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Filipe Campante

Orçamento secreto: uma arma nuclear institucional

22 de junho de 2022

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Esquema combina um volume sem precedentes de recursos com a falta de transparência e a arbitrariedade na sua alocação

Em 2021, entrou para o léxico político brasileiro um novo termo: “ orçamento secreto ”. Muito além de um episódio anedótico, trata-se de uma das inovações institucionais mais destrutivas em tempos recentes. É fundamental entender o porquê dessa destrutividade, e quais as implicações que ela traz em seu bojo.

De que se trata o tal orçamento secreto? O trabalho crucial de jornalistas como Breno Pires e André Shalders, entre outros, revelou uma nova maneira pela qual parlamentares logravam destinar recursos para fins de sua escolha. Aproveitando a enorme fraqueza do governo Bolsonaro, sempre assombrado pelo medo de impeachment e pela própria incompetência, se havia reativado, numa escala explosiva, o mecanismo das chamadas “ emendas de relator ”. O Congresso – e mais especificamente, os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG) – passava a controlar um volume sem precedentes de recursos.

Cabe então a pergunta: o que há de errado com isso? Afinal de contas, não parece nada anormal que o Legislativo decida a respeito da alocação de uma parte das verbas orçamentárias. Particularmente à luz da realidade de um Executivo caótico e desestruturado, não seria isso até positivo? Mais ainda, não é de hoje que os parlamentares têm à sua disposição a possibilidade de destinar recursos orçamentários, por meio de emendas à Lei do Orçamento que tem de ser aprovada todos os anos. O que mudou?

A resposta está em três aspectos peculiares do orçamento secreto, tal como praticado sob a atual liderança do Congresso, em coalizão com o governo Bolsonaro: volume, falta de transparência e arbitrariedade. Em conjunto, esses três aspectos fazem do orçamento secreto uma verdadeira arma nuclear institucional.

Primeiro, e mais evidente, o volume. Como mostrou recentemente mais uma reportagem do Estado de S. Paulo, o montante de recursos empenhados em emendas parlamentares mais que triplicou do biênio 2017-18 para 2021-22: de R$ 22 bilhões (8% do orçamento livre) para R$ 69 bilhões (24%). Isso demonstra que estamos falando de algo qualitativamente distinto do papel tradicional das emendas parlamentares.

Filipe Campanteé Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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