Coluna

Olavo Amaral

A insustentável falta de leveza do mundo acadêmico

27 de dezembro de 2023

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Individualismo demais, recursos de menos e um vácuo de planejamento impedem o desapego na academia, e todos perdemos com isso

Uma das minhas últimas conquistas profissionais do ano que termina foi conseguir devolver meu espaço de laboratório para o instituto em que trabalho na UFRJ. Não há nenhum mistério na decisão: depois que abandonei a neurociência para virar um metacientista – alguém que pesquisa, reflete e escreve sobre ciência –, não faço experimentos de laboratório há alguns anos. Meu grupo de pesquisa trabalha basicamente online desde a pandemia, de vários cantos do mundo, e mesmo quem está no Rio de Janeiro não está fisicamente na universidade na maior parte do tempo. Em resumo, eu estava ocupando um espaço do qual não precisava.

O que surpreende não é a decisão, mas o tempo que levei para tomá-la. Passei uns quatro anos sem usar a área destinada a experimentos (vá lá, dois desses em uma época de laboratórios fechados pela covid-19) antes de oferecê-la de volta em 2022. Ainda assim, quis ficar com um espaço de escritório superdimensionado para minha demanda. E só acabei devolvendo essa parte da área porque a direção do instituto não entendeu que eu queria mantê-la e acabou prometendo-a para outra pessoa junto com o resto do laboratório. Para não complicar, concordei em sair de lá se me dessem uma cadeira, uma mesa e um armário em um espaço compartilhado qualquer.

Meu instituto, porém, tem dificuldades com o conceito de espaços compartilhados. Com isso, minha recompensa pelo desapego será ter de me mudar para uma sala abandonada há anos e gastar tempo e dinheiro fazendo mudança e reformas durante o verão. Também vou ter que abrir armários e geladeiras para decidir o que guardar e o que botar fora, e provavelmente descobrir amostras estragadas e reagentes vencidos há uma década que guardei para acabar não usando.

A forma fragmentada de financiar pesquisa no país parece ignorar o fato de que diferentes recursos têm de coexistir para que a ciência aconteça

Por trás de tudo isso, há um histórico de acúmulo movido pela lógica do “ah, mas vai que…”. Mantive a área de laboratório comigo por tempo demais porque talvez eu decidisse voltar a fazer experimentos um dia. O escritório por tempo demais porque talvez o grupo voltasse a crescer presencialmente. E as amostras e reagentes por tempo demais porque talvez eu ainda fosse usar em algum momento.

A lógica é obviamente danosa do ponto de vista coletivo, já que certamente deveria haver alguém na UFRJ que poderia estar usando o espaço melhor do que eu. Infelizmente, porém, ela faz sentido no plano individual: abdicar de alguma coisa num mundo de recursos escassos e imprevisíveis como a universidade brasileira – eu mesmo levei oito anos até ter um laboratório próprio – significa correr um risco não desprezível de nunca mais consegui-la de volta.

Acumular faz mais sentido ainda num mundo acadêmico em que a recompensa individual por se desfazer de algo é absolutamente zero. Ter deixado a sala fechada sem oferecer nada de volta teria me poupado tempo e transtorno, e meu instituto provavelmente levaria uma década para se dar conta de que eu quase não estava usando o espaço. Entregá-lo vai me custar tempo e dinheiro, em troca de benefício nenhum.

Há alguns milhares de anos, o ser humano desenvolveu uma ideia revolucionária para direcionar recursos a quem podia aproveitá-los melhor. Na Mesopotâmia, pedaços de argila com caracteres cuneiformes serviam como cartas de crédito, representando um valor arbitrário que poderia ser trocado por bens diversos. Há evidências de que povos em outros continentes usaram conchas ou grãos para o mesmo fim. No Mediterrâneo do século 7 a.c., pedacinhos estampados de metal assumiriam essa função, que seria transferida pelos chineses para folhas de papel. O conceito viria a ser conhecido como “dinheiro”.

