Coluna

Lilia Schwarcz

A invenção do 7 de Setembro às margens do Ipiranga

15 de agosto de 2022

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Efemérides sempre passam por batalhas de narrativas; lutas pela memória do passado. Mas o revisionismo histórico tem limites

Poucas vezes na história do Brasil se falou tanto e se manipulou tanto a história do 7 de Setembro. Sobretudo o atual governo tem tomado a data como uma espécie de boia de salvação, para criar uma comunidade de emoção e assim nublar os graves problemas econômicos, políticos e morais que assolam o país e essa gestão.

Não que haja algo de original na atitude do governo. A efeméride sempre serve à data cívica e patriótica e não o contrário. Em 1922, por ocasião do centenário, o presidente Epitácio Pessoa criou uma grande festa internacional, a partir da construção de arquiteturas efêmeras que visavam encantar o público. Inaugurou também o Museu Histórico Nacional, com várias telas encomendadas que visavam exaltar visualmente a história nacional, com destaque ao quadro de Georgina de Albuquerque que dava ao então príncipe regente, na ausência do marido, toda a proeminência.

FOTO: REPRODUÇÃO/WIKIMEDIA COMMONS'Sessão do Conselho de Estado', de Georgina de Alburqueque, 1922. Acervo do Museu Histórico Nacional

Feita por uma artista mulher, algo raro naquela ocasião, a tela trazia uma Leopoldina diferente, atuante, liderando os demais políticos. Já São Paulo fez o que pôde para “sequestrar” a data buscando associar o episódio do Ipiranga com uma certa galhardia dos paulistanos, como se esse fosse um ato de predestinação: “só poderia ter ocorrido em terras paulistas!” No Museu Paulista, ou Palácio do Ipiranga, estavam expostos naquele ano de 1922 não só a imensa tela de Pedro Américo – que reiterava a monumentalidade do 7 de Setembro – como a obra de Domenico Failutti que trazia uma Leopoldina numa situação muito diferente: “como mãe dos filhos de d. Pedro”. Não como agente histórica.

FOTO: REPRODUÇÃO/WIKIMEDIA COMMONS'Retrato de Dona Leopoldina de Habsburgo e seus filhos', de Domenico Failutti, 1921. Museu Paulista da USP

Vicissitudes à parte, o certo é que o centenário da Independência trouxe centralidade para a festa cívica, que encantava os cidadãos e cidadãs com sua monumentalidade expressa no Museu Histórico Nacional (inaugurado no Rio de Janeiro para essa ocasião) e no Museu Paulista, que procurava roubar a cena por conta do terreno histórico e devidamente inflacionado em sua proeminência.

Mas o sequestro de significados não parou ou estacionou por aí. Em 1972, novamente a efeméride virava motivo de exaltação patriótica. Nos 150 anos de Independência, em plena ditadura militar, os generais buscaram silenciar os atos violentos que praticavam – censurando, torturando, matando, tirando os direitos de brasileiros e brasileiras – com um imenso desfile e toda uma programação voltada à exaltação do ato, como se fosse um feito militar. Ou seja, tirou-se o caráter cívico no evento, para transformá-lo numa ode ao Exército e à ordem consentida ou imposta na base da violência; imensa e perversa manipulação e sequestro da narrativa histórica.

Mas se essas histórias vão ficando conhecidas, o que pouco se comenta é porque nem ao menos no dia 7 de setembro de 1822, o episódio que se passou às margens do Ipiranga fez muito sucesso. Passou na surdina. Na verdade, em sua época, o evento às margens do Ipiranga quase que ficou despercebido. Como se sabe, d. Pedro viajou para São Paulo com o intuito de debelar a “bernarda”, nome que se dava a insurreições civis, revoltas populares e todo tipo de “desordem” pública. No caso específico, esse foi o motim ou bernarda de Francisco Inácio, que eclodiu em São Paulo a 23 de maio de 1822, por conta da cisão entre os membros do Governo Provisório local. O movimento afetava fortemente os Andradas, políticos famosos na província e da família do grande aliado de d. Pedro, nessa circunstância: José Bonifácio de Andrada e Silva.

Mas se essa era a missão oficial, e que aliás sagrou-se vitoriosa, já a verdadeira “missão”, e que restou na imaginação popular, acabou sendo bem outra. Afinal, nessa circunstância, ocorreu o romance mais famoso e tórrido da história oficial do Brasil envolvendo o príncipe regente e Domitila de Castro, a futura Marquesa de Santos.

De toda maneira, quando as famosas cartas de José Bonifácio e Maria Leopoldina – as quais aliás nunca foram encontradas – encontraram d. Pedro, ele não vinha de agenda oficial, e nem se encontrava bem de saúde, tendo que “apear-se”, como dizem os relatos, a todo momento. Por isso, todo aquele cenário, tantas vezes desenhado em nossa memória oficial, e tão presente nos livros didáticos, de fato não aconteceu exatamente como se conta. Para além do lado de certa maneira sigiloso da viagem, digamos assim, também o certo é que a data não vingou. A Independência foi comemorada, em 1822, a partir de dois eventos capitais da monarquia: a aclamação de d. Pedro I em 12 de outubro de 1822 no Campo de Santana, e sua coroação em 1º de dezembro daquele ano; ambas ocorridas no Rio de Janeiro, então capital do país.

