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O que somos diante da nossa insignificância e frente à impunidade?
Comoveu o Brasil a notícia da morte violenta do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista brasileiro Bruno Pereira. Os dois estavam desaparecidos na região do Vale do Javari, na Amazônia, desde o dia 5 de junho, e a demora nas notícias causou angústia e muita desesperança. Na verdade, não se teve mais notícias deles depois que fizeram uma pausa em uma comunidade ribeirinha, quando voltavam para a cidade de Atalaia do Norte, no oeste do Amazonas.
Colaborador do jornal inglês The Guardian, o repórter conhecia a região faz tempo. Adotou a Amazônia: fazia matérias pautadas nas pesquisas que realizava e estava escrevendo um livro sobre a região. O indigenista Bruno Pereira era um dos maiores especialistas em povos isolados. Seu sonho sempre foi trabalhar na Amazônia. Ao longo da última década, Bruno ocupou diversas funções na região em que desapareceu. Atualmente estava licenciado da Funai (Fundação Nacional do Índio) e trabalhava na Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari). Segunda maior terra indígena do país, o Vale do Javari é palco de conflitos e um barril de pólvora: passam por lá tráfico de drogas, roubo de madeira, avanço do garimpo.
Nesses casos, e muitas vezes, e por mais paradoxal que seja, conforme escreveu Alessandra Sampaio, esposa de Phillips, a certeza da morte aquieta mais do que a dúvida. Poder velar um corpo é também uma forma de cuidar do direito à memória.
Foi no 15 de junho à noite que veio a confirmação da morte esperada dos dois defensores da Amazônia e de seus povos – mas ela sempre chega como um susto. O pescador Amarildo da Costa Oliveira, também conhecido como Pelado, confessou que matou e soterrou os corpos de Bruno Pereira e de Dom Phillips. Segundo a Polícia Federal, foi o pescador quem mostrou onde se encontravam os restos humanos, enterrados em uma região remota, a mais de 3 km mata adentro. Poupo a vocês e a mim mesma de descrever os requintes perversos dessas mortes.
Não se excluem as participações de outros envolvidos no caso, que vai tomando o mesmo andamento lento, de dissimulação, que ainda envolve a tragédia da morte de Marielle Franco e Anderson Gomes em 2018. Pois ainda queremos saber quem mandou matar os dois, assim como queremos saber quem mandou matar Dom Phillips e Bruno Pereira! Precisamos de justiça e não de silêncio.
O assassinato covarde de Dom e Bruno é eloquente por si, mas infelizmente ressoa outros casos que acumulamos na nossa história violenta: uma série de mortes planejadas de defensores do meio ambiente!
O sindicalista Chico Mendes foi brutalmente assassinato em 1994, a mando de fazendeiros da região de Xapuri (AC). Os trabalhadores que hoje atuam na Reserva Extrativista Chico Mendes, localizada na fronteira do Acre com a Bolívia, onde o seringueiro nasceu e travou sua luta, relatam que o clima de violência no território é crescente e remete à época da morte do seu maior líder.
O Brasil virou um país tóxico. Trata de maneira criminosa os que cuidam dos direitos humanos, denunciam o uso ilegal da terra e se opõem aos interesses das mineradoras e madeireiras
A freira norte-americana Dorothy Mae Stang foi assassinada com seis tiros, um na cabeça e cinco ao redor do corpo, aos 73 anos de idade, no dia 12 de fevereiro de 2005, em uma estrada de terra de difícil acesso, a 53 km da sede do município de Anapu, no estado do Pará.
O atentado mais recente tinha sido de Paulo Paulino Guajajara. O líder indígena também conhecido como Lobo, foi assassinado a tiros, em 2019, por madeireiros dentro da Reserva da tribo Arariboia, no estado do Maranhão.
Esses e tantos outros casos não podem cair na vala comum da coincidência ou no tempo sonolento do cotidiano. O último relatório do Global Witness aponta o Brasil como o quarto país em que mais se mata ativistas. Segundo a ONG internacional, foram 227 assassinatos apenas em 2020 – uma média de quatro vítimas por semana! Os dados revelam, ainda, que três quartos dessas mortes aconteceram justamente na região da Amazônia.