A equivalência financeira entre bens distintos é a melhor defesa contra o acúmulo improdutivo no mundo real. A não ser que seja muito rico, ninguém costuma manter um apartamento desocupado por anos a fio: é mais negócio vendê-lo ou alugá-lo e usar o valor que se recebe para comprar algo que possa ser aproveitado. A lógica também faz com que o próprio dinheiro não fique parado, e acabe sendo emprestado para alguém que vai usá-lo para gerar riqueza e entregá-lo de volta com juros.

A noção de intercambialidade entre recursos, porém, é estranhamente ignorada pelo mundo acadêmico. Se você tem um espaço físico ocioso, não tem como trocá-lo por um secretário ou por um microscópio. Se tem bolsas de doutorado sobrando, não pode usá-las para comprar pipetas ou gaiolas de camundongos. Se tem um técnico que não trabalha, não tem como parar de pagá-lo para alugar um escritório. E ao contrário do casal que lucra ao se mudar para um lugar menor quando os filhos saem de casa, pesquisadores sênior se agarram com unhas e dentes a latifúndios subutilizados, porque desocupá-los só aceleraria a perda de seu capital acadêmico.

A situação é ainda pior no Brasil, em que recursos de diferentes tipos costumam vir de fontes distintas, sem um planejamento coordenado. Espaço físico e técnicos concursados são distribuídos por universidades para departamentos e institutos, que os colocam sob a guarda de pesquisadores individuais. Bolsas de pesquisa vêm de pós-graduações e agências de fomento, geralmente através de editais que servem apenas para isso. Equipamentos e insumos são comprados com verbas de projetos, e quem se atreve a investir recursos de custeio em capital ou vice-versa arrisca ter suas prestações de contas negadas por conta de legislações sexagenárias.

Com isso, é corriqueiro ver pesquisadores com equipamentos mas sem espaço para alojá-los, com espaço mas sem nada para ocupá-lo, com alunos mas sem recursos de pesquisa, ou com projetos financiados sem ter quem os execute. A forma fragmentada de financiar pesquisa no país parece ignorar o fato de que esses diferentes recursos têm de coexistir para que a ciência aconteça e que a forma mais fácil de garantir isso é provê-los a partir de uma fonte única – ou repassá-los como recursos intercambiáveis e deixar que quem os recebe administre-os ao seu modo.

A situação é algo melhor em outros países, em que o financiamento a projetos de pesquisa costuma comportar recursos para contratação de pesquisadores e pessoal administrativo – prática que por aqui costuma estar limitada a editais de grande porte ou a financiamento vindo de instituições privadas. Dito isso, o mundo acadêmico no exterior tem suas próprias maneiras de estimular o desperdício, como a prática de avaliar pesquisadores pelo volume de recursos de pesquisa captados. A métrica faz todo sentido para as instituições que a usam, já que estas costumam ficar com uma porcentagem dos recursos. A nível sistêmico, porém, é um incentivo disfuncional para tratar o acúmulo de recursos como um fim em si próprio, em uma inversão de valores de fazer inveja ao Tio Patinhas.

Todas essas situações disfuncionais são sintomas de uma contradição fundamental do mundo científico. Por um lado, a liberdade individual é um valor extremamente caro ao etos acadêmico há décadas, ou mesmo séculos. Com isso, pesquisadores costumam ter uma autonomia enorme em escolher suas linhas de pesquisa, gerir seus laboratórios, analisar seus dados e publicar seus resultados da forma que bem entenderem.

Por outro lado, os meios para exercer essa liberdade – que na ciência experimental quase sempre envolvem recursos materiais – são disputados em um sistema de competição selvagem. O combate começa pelos próprios empregos, em um mundo em que apenas uma minoria dos doutores acabará numa posição acadêmica estável. Passa pelos recursos de pesquisa, em que apenas uma minoria das propostas submetidas a editais é contemplada. E persiste até o topo da carreira, em que prêmios, academias e outras posições de prestígio perpetuam a lógica, criando clubes cada vez mais seletos a serem almejados.

