Coluna

Marcelo Coelho

Chileno Pablo Larraín revive Pinochet em filme bizarro

13 de setembro de 2023

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Um ex-ditador vampiro mordendo dois ou três pescoços não chega aos pés de um regime que fez mais de 40 mil vítimas

E põe bizarro nisso. O único aspecto convencional de “El Conde”, filme sobre Pinochet feito por Pablo Larraín para a Netflix, é que seu lançamento coincide com os 50 anos do golpe militar chileno.

O ponto de partida, como o trailer deixa claro, é que o ditador Augusto Pinochet (1915-2006) não morreu de verdade. Virou um vampiro, e com sua capa do Exército chileno sobrevoa desertos e cidades em busca de sangue fresco.

A filmagem acaba sendo menos surreal do que parece; a levitação do protagonista, em tomadas panorâmicas, não chega a ser ridícula. Sem contar que a ideia serve para uma sequência lindíssima, já no final da história, e que por si só vale o filme todo.

É quando outra personagem (não direi qual) aprende a voar também; acompanhamos suas tentativas meio zonzas, os quase acidentes que acontecem, suas vertigens iniciais na sombra, até que se confirme o vasto prazer da arte conquistada.

Pinochet continua vivo, claro: o modelo sanguessuga do seu neoliberalismo extremo resiste, pelo que parece, a todas as crises (2008, covid-19), e ainda encontra seus imitadores em toda parte – a começar com piolhos como Paulo Guedes, cujo aprendizado se fez num pleno Chile de torturas e massacres.

Marcelo Coelhoé jornalista, com mestrado em sociologia pela USP (Universidade de São Paulo). Escreveu três livros de ficção (“Noturno”, “Jantando com Melvin” e “Patópolis”), dois de literatura infantil (“A professora de desenho e outras histórias” e “Minhas férias”) e um juvenil (“Cine Bijou”). É também autor de “Crítica cultural: teoria e prática” e “Folha explica Montaigne”, além de três coletâneas com artigos originalmente publicados no jornal Folha de S.Paulo (“Gosto se discute”, “Trivial variado” e “Tempo medido”).

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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