Coluna

Lilia Schwarcz

História pela metade: os desbravadores e mercenários violentos

02 de agosto de 2021

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A figura do bandeirante surgiu com espessura suficiente para ser romantizada. Em vez do apresador de escravizados fugidos e indígenas inventa-se essa figura grandiosa

A figura do bandeirante funciona como um “prato feito” para tratarmos aqui de narrativas históricas e imaginários coloniais. São Paulo, no final do século 19 e início do 20, despontava no cenário nacional por conta da pujante economia cafeeira. Mas se o café havia mudado a posição do estado no cenário nacional, a capital dos paulistas ainda carecia de uma proeminência política e cultural compatível com sua situação financeira.

Por isso a história do IHGSP (Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo) encontra-se amarrada a esse momento em que o estado era entendido como a “locomotiva” do país, mas não conhecia maior influência nos circuitos letrados nacionais.

Os institutos históricos começaram a ser criados durante o século 19 para produzir uma história enaltecedora e grandiosa. Estavam sempre prontos para elevar e inventar personagens grandiosos para os seus estados que, aliás, os custeavam. Foi dentro dessa lógica que o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro foi criado em 1838, no Rio de Janeiro. Ele logo se autodenominou “brasileiro” pois, afinal, estava sediado na capital do país nesse contexto. Ao IHGB coube, então, a tarefa de criar uma história nacional e independente da metrópole portuguesa. Mesmo assim elaborou-se uma narrativa basicamente monárquica e europeia, mas de quebra também carioca.

Os demais institutos viriam a reboque. Para ficarmos com poucos exemplos, o Instituto de Pernambuco inverteu o lugar do Geográfico e do Histórico, e ainda incluiu um Arqueológico no seu nome; a despeito de essa não ter sido uma área em que esse estabelecimento investiu. Ficou sendo assim o Instituto Geográfico, Histórico e Arqueológico, até por contraposição.

Já o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, criado em 1894, nasceu com a missão de encontrar episódios e personagens que singularizassem a história desse estado em particular. Mas a tarefa era difícil pois, afinal, São Paulo, durante longo tempo, era local de passagem, mas não de destino. Por sua vez, o tropeiro que conduzia as tropas de mula não era propriamente um personagem com carisma, e, além do mais, não poderia ser associado só a esse estado.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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