Coluna

Atila Roque

Com quantas pauladas se mata a esperança de um país?

08 de fevereiro de 2022

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A fábula da democracia racial e de um Brasil acolhedor foi uma das mais duradouras a nublar a visão do racismo e da violência que marcam a identidade brasileira

É muito doloroso voltar sempre ao mesmo assunto: o genocídio do povo negro e o estado de barbárie no qual o Brasil parece mergulhar cada dia mais fundo. Os cartazes das revoltas de 1968 anunciavam, com razão, que a revolução não seria televisionada. A barbárie e o horror, no entanto, nos alcançam a todo momento através das telas que nos cercam, nessa realidade permanentemente online em que vivemos.

Especialistas alertam, com alguma razão, que nos acercamos do fetiche e do sadismo quando, mesmerizados, assistimos repetidas vezes a corpos negros serem espancados até a morte nas praias ou em supermercados, executados a tiros em operações policiais nas favelas ou, simplesmente, mortos por vizinhos na porta de casa.

Não que fosse muito diferente em outros tempos, mas, sem dúvida, o espetáculo da morte agora é mais escancarado e inescapável. Mobiliza e provoca ondas de indignação sem, no entanto, interromper a rotina de mortes e violências contra corpos negros.

Stefan Zweig, escritor austríaco, judeu, refugiado do nazismo, escreveu um livro, carregado de uma esperança ufanista, cujo título se transformou em um epíteto, praticamente uma maldição: “ Brasil, um país do futuro ”. Um pouco depois do lançamento no Brasil, o autor, desencantado com o mundo, suicidou-se na sua casa em Petrópolis, em 1942. A visão idílica do país e a promessa do futuro continuou, nas mais diferentes versões, a ser acenada como maneira de desviar a visão das misérias do passado e do presente. A fábula da democracia racial e do país mestiço, acolhedor e gentil seguiu como uma das mais duradouras a nublar a visão do racismo e da violência que marcam tão profundamente a identidade brasileira. A resiliência e denúncia permanente de movimentos negros e uma historiografia fundamentada em pesquisas sólidas desmontou o mito sem, no entanto, romper com o ciclo das violências.

Sabemos, através da pesquisa histórica e relatos de época, que enquanto aguardavam em costas africanas o momento de serem embarcados nos navios negreiros que os levariam para as Américas, os escravizados eram assombrados por histórias de brancos canibais que os devorariam do outro lado do Atlântico. Nos primeiros dias da travessia, não eram levados ao convés para não atiçar o impulso de se atirarem ao mar para escapar do destino reservado. Cerca de 5 milhões do total de 12,5 milhões de pessoas escravizadas, desembarcadas nas Américas ao longo dos quatro séculos de escravismo, tiveram o Brasil como destino. Quase dois milhões pereceram na travessia.

Por isso, a visão do oceano Atlântico nos dois lados da travessia me remete à fala de uma personagem do romance O caminho de casa , da escritora ganense, crescida nos EUA, Yaa Gyasi, quando explica à neta a razão de ter jogado seu cordão umbilical no mar:

“Um dia, vim a essas águas e pude sentir os espíritos dos nossos ancestrais me chamando. Alguns estavam livres e suas vozes falavam comigo saindo da areia, mas outros estavam presos bem fundo nas águas; então, precisei entrar pelo mar para ouvir suas vozes. Andei tanto que a água quase me carregou ao encontro desses espíritos que estavam presos tão fundo no mar que nunca se libertariam. Quando estavam vivos, eles não sabiam de onde tinham vindo, e assim, mortos, não sabiam como chegar à terra firme. Eu pus você dentro da água para que, se um dia seu espírito se perdesse, você ainda soubesse onde era seu chão.”

A desumanização profunda na qual estamos mergulhados admite e estimula o uso da violência sobre as ‘classes perigosas’, perfeitamente identificadas pelo racismo estrutural

O linchamento do jovem refugiado congolês Moïse Kabagambe, 24 anos, em plena luz do dia, em frente ao mar do Atlântico, na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, provoca uma explosão de sentimentos e memórias que escapa à minha capacidade de colocar em palavras. A sorte de africanos escravizados e seus descendentes parece estar selada desde os primeiros pesadelos com brancos canibais. Um destino fadado a uma história de violências, onde, no final, de uma maneira ou de outra, acabariam mortos ou esquecidos, suas histórias absorvidas no fluxo constante de imagens transmitidas nas redes sociais, sobrepostas e apagadas umas pelas outras. A disputa pela memória permanece a mais importante no embate cada vez mais duro contra o racismo.

As diferentes experiências de racismo, as encruzilhadas da história, os encontros e desencontros da travessia do Atlântico produzem confusões e provocam mal entendidos. Em um país racista, a negritude e a branquitude estão em constante tensão e negociação. No episódio do Moïse, muitos dos agressores são negros, assim como são negros uma grande parte do contingente das polícias, as mesmas que sustentam há décadas níveis inaceitáveis de execução de suspeitos e inocentes pretos (ou “quase pretos de tão pobres” ) durante operações nas periferias e favelas brasileiras. Perpetrar a violência não é privilégio da pessoa branca. O racismo estrutural não está em quem mata, mas em quem morre e em quem tem o poder de deixar matar. Não são negros os que controlam a economia e o comércio que produz o trabalho precário que se beneficia do desespero de refugiados, nem os que passeiam na orla e não se mobilizam diante de alguém amarrado e espancado por 15 longos minutos.

A geografia e arquitetura das cidades são eficazes em separar aqueles que não devem se misturar, a não ser que estejam claramente situados como senhores e serviçais. O shopping, em substituição à loja de rua, é um exemplo icônico dessa apartação, oferecendo condições ideais para o exercício eficaz da vigilância dos corpos indesejáveis. A desordem e o descaso com a infraestrutura e serviços urbanos, a seletividade na garantia de direitos fundamentais como educação, saúde, transporte e segurança, cumpre um papel crucial na regulação das relações sociais.

A desumanização profunda na qual estamos mergulhados, em um contexto de destruição ativa do Estado de Direito por parte dos responsáveis últimos pela sua garantia, admite e estimula o uso da violência sobre as “classes perigosas”, perfeitamente identificadas pelo racismo estrutural. O jovem Moïse foi mais uma vítima do Brasil. Dificilmente será a última. Espero apenas que não seja esquecido e que sejamos capazes de contar a sua história; que seu espírito possa encontrar o caminho de volta para a casa que não soubemos ser para ele e para sua família. Assim, estaremos dando um passo em direção à recuperação de nossa própria humanidade .

Atila Roqueé historiador, cientista político e diretor da Fundação Ford no Brasil. Exerceu papel de liderança em diferentes organizações da sociedade civil no Brasil e no exterior. Foi diretor-executivo da ActionAid International nos EUA e do INESC (Instituto de Estudos Socioeconômicos). Antes de assumir a Fundação Ford, em 2017, foi diretor-executivo da Anistia Internacional no Brasil. Faz parte do Conselho Diretor do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas).

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