Os jornais, atas e demais documentos oficiais simplesmente silenciaram sobre o 7 de Setembro, que aparece mencionado pela primeira vez apenas em 1827, justamente por d. Pedro. A partir de então, e sobretudo na década de 1830, é que a narrativa começou a aparecer e ganhar vulto, primeiro nos círculos palacianos, como uma forma de justificar o protagonismo do imperador na independência do Brasil.

A ideia é ombrear d. Pedro com Jair Bolsonaro como ‘paladinos da nossa libertação’. Nessa versão (fraca), ambos seriam ‘obrigados’ a dar um golpe pelo bem da nação

O príncipe regente, que, a essas alturas, andava com sua popularidade em baixa — afinal havia imposto uma constituição em 1824 e defenestrado movimentos populares de forma absolutista — resolveu então investir na data, alterando a lógica da celebração. Ao invés de ser uma comemoração da monarquia, de uma maneira geral, passar-se-ia a comemorar uma só pessoa, em sua virtualidade.

De lá para cá a interpretação virou oficial, sobretudo durante o Segundo Reinado e com o filho Pedro 2º querendo cuidar da boa memória do pai. Tanto que foi dele a ideia de, em 1885, encomendar uma pintura junto com a Comissão que fora criada para angariar fundos para a inauguração do majestoso Museu Paulista, que destacaria o evento do Ipiranga tendo Pedro 1º no centro das celebrações.

O pintor vencedor foi Pedro Américo que caprichou para atender a encomenda, e trabalhou nela em Florença (Itália) de 1885 até 1888, fazendo várias incursões ao Brasil nesse meio tempo. Tudo na tela é grandioso: os cavalos em vez dos burros – animais utilizados para vencer grandes distâncias –, o terreno elevado no lugar do plano, o uniforme de gala dos soldados que ainda não existia, e até mesmo a casa bandeirante que só foi construída em 1855. Não estava lá portanto em 1822.

A cena captada também se volta toda para o futuro imperador, com o povo na lateral direita – o carroceiro, o tropeiro e o carregador negro e descalço deixado como detalhe pequeno no plano superior da tela, que caminha descalço na contramão da grandiosa movimentação. O povo apenas observa passivamente; não interfere na história que é feita por homens, brancos e europeus.

FOTO: REPRODUÇÃO/WIKIMEDIA COMMONS'Independência ou Morte, de Pedro Américo, 1888. Museu Paulista da USP

Mas se o objetivo era exaltar, a pintura não deixava por menos. Tanto que virou uma espécie de “realidade” do 7 de Setembro quando na verdade era fruto da imaginação de seu autor, que nunca negou – ao contrário destacou no livro que escreveu – ter se pautado na tela de Ernest Meissonier; artista francês que destacou o ato de outro futuro imperador: Napoleão Bonaparte, teoricamente o inimigo maior do pai de d. Pedro 1º – d. João 6º.

Tela e evento ficaram então vinculados para sempre no senso comum. Tanto que o atual governo brasileiro, usa e abusa da imagem, mas para sequestrar seu sentido. Nas propagandas do Estado, no programa do governo, a pintura de Américo virou pano de fundo (sem autoria ou data), e o símbolo máximo é a empunhadura de d. Pedro, como se ele fosse mesmo um militar.

A ideia é ombrear d. Pedro com Jair Bolsonaro como “paladinos da nossa libertação”. Nessa versão (fraca), ambos seriam “obrigados” a dar um golpe pelo bem da nação. E mais, na interpretação reducionista do bolsonarismo, d. Pedro seria um militar. Não era!

Pobre príncipe regente às margens do Ipiranga que virou golpista como o presidente do Brasil. E como esse governo não tem conteúdo, só tem fumaça – a exemplo do desfile de um tanque só no dia 10 de agosto de 2021 – resolveram imitar os generais dos tempos da ditadura militar. Se o Exército trouxe em 1972 os corpos de d. Pedro 1º e d. Maria Leopoldina, agora, Jair Bolsonaro quer trazer emprestado o coração do primeiro imperador, mantido em formol na cidade do Porto, em Portugal, dizem que por um desejo expresso em testamento pelo regente. Trata-se, pois, de consagrar uma festa mórbida, uma necropolítica que pensa a história como uma narrativa perdida no tempo e morta. Na verdade, a história é viva pois sempre volta ao passado com as novas questões do presente. O resto é só manipulação ideológica.

Efemérides sempre passam por batalhas de narrativas; lutas pela memória do passado. Mas o revisionismo histórico tem limites. É hora de darmos um basta nessa tradição inventada de que independência é festa militar, e dar ao ritual o espaço civil que ele evoca.

Liberdade é um direito, uma vocação, um desafio constante da sociedade civil e republicana. Seja independente n esse 7 de Setembro!

p.s.: esse artigo é em parte pautado no livro “O sequestro da independência: a construção do mito do 7 de setembro”, que escrevi em co-autoria com Carlos Lima Jr e Lúcia K. Stumpf.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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