Coluna

Luciana Brito

Dia da Consciência Negra: o protagonismo negro na luta antirracista

15 de novembro de 2021

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Foram homens e mulheres negras que, durante décadas de luta, denunciaram a democracia racial e ofereceram ao país uma proposta de nação verdadeiramente democrática

Chegamos a mais uma semana da Consciência Negra e até sábado, 20 de novembro, estaremos exaustes. Lutamos muito ao longo de décadas pelos chamamentos das escolas públicas, das associações de bairro, dos sindicatos e outras instituições populares. Estas são antigas parcerias que, ainda que anuais, sempre convocam a militância negra para dar uma palestra falando do racismo no Brasil.

Recentemente, sobretudo desde a morte de George Floyd, essas organizações populares disputam lugar com novas instituições aliadas: escolas particulares, muitas delas de elite, empresas, veículos da grande imprensa que esperam que, gratuitamente e de uma só vez, a intelectualidade negra brasileira responda à sua curiosidade e fale das agruras do que é ser uma pessoa negra no Brasil. A depender do vínculo da instituição com uma perspectiva da vida negra como espetáculo, se chorarmos, melhor.

A militância negra brasileira, desde os anos 1960 e 1970, enquanto defendia uma das suas pautas principais, que era denunciar a democracia racial, é a protagonista da luta antirracista. Foram mulheres e homens negros, organizadas na luta antirracista, que durante décadas ensinaram ao Brasil o que é ser negro no Brasil, e como o país trata as pessoas negras. Desafiaram a ditadura militar e enfrentaram a ilegalidade para contrariar a ideia de que vivemos num país da harmonia entre as raças onde todes somos misturades.

Não só isso: o movimento negro sempre ofereceu ao Brasil uma proposta de nação, insistentemente, mesmo quando o país não quis nos ouvir. Isso mesmo quando setores mais progressistas da sociedade não estavam convencidos e acreditavam ser exagero quando denunciava-se a violência racial brasileira. Desde as lutas pela democracia mulheres e homens negros militantes, atuando lado a lado com pessoas brancas, não abandonaram a luta e tinham a dupla tarefa de defender uma democracia plena (antirracista), entre as/os “seus”. Assim era nos partidos, nos sindicatos e até mesmo no movimento feminista, no qual mulheres negras denunciavam os limites das suas “companheiras” que acreditavam numa emancipação da mulher (branca) que convivesse com o racismo e o classismo.

Como dito, o movimento não só denunciava como propunha, estivessem seus interlocutoras/res dispostas a escutar ou não: nas artes, na política, nas políticas de saúde, na educação, o movimento negro brasileiro trouxe outras alternativas, todas elas mais inclusivas e democráticas, para o Brasil. Mulheres e homens negros, gays, lésbicas, transexuais denunciavam as relações de interdependência entre o controle e o cerceamento da sexualidade, o patriarcado e a exploração. Na intelectualidade, contrariando interpretações hegemônicas do Brasil como “paraíso das três raças”, que suavizavam os horrores da escravidão, a historiadora Beatriz Nascimento defendia a importância de “uma história escrita por mãos negras” – ou seja, a participação e colaboração de uma intelectualidade negra – que certamente traria outras perspectivas para a história do Brasil, até então uma prorrogativa de homens brancos legitimados não só pelo seu “prestigio intelectual”, mas também pela sua poderosa rede de relações, composta também por homens brancos.

Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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