Nesse cenário de liberdade individual em um ambiente ultracompetitivo, a melhor estratégia é primeiro acumular recursos, drenando o sistema tanto quanto possível, para depois se preocupar em como aplicá-los. E, como em tantas outras instâncias, a resultante de milhares de indivíduos agindo em prol de seus interesses individuais sem coordenarem esforços acaba sendo desfavorável para todos – uma situação que economistas e ecólogos costumam chamar de “tragédia dos comuns”.

Mais do que isso, a dificuldade de se obter infraestrutura, equipamento e pessoal torna extremamente custoso abandonar linhas de pesquisa estabelecidas, já que isso envolve voltar à estaca zero na batalha por recursos. Com isso, a falta de desapego com bens materiais acaba se estendendo a métodos, teorias e ideias – e faz com que cientistas deixem de abrir novas fronteiras para gastar seu tempo preservando o que já têm e repetindo o que já fazem, mesmo quando isso se revela um beco sem saída.

Poderíamos ir ainda mais longe e dizer que a lógica do acúmulo se estende às instituições acadêmicas. Em épocas de vacas gordas – como nos tempos do Reuni –, chovem propostas de novos cursos, departamentos ou prédios para justificar os pleitos das universidades por mais recursos. E, quando os recursos minguam, gestores passam a gastar toda a sua energia tentando impedir que o que se construiu desabe – e acabam se tornando síndicos de uma estrutura grande demais para ser mantida, mas que não tem como ser desmantelada.

As soluções para o problema estão longe de ser óbvias e envolvem um grau de planejamento e continuidade de investimento bem maior do que o que temos hoje no país. Se queremos dar liberdade a cientistas, temos que criar posições com as condições materiais para exercê-la – talvez com algo análogo às start-up packages de instituições estrangeiras –, ao invés de deixá-los se engalfinhar por recursos escassos. E, se não há recursos para todos, cabe pensar se não é melhor criar incentivos para que pesquisadores colaborem em um número menor de linhas de pesquisa, ao invés de competir para expandir esse número indefinidamente.

Acima de tudo, criar formas mais racionais de distribuir recursos envolve valorizar o aspecto humano nas duas pontas do sistema científico. Decisões sobre quem ou o que financiar têm de ser feitas por pessoas, usando critérios que privilegiem o coletivo, ao invés de métricas cada vez mais arcanas para medir o valor de indivíduos em competição. Na outra ponta, o maior capital do sistema são as pessoas que fazem ciência, e é preciso aproveitá-las da melhor forma possível – o que inclui oferecer opções de colaborar com o avanço do conhecimento que não necessariamente envolvam o acúmulo individual de recursos ou a liderança de um grupo de pesquisa.

Ser capaz de abdicar das coisas, afinal, traz mais do que economia. Deixar linhas de pesquisa, laboratórios ou instituições para trás abre espaço para tentar coisas novas e disseminar conhecimento entre áreas distintas. Deveríamos facilitar – ou mesmo estimular – essa possibilidade, ao invés de inibi-la por uma legislação que prevê uma carreira linear e sem interrupções ou por critérios de avaliação que requerem produtividade contínua. Se não formos capazes de fazê-lo, seguiremos estimulando cientistas a usarem sua liberdade para preservar o que já conquistaram, ao invés de trilhar novos caminhos.

E, se eu posso desejar uma coisa para o ano que está por vir, é que possamos abrir esse espaço. Quando eu estiver jogando coisas fora para entregar um laboratório no calor de janeiro, essa será minha única recompensa. Junto com a leveza de saber que a mudança seguinte dará menos trabalho, porque vou ter menos coisa para carregar.

Olavo Amaralé médico, escritor e professor da UFRJ. Foi neurocientista por duas décadas e hoje se dedica à promoção de uma ciência mais aberta e reprodutível. Coordena a Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade, uma replicação multicêntrica de experimentos da ciência biomédica brasileira, e o No-Budget Science, um coletivo para catalisar projetos dedicados a construir uma ciência melhor. Como escritor, é autor de Dicionário de Línguas Imaginárias e Correnteza e Escombros

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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