Temas
Compartilhe
Eu estava em Israel quando soube da divulgação do vídeo pela primeira-dama associando a imagem do ex-presidente Lula às trevas e afirmando a suposta “entrega de alma” para vencer a eleição. A declaração veio ancorada num vídeo no qual o ex-presidente recebia um banho de pipocas em agosto de 2021 na Assembleia Legislativa da Bahia, quando participou de uma atividade com lideranças do candomblé daquele Estado. Não à toa, o vídeo circulou um ano depois, também no mês de agosto, período quando nós, de religião de matriz africana, celebramos o Orixá Omolu, Senhor da cura. O banho de pipocas no ex-presidente era um ato de amor, porque o desejo da purificação do outro, no candomblé, nada mais é do que isso.
Além do vídeo da cerimônia , outro vídeo aparece na sequência vinculado ao primeiro, este de uma visita do ex-presidente ao estado, quando o mesmo conversou com lideranças do movimento negro, a maioria dessas pessoas, não por acaso, mulheres negras. Entende-se, portanto, que a associação supostamente demoníaca do ex-presidente teria a Bahia como palco e as mulheres negras como intermediárias.
No conjunto, a escolha desse vídeo para propagar ideias racistas e de ataque a determinados setores religiosos da sociedade, no caso ( e como sempre), candomblecistas, tem vários significados a serem explorados.
Primeiro, quero falar do ambiente em que assisti ao vídeo, o que aconteceu durante dias de reflexão e debates sobre judaísmo, racismo e o papel da religião nos discursos políticos dos governos de extrema direita. A convite do Instituto Brasil Israel, um grupo bastante diverso de intelectuais, ativistas, pessoas ligadas ao terceiro setor e à instituições dedicadas a pensar a questão da memória, mergulharam fundo nos debates sobre os conflitos de Israel e Palestina e seus possíveis pontos em comum com a questão das desigualdades no Brasil, inclusive a desigualdade racial. Eu não conseguirei falar tudo sobre essa riquíssima experiência em um único texto, mas posso dizer desde já que a dimensão religiosa dos conflitos naquele país me preocupou em relação ao Brasil. Foi durante essas reflexões que recebi a postagem/ataque às religiões afro-brasileiras feitas pela esposa do mandatário, e isso fez com que eu tivesse maior noção da gravidade do racismo religioso no Brasil. Mais do que um ataque a uma religião, trata-se de um ataque à vida, à liberdade, e à memória do povo negro brasileiro através da demonização daquilo que lhe manteve de pé até aqui.
Ao colocar-se como essa tal referência feminina ideal, expressa numa nova estética que encarna uma suposta moral e recato de esposa, o que nada tem a ver com uma ética com o dinheiro e a coisa pública, a primeira-dama, que cada vez mais adota um tom mais ácido, agressivo e intimidador nos seus discursos, é a pura expressão da violência racial. Encarna o etos da patroa, da mulher do chefe, da figura protegida pelo patriarcado. Ela avança contra as estratégias de resistência e sobrevivência das mulheres negras e pobres numa sociedade que cada vez mais lhes empurra para o desespero e adoecimento psíquico: tanto as mulheres que lotam as igrejas quanto aquelas que dançam nos barracões dos candomblés, via de regra, não se apoiam numa rede familiar liderada por homens e não aguardam no inerte aconchego do lar que seu dito marido lhes enriqueça, ainda que através de meios questionáveis.
Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
Navegue por temas