É notória a falta de interesse político não somente em apurar as execuções de defensores ambientais, mas em coibir os crimes contra a natureza. O problema é que não se trata apenas de inércia; é projeto mesmo – uma certeza de conivência misturada com impunidade. A Amazônia foi entregue a bandidos e o governo está imiscuído até a cabeça nesse lodaçal.
Tanto que o presidente se limitou a comentar o desaparecimento da dupla, na verdade culpando as próprias vítimas. Disse que o repórter Dom Phillips e o indigenista Bruno Araújo andavam numa “aventura” e numa região perigosa como a área do Vale do Javari, no Amazonas. Portanto, a imprudência era deles. Além do mais, fez claro corpo mole até exigir mais ação por parte dos grupos militares sob o seu controle. Papel fundamental tiveram os povos indígenas do Vale do Javari, movimento indígena representativo dos povos que habitam a Terra Indígena Vale do Javari – Marubo, Matis, Matsés, Kanamari, Korubo, Tsohom-dyapa e povos indígenas isolados.
A Univaja participou ativamente das buscas desde o primeiro dia, acionando suas equipes de vigilância. Foram eles os primeiros a percorrer o rio Itaquaí atrás de Pereira e Phillips; junto com os policiais militares do 8º Batalhão em Tabatinga (AM) – os únicos que valorizaram o conhecimento dos indígenas sobre o território e trabalharam em conjunto. Também foram os indígenas que encontraram a área que, só posteriormente, virou alvo das investigações por outras instâncias, como a Polícia Federal, o Exército, a Marinha e o Corpo de Bombeiros.
Bolsonaro enrolou para ordenar o início de ações mais efetivas e, manifestando sua usual falta de empatia e de solidariedade, disse em entrevista ao canal da apresentadora Leda Nagle no YouTube que o jornalista britânico era“malvisto na região” por fazer “muita matéria contra garimpeiro” e/ou com foco em conflitos ambientais.
Pergunta que não quer calar: “malvisto” por quem? Com certeza por garimpeiros criminosos, madeireiros inescrupulosos e pessoas que praticam a pesca ilegal. Quem sabe é também “malvisto” por Bolsonaro que descaradamente apoia essas atividades ilegais que estão consumindo a Amazônia e seus povos nativos.
Aliás, quando ainda não havia sido eleito como chefe de Estado, o então deputado federal, em agosto de 2018, num encontro com empresários, já havia avisado: “se eu for eleito vou dar uma foiçada na Funai. Mas uma foiçada no pescoço. Não tem outro caminho”. Por isso entregou todos os postos a militares, destituindo indigenistas como Bruno Pereira e esvaziando a Funai.
O Brasil virou um país tóxico. Trata dessa maneira criminosa aqueles que cuidam dos direitos humanos, denunciam o uso ilegal da terra e se opõem aos grandes interesses das mineradoras e madeireiras. Que democracia é essa, onde o chefe da nação justifica a barbárie e se nega a chamar pelo nome próprio dois protagonistas da luta por um país melhor, pois mais justo e inclusivo?
De resto, é hora de agradecer a Bruno e Dom que escolheram cuidar das boas causas em nosso nome. Que honraram o funcionalismo público e o jornalismo defendendo causas humanitárias. Nesse que foi seu último ato, denunciaram, mais uma vez, como a Amazônia está sendo devassada por madeireiros e garimpeiros inescrupulosos, grupos de criminosos que praticam a pesca e a caça proibidas, e redes de tráfico que agem nas fronteiras entre países na região amazônica. Todos eles roubam terras e vidas, além de destruir o meio ambiente.
A morte é sempre o pior dos caminhos. Bruno Pereira e Dom Phillips pagaram caro demais ao optarem por defender o Vale do Javari. Ecoa muito a cena do indigenista sentado no meio da floresta, com o rosto em ¾, estampando um sorriso e sendo seguido no seu canto por indígenas que lhe acompanhavam. O exemplo da dupla não pode cair na vala comum da indignação passageira e do esquecimento sem fim. Vida longa àqueles que defendem os nossos direitos.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
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