as FARC da Colômbia, e vangloriou-se de ter um bom nível de popularidade no Brasil; que sabemos está longe de ser verdade.
O certo é que, por absoluta incapacidade, Bolsonaro não fez diplomacia, não dialogou, não trocou ideias, não pensou em implementar ou desenvolver parcerias para seu país. Nem sequer posou com os outros líderes na famosa foto comemorativa em frente à Fontana di Trevi em Roma. Não estava lá na hora do clique. Fez o que faz de melhor: fugiu pela porta dos fundos de seu hotel para visitar uma casa de frios e comer salame.
Mas a viagem não deu lá muito certo. Ele foi hostilizado, fez birra, seus seguranças agrediram covardemente os jornalistas que cobriam sua péssima performance. Para piorar, o presidente resolveu não passar nem perto da COP26, que acontece na Escócia, onde líderes mundiais se encontram para debater soluções e tentar diminuir o sofrimento climático do planeta. O Brasil foi representado pelo ministro do meio ambiente, Joaquim Leite, que faz cara de vaso, além de 10 governadores; estes sim com claro propósito de servirem de contraponto aos planos desse governo que tem como projeto acabar com nossas reservas ambientais. Ninguém pode negar a importância do Brasil nessas questões e o impacto planetário da Amazônia; é assim vergonhoso que seu presidente não apareça para o debate. Nesse aspecto, Bolsonaro foi, porém, previdente – digamos assim. Em primeiro lugar, sabe que não tem conhecimentos para entrar com propriedade nesse debate. Em segundo, tem certeza de que seria massacrado por quem entende, de fato, do assunto e que tem ciência de que o Brasil, atualmente, não é uma solução, mas um problema ambiental para o mundo.
O capitão não perde, entretanto, a oportunidade de ganhar um pódio. Por isso fez questão de visitar a cidade de seu bisavô Vittorio Bolzonaro, chamada Anguillara Veneta, onde até recebeu uma homenagem da prefeita (da extrema direita italiana), não sem sofrer mais protestos e repúdios de pessoas que deixaram claro como não havia ali nada a celebrar.
Para fechar a agenda, Bolsonaro ainda achou tempo para encontrar o líder do partido italiano de extrema direita, Liga Norte, Matteo Salvini, na cidade de Pistoia, região central da Itália. Os dois participaram de uma cerimônia em frente ao monumento erguido em memória dos quase 500 pracinhas brasileiros mortos na Segunda Guerra Mundial. Em tempo: no mês de agosto passado, o subsecretário de Economia da Itália, filiado ao partido de Salvini, renunciou após sugerir que um parque de sua cidade natal fosse renomeado em homenagem ao irmão do ditador fascista Benito Mussolini. Já o próprio Salvini responde a uma ação judicial por ter impedido – na época em que ocupou o cargo de ministro do Interior – o desembarque de um navio com mais de 140 migrantes resgatados no mar Mediterrâneo por uma ONG.
Enfim, conhecido por suas posições xenófobas, Salvini já se referiu várias vezes a Jair Bolsonaro como “o meu amigo brasileiro” e mantém relações cordiais com Eduardo Bolsonaro, com quem já fez algumas lives. Na ocasião, o líder radical italiano defendeu publicamente a forma como o governo lidou com a pandemia, que deixou até o momento quase 610 mil mortos no Brasil.
O certo é que, isolado internacionalmente, Bolsonaro teve que se conformar com uma agenda magra nessa sua passagem pela Itália. Na verdade, pouco importa. Não me preocupo com o que o presidente faz ou deixa de fazer. Me preocupo com o que custa para os bolsos dos brasileiros e brasileiras, e com o papel que ele representa no exterior, manchando assim também a imagem de nosso país.
O filósofo Emile Durkheim chamou atenção sobre a dimensão simbólica do poder político. Já eu gostaria de inverter o tema e trabalhar com a dimensão política do poder simbólico. Na verdade, ao virar piada no exterior, por extensão, ele faz o mesmo com o país, que vai se tornando, junto com ele, motivo de chacota. Estamos voltando à representação do passado do país das bananas, corrupto, violento, pobre e governado por políticos fascistas e autoritários. E que ninguém esqueça: falta de credibilidade significa fechamento de portas, de divisas, de verbas e de acordos internacionais.
A moral de uma nação é construída lentamente, mas pode ser destruída de forma muito rápida. E pior: toma tempo reconstituir uma imagem pública maculada. A nossa representação externa tem sido, e muito, vilipendiada nesses três anos de gestão Bolsonaro. Viramos o país dos memes, das gracinhas, do ridículo e do exótico. A última do presidente foi confundir, em fala a jornalistas na Itália, o nome do enviado especial dos Estados Unidos para questões climáticas, John Kerry, com o ator e humorista Jim Carrey. O presidente estava em Anguillara Veneta, no norte do país, e falava de encontros que teve com autoridades. “Sim, conversei com o Jim Carrey também, alguma coisa reservada. Desculpa, não posso falar com vocês”, disse.
O presidente pretendia elevar sua pessoa e performance no exterior, aludindo a um tema “secreto” que teria tratado com o especialista. No entanto, sua gafe revelou sua ignorância na matéria e se espalhou pelas redes sociais. Não foram também poucas as imagens de Bolsonaro como Jim Carrey, o humorista, recebendo homenagem na minúscula cidade de onde provém sua família, e que, por coincidência, tem como prefeita uma política retrógrada como ele. Coincidência ou destino? Não sabemos, pois, o que queremos de fato saber é o que Bolsonaro foi fazer, empreender e realizar no exterior. Nada; talvez uma versão reloaded de “Debi & Loide” .
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
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