Coluna

Januária Cristina Alves

O que aprender (e ensinar) sobre teorias da conspiração

10 de novembro de 2022

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É preciso continuar a acreditar no poder transformador das ideias, dos valores da liberdade e da democracia

Em pleno século 21 estamos de volta às cavernas. E elas tanto podem ser as cavernas físicas, aquelas habitadas pelos nossos ancestrais que pouco conheciam do mundo e faziam diversas hipóteses sobre ele, a maior parte delas com base em crenças e não evidências, quanto aquelas a que se referiu o grande filósofo Platão, em seu famoso mito da caverna, por meio do qual brilhantemente discorre sobre o que é a verdade e como nos é impossível acessá-la em toda sua amplitude.

Voltamos às cavernas, sim, nesse mundo tão complexo e multifacetado, que se vê explicado por um sem número de teorias conspiratórias que estão tornando a vida em sociedade um caos, onde não conseguimos nos entender por meio daquilo que sempre nos fundamentou como a ciência. A informação, tida como salvação da humanidade e condição precípua para o seu desenvolvimento e evolução, tem se revelado um tiro pela culatra e a sociedade da (des)informação tem produzido cidadãos adoecidos pela dúvida e pela incerteza em quem confiar. Como afirma Byung-Chul Han, filósofo e professor da Universidade de Berlim, um estudioso do que ele tem chamado de “sociedade do cansaço”: “Mais informação e mais comunicação não clarificam o mundo. (…) A massa de informações não gera verdade. Quanto mais se liberam informações tanto mais intransparente torna-se o mundo. A hiperinformação e a hipercomunicação não trazem luz à escuridão”. Pois é, o que faremos, então para iluminar nosso mundo e sair da caverna?

Foi para discutir a questão das teorias conspiratórias e seu impacto na sociedade que estive com um grupo de educadores de todo país que fazem parte do Projeto Devir, um grupo de pensamento estratégico que, desde 2017, reúne gestores de 20 escolas e instituições de ensino superior, de São Paulo e outros estados. O grupo se reúne duas vezes por mês para discutir temas que impactam ou impactarão a educação. Eu e o pesquisador gaúcho Felipe Bonow Soares, que está fazendo pós-doutorado no Social Media Lab, na Toronto Metropolitan University, sobre o que são e como funcionam as teorias conspiratórias, tentamos mapear algumas possibilidades de a escola trabalhar no combate à desinformação e em especial, dessas teorias conspiratórias.

É na escola que a desinformação deve ser combatida, porque ali é o lugar das perguntas e respostas, da valorização do conhecimento e do exercício da imaginação

Como sempre reafirmo aqui nesse espaço, acredito que é na escola que, prioritariamente, a desinformação deve ser combatida, porque ali é o lugar das perguntas e respostas, da valorização do conhecimento, do fortalecimento da segurança epistêmica e factual. Além do mais, a escola também é o lugar do exercício da imaginação e do planejamento dos futuros possíveis, forças motrizes a que muitos atribuem o surgimento das teorias conspiratórias.

E comigo concorda a Unesco, que elaborou uma publicação específica para as escolas trabalharem sobre as teorias da conspiração. Intitulada “Abordando as teorias da conspiração – O que os professores precisam saber”, este documento foi desenvolvido pela Seção da UNESCO para Cidadania Global e Educação para a Paz com base na campanha de mídia social #ThinkBeforeSharing (em tradução livrepense antes de compartilhar), e lançado em conjunto com a Comissão Europeia, o Congresso Judaico Mundial e o Twitter em agosto de 2020. Segundo a instituição, o e-book, que pode ser baixado gratuitamente , busca “responder à crescente disseminação de teorias da conspiração durante a pandemia de covid-19. Com o objetivo de responder às necessidades específicas dos educadores, os materiais da campanha foram expandidos e adaptados em estreita consulta com especialistas internacionais e professores de nove países em todo o mundo”. A brochura traz importantes reflexões sobre as razões pelas quais essas teorias são tão populares, maneiras de reconhecê-las e refutá-las, estratégias para desenvolver a resiliência necessária para lidar com elas com objetividade e especialmente dicas práticas que possam “ajudar aos professores a criar um clima de sala de aula que conduza ao diálogo respeitoso, à discussão aberta e ao pensamento crítico”.

Sabemos que o problema da desinformação e das teorias conspiratórias é de difícil compreensão e talvez não se consiga resolvê-lo enquanto não descobrirmos como calibrar as maneiras pelas quais as formas de comunicação – e no caso das teorias conspiratórias leia-se “as plataformas de mídias sociais”, as maiores responsáveis pela sua disseminação rápida e não-rastreável – moldam nossos pensamentos e desejos. É preciso que entendamos como a nossa percepção da realidade foi de tal maneira alterada pelos meios de comunicação, a ponto de acreditarmos em teorias que vão de alienígenas tomando conta da Terra, até a crença de que as vacinas são uma conspiração chinesa para dominar o mundo.

Segundo o documento da Unesco as teorias da conspiração são “a crença de que os eventos estão sendo secretamente manipulados por forças poderosas com intenção negativa. Normalmente, as teorias da conspiração envolvem um grupo imaginário conspirando para implementar uma suposta trama secreta”. Elas são irrefutáveis porque se baseiam em crenças e não em evidências. São verdadeiras profissões de fé. E por isso, para muitos teóricos, elas funcionam tão bem, porque fazem com que acessemos a nossa necessidade básica de resolver problemas de forma mágica, sem muito esforço, porque nutrem a nossa imaginação (coisa que a literatura faz tão bem mas, como sabemos, infelizmente ela anda perdendo espaço em relação às redes sociais) e nos ajudam a sonhar com outras realidades, algo necessário para nos fazer continuar caminhando nesse mundo tão estranho quanto confuso.

Diante desse cenário tão desafiador, a tentação de desistir de qualquer tipo de diálogo ou estratégia de argumentação é quase que uma regra quando nos deparamos com esse tipo de teoria, mas em termos de educação essa hipótese não deve ser considerada. É preciso continuar a acreditar no poder transformador das ideias, dos valores da liberdade e da democracia no projeto por uma sociedade mais sustentável. Nesse sentido, a informação continua sendo poder, e como diz o escritor tcheco Milan Kundera, “a luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento”, o que faz com que nos tornemos responsáveis pela história que estamos construindo e pela memória que vamos perpetuar para as futuras gerações.

A Educação para as Mídias, certamente, pode auxiliar muito nessa tarefa, ainda que muitos estudiosos estejam nos alertando de que as mídias são mais sintoma do que causa desse cenário de profundo mal-estar evidenciado pelos discursos de ódio e teorias sobre universos paralelos que nos levam a lugar nenhum. Precisamos continuar a investir na educação para a vida em sociedade, aquela que ensina que a convivência pacífica com o diferente é o único meio de amadurecermos como cidadãos, aprendendo a argumentar e a avaliar nossas dúvidas e certezas. Quem sabe assim, abrindo mão da infantilização que nos assola quando nos apegamos à uma sobrevida mágica diante da realidade que nos consome e nos ameaça, conseguiremos ver a luz e por meio dela, a saída da caverna.

Januária Cristina Alvesé mestre em comunicação social pela ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, coautora do livro “Como não ser enganado pelas fake news” (editora Moderna) e autora de “#XôFakeNews - Uma história de verdades e mentiras”. É membro da Associação Brasileira de pesquisadores e Profissionais em Educomunicação - ABPEducom e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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