Coluna
Januária Cristina Alves
Interesse por notícias cai. Mas afinal, para que elas servem?
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Esse artigo que você parou para ler está num jornal. Um jornal digital que, como qualquer outro, todos os dias veicula notícias: locais, do país, do mundo. Notícias que são selecionadas segundo determinados critérios, dentre eles, com certeza, aquelas que impactam a vida da maior parte das pessoas, de uma cidade, uma nação. Fatos – devidamente checados, é sempre bom lembrar o grande mérito do jornalismo profissional – que dão conta de relatar uma realidade minimamente consensual, ou seja, aquela sobre a qual não se tem muitas dúvidas que aconteceu (como um terremoto, por exemplo). Se você está lendo esse jornal, recheado com notícias sobre diversos assuntos, é porque elas fazem alguma diferença no seu cotidiano e serão decisivas para que você tome decisões para a sua vida: desde as mais simples como aquela de levar ou não guarda-chuva ao sair porque consultou a previsão do tempo, ou aquelas com maior impacto, como tomar uma vacina ou não. As informações nos ajudam a reduzir as nossas incertezas, a driblar a nossa ansiedade por não poder controlar o que se passa conosco e com o mundo em que vivemos. A informação serve para nos ajudar a resolver os problemas que a nossa existência nos coloca, o que é fundamental para a nossa sobrevivência, logo, ela é fundamental. E a informação é a matéria-prima da notícia.
Se a notícia é algo tão importante para todos nós, porque será que o acesso a elas vem caindo, ano a ano, como mostra a pesquisa de 2023 divulgada pelo Instituto Reuters? Realizada em 46 países – dentre eles o Brasil – o relatório mostrou que o consumo de notícias por meio de mídias tradicionais, como TV e impressos, continua despencando. Menos da metade (48%) dos 94 mil entrevistados disse estar muito ou extremamente interessado em notícias, uma queda bastante elevada em relação os 63% observados em 2017. Mesmo o público que acessa as notícias online também demonstra menos interesse em saber o que acontece no mundo. A sondagem também revela que a confiança nas notícias segue em queda: caiu dois pontos percentuais, sendo que, em média, apenas 40% dos entrevistados dizem confiar na maioria das notícias na maior parte do tempo. Talvez essa seja uma resposta possível à nossa pergunta de um milhão de dólares.
O Digital News Report 2023 também evidenciou a preferência das pessoas pelas redes sociais como principal fonte de acesso às notícias: 30% do universo pesquisado prefere fazê-lo por essas mídias, sendo que os jovens de 18 a 24 anos são os que mais fazem uso desse recurso, afirmando que o fazem para acessar conteúdos mais divertidos e com mistura de áudio, vídeo e texto, além de prestar mais atenção em influenciadores do que jornalistas em plataformas como Instagram, Snapchat e Tik Tok (que é a predileta, contando com 20% dos jovens dessa faixa etária como consumidores fiéis das notícias ali veiculadas). A escolha pelas mídias sociais como porta de acesso às notícias acendeu um alerta vermelho significativo, não apenas para as empresas jornalísticas, mas para todos aqueles que se preocupam com a formação leitora e cidadã de crianças e jovens, afinal, as pesquisas também mostram que são as redes sociais as principais responsáveis pela disseminação de notícias falsas, discurso de ódio, extremismo e desinformação de toda sorte. Se as notícias só despertam interesse em formato de dancinhas e “conversas de comadre” com o influenciador “da hora” há que, realmente, nos perguntarmos: para que servem as notícias?
Para além das manchetes, há uma leitura necessária que ultrapassa o texto, solicitando que se conheça o contexto, o subtexto e inclusive as diversas possibilidades de interpretação de um fato
A pergunta segue sem resposta quando observamos que o relatório de notícias digitais evidenciou a fadiga de informação que se abateu sobre a humanidade nos últimos anos. A proporção dos usuários que afirmaram evitar notícias – na maior parte das vezes ou às vezes – é bastante expressiva: 36% da amostra total. Essas pessoas se dividem entre as que evitam periodicamente todas as fontes de notícias e aquelas que limitam sua busca em momentos específicos ou para determinados tópicos. A maioria dos entrevistados afirmou não estar procurando mais notícias, e sim notícias que pareçam mais relevantes, e os ajudem a entender os problemas que enfrentam, o que é, finalmente, uma boa notícia, por mais que o montante seja pequeno em relação ao universo total. Ninguém aguenta mais notícias sobre a guerra, os desastres climáticos, a fome e as mazelas humanas. Os analistas dizem que esses poucos cidadãos que lêem notícias o fazem porque buscam o chamado “jornalismo positivo” ou “de soluções”. Esse pode ser um bom ponto para responder a nossa pergunta: se as notícias não servem para aplacar a nossa incerteza, dominar a nossa ansiedade e nos esperançar, parece não valer a pena passar do título.
