Coluna

Luciana Brito

O país ‘terrivelmente evangélico’ e a religiosidade popular

13 de dezembro de 2021

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O projeto político que segue vitorioso nas pequenas salas de Brasília é o avesso da forma como a cultura popular lida com as possibilidades e as contradições

Diferente da alegria que marcou a comemoração da primeira-dama, celebrando a aprovação do ministro “terrivelmente evangélico” para o STF (Supremo Tribunal Federal), eu entristeci. Mais do que uma celebração da vitória do fundamentalismo cristão, se olharmos bem para as personagens que comemoram aquela que foi supostamente uma “vitória divina”, perceberemos que outras coisas estão em questão: a celebração era hetero-patriarcal, mas sobretudo da supremacia branca brasileira.

Na festa, não cabiam nem as mulheres negras evangélicas que lotam as igrejas e que talvez até vejam-se equivocadamente representadas na vitória das pessoas daquela sala. Mulheres diferentes delas, aliadas do projeto patriarcal pulam, choram e gritam “glória a deus” ou falam línguas e abraçam seus aliados masculinos. Não devem se preocupar com os desdobramentos de um projeto que subjuga mulheres, pois veem-se preservadas e até mesmo protagonistas nas costuras que garantem a concretização daquele projeto de poder.

A mulher evangélica negra e pobre reza para que o Auxílio Emergencial seja finalmente pago e que ela seja contemplada. Ela tabém pede ao seu deus para que seu filho gay e sua filha lésbica não sejam vítimas de violência na rua, para que o desempregado arrume um emprego e que, pela glória de deus, as contas sejam pagas no final do mês. Essa mulher também reza para que quem usa drogas deixe de usar e que, sob um escudo divino, os jovens das suas famílias nunca sejam vistos pela bala da polícia. Pedem para que a Justiça seja boa, e venha sob benção também divina, representada num juiz bom ou numa juíza piedosa, que decidirá o destino de um filho, um neto ou qualquer ente querido na audiência de custódia.

“Terrivelmente evangélico”, como bem foi dito no artigo dos doutores Sidnei Barreto Nogueira e Hédio Silva Junior, é um projeto de violência. Os autores, ao indagarem “terrivelmente contra quem?”, deixam a pergunta solta no ar ao mesmo tempo que anunciam a resposta colocada de forma primorosa: sendo o projeto “terrivelmente evangélico” um projeto racista, num país de maioria negra, que inclusive também está nas igrejas, o ódio racial mira de frente, sobremaneira, as pessoas negras praticantes de religião de matriz africana, demonizada por esses grupos. O projeto terrível também mira certeiro as populações LGBTI+ brasileiras, cujas preocupações não são somente o direito ao casamento civil, mas também à própria existência no país que mais mata pessoas dessa comunidade no mundo.

O mais novo ministro não é o primeiro evangélico no cargo, mas é talvez aquele declaradamente comprometido com o projeto fundamentalista cristão, cujo chefe do Executivo, sem constrangimento algum declara o quanto o fundamentalismo religioso pesou na escolha, a despeito de vivermos num Estado laico. Chama-me atenção na imprensa a tranquilidade com que o termo “terrivelmente evangélico” é legitimado ao passo que é repetido como critério real para a escolha do novo ministro, naturalizando a “passagem da boiada” por cima da Constituição.

Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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