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Alicia Kowaltowski

A importância nutricional do feijão com arroz

17 de novembro de 2021

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A melhor dieta em termos de prevenir mortalidade é aquela em que a base da alimentação é feita a partir de carboidratos complexos como os presentes na brasileiríssima dupla

Foi com grande preocupação que li que se espera uma queda de 7,4% na produção brasileira de feijão em 2021 em comparação com 2020, resultado de fenômenos climáticos como a seca . Essa diminuição se adiciona a uma tendência de várias décadas de declínio no interesse de agricultores pela produção de feijão. Dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) indicam que a área de plantio de feijão no Brasil caiu de 5,7 milhões para 2,9 milhões de hectares entre 1981 e 2021. Embora esta queda de área plantada tenha sido acompanhada por um aumento de produtividade do grão por hectare, produto do trabalho incessante e competente de instituições de melhoramento agrícola nacional como a Embrapa e o Instituto Agronômico , ainda representa uma situação preocupante em um país assolado pela insegurança alimentar , e em que o grão representa uma base importante da alimentação.

O feijão não é somente um alimento básico tradicional brasileiro; é um alimento que merece destaque no prato pelo seu valor nutricional. O consumo de leguminosas como o feijão é largamente associado a populações mais saudáveis, com menos doenças e maior sobrevida. O feijão é nutricionalmente excelente, rico em micronutrientes e fibras. Como outras leguminosas (classe que inclui feijões, ervilhas, lentilhas, e grão de bico), possui uma quantidade de proteínas maior que aquela normalmente encontrada nas plantas. Proteínas são essenciais para nossos corpos, constituindo as moléculas mais ativas e com funções mais variadas que temos. Atuam como enzimas, promovendo as reações metabólicas que produzem energia para nós e nos mantêm vivos. Atuam como moléculas estruturais, nos mantendo com a forma que temos e permitindo movimentos musculares. Atuam produzindo, transportando e reconhecendo os neurotransmissores que nos fazem pensar. Sem proteínas não há vida, mas nós, humanos, só conseguimos produzir nossas proteínas se comemos proteínas, pois não temos vias metabólicas capazes de transformar outras moléculas nelas. Daí a importância de se alimentar com elas.

Mas não basta comer proteínas vegetais para garantir que podemos produzir as nossas proteínas. Proteínas são formadas por aminoácidos, que são moléculas menores que, unidas, formam as mega-moléculas que chamamos de proteínas – aminoácidos são como se fossem tijolos que constroem as proteínas . Para produzir as nossas proteínas animais, precisamos de 20 tipos diferentes de aminoácidos, pois a maior parte das nossas proteínas usam todos esses tipos de “tijolos” em sua estrutura. A falta de qualquer aminoácido impede a construção da proteína inteira em nossos corpos. A maioria das plantas, por outro lado, são pobres em variedade de proteínas, podendo faltar algum aminoácido essencial, que são aqueles que nosso corpo não consegue produzir nem mesmo a partir de outros aminoácidos. A soja é famosa como fonte de proteína vegetal (especialmente em produtos concentrados de proteína como o tofu), pois possui todos os aminoácidos essenciais para nós, humanos. Sua produção no Brasil é especialmente interessante economicamente, pois a quantidade de proteínas na soja brasileira é maior que a média mundial. Mas o grão, embora saudável, não faz parte da cultura alimentar brasileira básica, e sua produção local é mais voltada para a exportação.

O feijão é menos famoso como fonte de proteínas pois é pobre em dois aminoácidos importantes (cisteína e metionina). Porém, é um alimento tradicional no nosso mercado. Além disso, no Brasil é quase sempre servido acompanhado de arroz, que, embora pobre de forma global em proteínas, é fonte significativa de cisteína e metionina. O resultado é que o brasileiríssimo feijão com arroz é uma ótima fonte vegetal de proteínas, tanto em termos de quantidade, quanto em termos de qualidade dos aminoácidos essenciais.

Mas não é só no conteúdo e na qualidade proteica que a combinação de feijão com arroz brilha do ponto de vista nutricional. A maior parte da nutrição presente nesta combinação é na forma de amido, e não proteínas. Amido é uma forma de carboidrato conhecida como carboidrato complexo, pois consiste em milhares de moléculas de glicose (um carboidrato simples) ligadas entre si. Carboidratos na dieta são muito malfalados, mas não merecem a reputação ruim, pois são importantes fontes de energia para nossos corpos. Isso é especialmente verdade para os carboidratos complexos e acompanhados de fibras como o feijão com arroz, que libera glicose lentamente nos nossos estômagos e mantém a glicose no sangue estável nos níveis necessários para nossas células. Não é o carboidrato que engorda, mas sim o carboidrato em excesso, e a verdade é que tudo em excesso (proteína, carboidrato ou gorduras) engorda – somos metabolicamente e evolutivamente selecionados para armazenar qualquer excesso como gordura .

Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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