A falta de interesse nas notícias pela maior parte das pessoas no mundo revela muito sobre a nossa sociedade. Ansiedade, falta de empatia, exaustão pelo excesso de informação, falta de sentido e de compreensão sobre o que elas significam na nossa vida prática. Talvez o que deva nos preocupar mais é que as notícias não são apenas o relato de pequenos excertos do que acontece no mundo. Elas são, sobretudo, a narrativa coletiva dos acontecimentos, e o interesse por elas está, a meu ver, diretamente ligado ao coletivo, ao que interessa a todos e impacta o indivíduo. Como afirmou um dos nossos maiores autores, Machado de Assis (leia-se “notícia” em substituição a “jornal” para ampliar o sentido da frase): “O jornal é a verdadeira forma de república do pensamento. É a locomotiva intelectual em viagem para mundos desconhecidos, é a literatura comum, universal, democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das ideias e o jogo das convicções.” Quando ele define a notícia como “literatura comum” dá conta da característica maior do texto noticioso: ser lido simultaneamente por muitos, permitindo, ainda assim, a subjetividade inerente ao indivíduo leitor. Talvez por isso a rejeição às notícias seja mesmo preocupante.
“Todos os dias leio os jornais para saber o que penso”, disse o ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso. Sua declaração expressa a dimensão social das notícias, que é fundamental para formar cidadãos capazes de protagonizar a sua história. Para além das manchetes, há uma leitura necessária que ultrapassa o texto, solicitando que se conheça o contexto, o subtexto e inclusive as diversas possibilidades de interpretação de um fato. A notícia bem fundamentada convida a uma leitura lateral, inclusive aquela que possibilita perceber o que não é contado naquele relato. A verdade, dizem alguns filósofos, é algo socialmente construído e o acesso às notícias de qualidade possibilita uma leitura do mundo sob uma perspectiva mais ampla, mais próxima dessa “verdade”. As chamadas “real news” em contraposição às “fake stories” nos ajudam a construir uma espécie de pacto com a realidade no sentido de recompor um lugar comum para a experiência coletiva, o que faz com que possamos acreditar no que acontece e no que nos atravessa nesses acontecimentos.
Assim, se não temos a resposta precisa para a nossa questão, há algumas pistas que servirão para iluminar um caminho a fim de conquistarmos leitores construtores de sentido. Segundo o chamado “grupo de Nova Londres”, formado por dez pesquisadores de diferentes áreas, que estuda a pedagogia dos multiletramentos, é preciso transformar as pessoas de usuários funcionais – aqueles que têm conhecimento técnico e experiência prática em determinados âmbitos – em cidadãos transformadores, de maneira que consigam usar, na prática, o que foi aprendido, de outros modos e em outros contextos. E isso se faz primeiro transformando o indivíduo em analista crítico – aquele que entende que tudo o que é dito e estudado é fruto de uma seleção prévia – e depois, num criador de sentidos, ou seja, aquele que compreende como diferentes tipos de textos e tecnologias operam.
O acesso qualificado às notícias, com uma mediação adequada e o exercício criativo do questionamento, aliado à prática de responder perguntas enquanto se levanta outras tantas, pode ser um bom começo para a redução das incertezas e, sobretudo, para a busca de soluções concretas e sustentáveis que favoreçam a construção de um mundo mais digno para todos nós.
Januária Cristina Alvesé mestre em comunicação social pela ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, coautora do livro “Como não ser enganado pelas fake news” (editora Moderna) e autora de “#XôFakeNews - Uma história de verdades e mentiras”. É membro da Associação Brasileira de pesquisadores e Profissionais em Educomunicação - ABPEducom e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.
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