Coluna

Lilia Schwarcz

A eficácia simbólica da posse do terceiro mandato de Lula

02 de janeiro de 2023

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Ainda bem que Bolsonaro resolveu fugir um dia antes para a Flórida. Ia estragar mesmo a festa da democracia

Nunca duvidem da eficácia política do poder simbólico. Ainda mais quando se trata de um ritual do poder. E assim foi a posse do presidente Lula no dia 1° de janeiro de 2023. Um evento para ficar na memória. Feito para ser “memorável”.

O dia começou com os funcionários que limpavam a rampa passando sal grosso por conta própria. Já a faixa presidencial foi trocada por uma nova, mais grossa, que não ficaria contaminada pelo baixo astral do antecessor. A faixa mostrou a mudança na continuidade; a renovação na ordem da permanência.

O clima da posse não poderia ser melhor. Tudo parecia ser inaugural. Lula e Janja não monopolizaram o famoso passeio de carro. Ao contrário, o Rolls Royce foi democraticamente dividido com o vice-presidente Geraldo Alckmin e com dona Lu, revelando como essa não será uma posição de enfeite ou subordinada. O mesmo aconteceu no discurso do parlatório. Estavam todos os quatro lá, dividindo esse local de imensa exposição do Estado.

Impressionou também o terninho usado por Janja. Simbolicamente, ela explorou como não vai atuar feito abajur ou vaso do Palácio. Terá voz ativa e participação diária. Também me impressionou notar as gravatas “trocadas”: Lula de gravata azul, Alckmin de vermelha.

Se na gestão anterior jornalistas não receberam sequer água, dessa vez tudo parecia digno. Até o pessoal do Itamaraty não escondia o contentamento diante das e dos convidados. Ao invés de influencers com seus aparelhos na mão – prontos para apenas aparecer e serem vistos, artistas, intelectuais, ativistas, representantes da sociedade civil, diplomatas, representantes de outros países se misturavam na multidão e comiam acarajé.

Já a partir desta primeira semana de janeiro será hora de arregaçar as mangas e voltar ao trabalho, pois há muito o que fazer se quisermos honrar a democracia, e fortalecê-la

Lula falou muitas vezes, em seus três discursos – na Assembleia, no Parlatório e no Festival – em democracia e disse que foi ela, essa vetusta senhora, quem venceu as eleições. E ele tem razão. Chorou por duas vezes e se emocionou muitas outras. Nada como um presidente que mostra sua subjetividade e num momento solene como esse – não apenas na esfera privada e como projeto de auto elevação.

Mas o momento mais lindo, pleno de simbologia, foi quando Lula subiu a rampa acompanhado de Francisco, de 10 anos, morador de Itaquera; Aline Souza, de 33 anos, catadora; Raoni, de 93 anos, cacique da etnia caiapó; Wesley Rocha, de 36 anos, metalúrgico; Murilo Jesus, de 28 anos, professor; Jucimara Santos, cozinheira; Ivan Baron, de 24 anos, que sofreu uma paralisia cerebral e é ativista da causa; e Flávio Pereira, de 50 anos, que atua como artesão. Foi aí que se celebrou a democracia como projeto plural e inclusivo.

Não há nada na Constituição nacional que determine a entrega da faixa. Ainda bem que Bolsonaro resolveu fugir um dia antes para a Flórida. Ia estragar mesmo a festa da democracia.

Também não há na Constituição menção a tiros de canhão, aviões no céu e exército marchando. Isso foi ideia da ditadura militar nos anos 1970 e sob o governo Medici. Tempos em que o ritual era militar e não uma festa da sociedade civil.

No Brasil, a posse de um novo presidente coincide com o ano novo. São, pois, dois momentos fortes de inauguração, de novos começos. Que assim seja, um reinício, um novo pacto pela democracia que precisa ser sempre cuidada, vigiada, fortalecida. Pois democracia é assim: projeto inconcluso, cuja beleza vem mesmo da incompletude. Afinal, precisamos sempre lutar mais uma vez, conquistar de novo.

Vamos viver ainda um tempo do efeito prolongado sob a magia da festa. Já a partir desta primeira semana de janeiro será hora de arregaçar as mangas e voltar ao trabalho, pois há muito o que fazer se quisermos honrar a democracia, e fortalecê-la. Ela depende muito da nossa cidadania – praticada por cada um, cada uma, do seu lugar. Precisamos mesmo de uma cidadania ativa e vigilante e de um constante esperançar – como verbo e não substantivo. Como atitude participativa diante da República que é urgente e não tem tempo para esperar.

Falando do tempo; ele é mesmo um mago de muitos segredos. Ele passa muito rápido nas horas apressadas do ritual de posse. Mas fica para sempre na lembrança, na memória que há de ser infinda!

Desejo a todas, todes e todos vocês um bom ano novo e um bom Brasil — todos novos.

Ps. Para aqueles e aquelas que estão em Brasília, ou vão passar pela cidade nos próximos dois meses, abri ontem – com Rogério Carvalho, Marcio Tavares e Paulo Vieira – a exposição “Brasil futuro as formas da democracia” no Museu Nacional da República. São mais de 200 obras e mais de 100 artistas. Tudo feito em 18 dias! Temos pressa e urgência.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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