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No sábado (14), um homem branco de 18 anos fortemente armado abriu fogo contra 13 pessoas num supermercado na cidade de Buffalo , no estado de Nova York, nos Estados Unidos. Das 13 pessoas que o atirador atacou, 11 eram pessoas negras e 2 delas pessoas brancas. Estes dados não são uma coincidência: Payton Gendron escolheu a cidade mais próxima daquela que morava que tinha a maior população negra. Após as autoridades descobrirem a existência de um manifesto escrito pelo assassino, imediatamente ficou evidente que tratava-se de uma ação pensada e planejada por um supremacista branco. O objetivo do atirador era abrir fogo contra pessoas as quais ele, assim como seus aliados, acreditam não pertencerem ao país onde vivem, uma vez que supremacistas brancos acreditam que os Estados Unidos é o país onde somente o homem branco deve viver como cidadão.
Ao mesmo tempo que atirava nas pessoas, inclusive ferindo fatalmente o próprio segurança do supermercado, Gendron gravou os primeiros momentos do massacre e os publicou numa rede social. Mas o mais grave é que não se trata de mais um ato isolado de um jovem branco americano medíocre e antissocial com instintos assassinos.
Payton Gendron engajou-se em um grupo extremista branco participando de fóruns online enquanto, segundo ele, encontrava-se entediado no início de 2020 devido à pandemia. Foi nesses fóruns que teve contato com o pensamento supremacista branco e passou a admirar e a se inspirar em outros terroristas racistas que também cometeram assassinatos em massa. Foi assim, inspirado em outros assassinos em série, que começou a articular suas ideias extremistas nacionalistas, neonazistas e antissemitas. De acordo com manifesto que escreveu e que publicou nas redes, o massacre de Buffalo foi planejado.
Sinais da conversão de Gendron à supremacia branca e ideias terroristas começaram a surgir já na escola, quando ele estava terminando o ensino médio. Além de ameaçar colegas, em um texto no qual os estudantes deveriam responder quais os seus planos para o futuro, Gendron respondeu na sua redação que num futuro próximo planejava cometer um “assassinato seguido de suicídio”. Mesmo depois dessa declaração e do indicativo que a partir dali o estudante deveria ser acompanhado, nada foi feito. Ele ainda assim conseguiu comprar um rifle semiautomático, um rifle de caça e uma arma de fogo. Em uma das armas, segundo a polícia, estava gravada a palavra “negro”, escrita em inglês. Sabendo dos significados que a palavra *N têm naquele país, compreendemos a perversidade do atirador. Ele estava completamente elegível para comprar as armas, e o dono da loja que as vendeu para o assassino dizia não lembrar-se dele.
Voltando às teorias amplamente divulgadas nos Estados Unidos, Europa e que encontra braços inclusive no Brasil, o assassino sustentava-se na tese do “great replacement”, ou da “grande substituição ”. Trata-se de uma teoria conspiratória produzida por “intelectuais” da extrema direita francesa, como Renaud Camus, que afirmava que a onda de africanos e árabes na Europa acabaria por tomar o lugar dos brancos europeus. Explico: a Europa deixaria de ser um lugar de maioria branca para tornar-se uma sociedade diversa, uma vez que os racistas que acreditam na teoria da “grande substituição” também defendem que populações não brancas têm grande capacidade de reproduzir-se.
Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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