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Lilia Schwarcz

Nada que seja tóxico pode ser bom

28 de fevereiro de 2022

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Fico preocupada quando alguém tenta suprimir as emoções negativas de uma outra pessoa antes mesmo de escutá-la ou de dar a devida acolhida

Hoje faço da minha coluna um desabafo: nada de tóxico pode ser bom nessa vida!

Uma pessoa tóxica, e que contamina a tudo com sua negatividade, é certamente um problema. Desautoriza, humilha, assedia e torna a vida de quem está ao lado um grande inferno. Pessoas com esse tipo de atitude costumam complicar não apenas suas próprias existências, como também daquelas que a circundam. Uma visão ruim e generalizada contamina como se fosse pandemia – a atitude tóxica entra sem pedir licença, e invade a própria história do outro.

Lembro sempre de “A cizânia”, um livro em quadrinhos da clássica série “Asterix e Obelix” . É a história de um personagem que é arregimentado pelos romanos, justamente para envenenar a aldeia dos bravos gauleses. Mas ele, que leva também o nome de Cizânia, não traz nenhuma poção na sua bagagem. Seu remédio ruim é a própria capacidade inata que tem de entornar qualquer situação e de gerar todo tipo de contrariedade. Cizânia, o personagem e a realidade, não trazem nada de bom – apenas derrubam o que ainda tem força para ficar de pé e seguir em frente.

Não condeno esse tipo de atitude quando ela representa uma resposta a situações específicas e que pedem por reações mais entristecidas e depressivas. Traumas, mortes, crises profundas só podem gerar ambientes negativos. Mas não são tóxicos, fazem parte de um sentimento coerente com a experiência.

A postura não funciona, entretanto, como filosofia geral de vida ou gesto premeditado, independente do contexto em que se apresenta. Penso, inclusive, que não é necessário insistir nesse tema, uma vez que me parece existir um consenso nesse sentido. Negatividade tóxica não traz nada de bom.

Gostaria de tratar, porém, do outro lado dessa moeda. Também tenho achado perversa a “positividade tóxica”, que vai virando moda por aqui. Fico preocupada quando alguém, uma empresa, um político, um amigo, tentam suprimir as emoções negativas de uma outra pessoa, antes mesmo de escutá-la ou de dar a devida acolhida. Nunca gostei de frases prontas e animadas, que não passam de chavões quando usadas indiscriminadamente. Do tipo: “Seja positivo!”, “Olhe pelo lado bom!” “Supere isso”, “Vá em frente”…

Na minha opinião, nessa vida, nada que se assemelhe ao puro bordão repetitivamente decorado ou a uma resposta automática, utilizada retoricamente e sem atenção à especificidade de cada situação, pode funcionar ou dar resultado positivo. Nessas horas, acabamos por parecer com um empregado de RH – de relações humanas – eufórico, que tem como função não deixar a peteca cair, seja lá a circunstância que aparecer ou se interpuser diante de nós.

O poço anda bem cheio para que adotemos o ‘modo positividade a todo custo’. Simplesmente desconsiderar e fazer pouco de sentimentos negativos não pode ser boa saída

Ariano Suassuna dizia que o otimista inveterado é um tolo. E tendo a concordar com ele. Não nego a boa intenção de pessoas que praticam esse tipo de conselho, sempre positivo, digamos assim. Em geral, acreditam, genuinamente – e não existe qualquer laivo de ironia da minha parte – que estão sendo úteis e encorajando alguém que está em perigo ou passando por momentos complicados. Todavia, situações difíceis são, em geral, difíceis mesmo, e é melhor cuidar delas, ao invés de evitar entrar em contato.

Na minha humilde opinião, ao passar por cima da dor do outro, muitas vezes essa pode-se estar desconsiderando, repito, mesmo sem sinceramente pretender, sentimentos que são genuínos e até legítimos.

Vivemos um momento duro, com a pandemia prolongada criando padrões de comportamento, um isolamento social, que nem sempre é suportável. Tudo isso tem causado muito sofrimento, e pouco espaço subjetivo para lidar com ele.

Os tempos também andam acelerados e sem piedade. Depois de uma tarefa vem outra, e perdemos o tempo do intervalo, do cafezinho, da conversa jogada fora.

O desemprego aumentou, o que crianão uma sensação ruim; mas uma realidade ruim. Traz insegurança, desesperança e uma vontade de desistir.

Temos enfrentado um presente sem futuro, um tempo em compasso de espera – justo nós, que fomos educados a sempre projetar, planejar e pensar no amanhã.

O Brasil não ajuda, igualmente. São tempos marcados por políticas de ódio, pela polarização de opiniões, por um governo absolutamente incapaz de dar soluções práticas aos nossos problemas e tampouco empenhado em cuidar dos que sofrem e andam desassistidos.

O poço anda bem cheio para que adotemos o “modo positividade a todo custo”. Simplesmente desconsiderar e fazer pouco de sentimentos negativos próprios e dos outros, sem nem ao menos permitir que se entre em contato com eles, não pode ser boa saída.

Ouvir o outro, praticar a escuta, nunca vem com receita pronta. Há situações em que uma boa esperança altera e revoluciona a vida de uma pessoa. Há momentos, porém, em que o bom ombro é aquele que fica – acolhe a tristeza e não, imediatamente, recusa ou desfaz das dificuldades.

Fiquei lembrando de um trecho de João Guimarães Rosa, em “Grande Sertão: Veredas”. Lá vai para te fazer a boa e necessária companhia: “Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago – foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo, que quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso me serviu de bom consolo. E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso”.

Tudo que é tóxico pode fazer mal. Vale a pena sempre procurar pela justa medida.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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