Coluna
Januária Cristina Alves
A desinformação é o maior risco global: como lidar com ela?
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Faz tempo que o mundo tem assistido a diversos tipos de mazelas causadas pela desinformação. Não é nova a ideia de que informação é poder, e, portanto, manipulá-la, alterá-la e usá-la para meios e fins que não produzem conhecimento, mas espalham preconceitos, ódio, tirania, desigualdade e destruição, confere vantagem a alguns e promove desintegração dos valores e pilares que mantêm a vida em sociedade ainda viável para a maioria dos seres humanos. Se o fenômeno é tão antigo quanto o próprio homem, a novidade responde pelo nome de internet – e, mais especificamente falando, pelas redes sociais –, que se tornou uma máquina mortífera de espalhar desinformação e todo tipo de conteúdo danoso à convivência social e ao respeito pelos direitos básicos de todos nós, em uma escala e velocidade inimagináveis.
A desinformação foi eleita pelo Fórum Econômico Mundial de 2024 – que anualmente acontece em Davos, na Suíça – como o risco global mais grave a ser enfrentado nos próximos dois anos pela comunidade internacional. De acordo com o Relatório de Riscos Globais, o fluxo acelerado de informações falsas pode, dentre outras coisas, ampliar a polarização política, agravar questões que envolvem a manutenção da saúde pública e justiça social e estimular os governos mundiais a combatê-lo com censura e controle dos conteúdos informativos, decretando, por conta e risco, o que é verdadeiro ou não.
Em segundo e terceiro lugar entre os maiores riscos globais, vêm as mudanças climáticas e a polarização social, que também estão profundamente ligadas à questão da desinformação, pois ela contribui sobremaneira para a propagação de teorias conspiratórias do tipo que afiançam que o aquecimento global é “invenção da esquerda” e de preconceitos e discurso de ódio contra as minorias. Ou seja, é preciso, mais do que nunca, aprendermos a lidar com a desinformação para que possamos continuar a habitar este planeta de maneira sustentável.
Compreender a função da notícia e seu impacto no cotidiano é um dos pilares da Educação Midiática, e talvez isso agora esteja em segundo plano, já que as redes sociais viraram centro das atenções
Um dos focos da Educação Midiática é o combate à desinformação. Aliás, foi por conta da proliferação das fake news que ela tornou-se mais conhecida no mundo inteiro, inclusive aqui no Brasil, que atualmente já conta com a Coordenação Geral de Educação Midiática, ligada à Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, que está se dedicando a torná-la política pública. A Educação para as Mídias se preocupa, prioritariamente, em formar leitores críticos e competentes para reconhecer as informações falsas e buscar aquelas de qualidade, só que essa formação é complexa e envolve toda a sociedade. A escola tornou-se o centro de diversas ações dessa área por ter um papel central na formação de crianças e jovens, que serão os cidadãos do futuro e, portanto, aqueles supostamente capazes de reverter esse quadro. Porém, no mundo inteiro, essas práticas têm se revelado insuficientes para dar conta da rapidez e escala com a qual a desinformação prolifera, e é aí que o alerta do Fórum Mundial torna-se imperativo, porque indica que a Alfabetização Midiática e Informacional, como a Unesco faz questão de nomeá-la, é uma ferramenta importante, mas que é preciso mais para deter a destruição que esse fenômeno tem provocado e ainda vai provocar.
“É particularmente importante aqui concentrar-nos em formas de literacia midiática e noticiosa que não só cultivem faculdades críticas, mas também ajudem as pessoas a fazer escolhas positivas – para decidir que meios de comunicação social, com todas as suas imperfeições, são suficientemente bons para os seus objetivos atuais”, revelam os pesquisadores holandeses Joëlle Swart e Marcel Broersma, autores de um estudo publicado na revista Journalism intitulado “O que parece ser notícia? As percepções dos jovens sobre as notícias no Instagram”, em tradução livre. Segundo eles, a questão do desinteresse crescente das pessoas – e em especial dos jovens – pelas notícias é um grave problema que impacta profundamente a disseminação da desinformação.
Compreender a função da notícia e seu impacto em nosso cotidiano é também um dos pilares da Educação Midiática, e talvez ele esteja sendo relegado a segundo plano, uma vez que as redes sociais tornaram-se o centro das atenções por conta dos sérios danos que vêm causando às crianças e jovens, que, cada vez mais cedo, estão se viciando nos vídeos curtos rápidos e jogos online que propagam conteúdos danosos. Com certeza é fundamental voltarmos a nossa atenção para o trabalho com esse público buscando o uso equilibrado dessas mídias, evitando o bullying, cyberbullying, problemas de saúde mental, dentre outros, tão sérios que tornaram-se questões de vida e morte. Porém, cabe aqui uma reflexão importante sobre o papel das notícias no combate à desinformação.
Como destacam os pesquisadores, as notícias nos ajudam a tomar decisões em nossas vidas, influenciam o nosso modo de pensar, ser e agir em sociedade, pois, ao relatarem determinados fatos, não apenas mostram o que entendemos como “realidade” como moldam o futuro a partir do que retratam. O que as pesquisas mostram é que as pessoas se desinteressaram pelas notícias. Segundo o mais recente relatório do Instituto Reuters, de cada 100 brasileiros, 41 não querem saber o que acontece ao seu redor. E as razões são diversas: notícia é sempre sobre coisa ruim, deprime, é complicada e não tem a ver com os problemas que enfrentamos. Dentre a população jovem, essas queixas são mais prevalentes. No estudo citado anteriormente sobre os jovens e sua percepção das notícias veiculadas pelo Instagram, constatou-se que esse público se relaciona com elas por meio de um forte componente emocional e que costuma classificá-las segundo critérios pessoais, que pouco tem a ver com objetividade e precisão da informação, e muito com seu humor e necessidades imediatas.
A notícia tem sido tratada como entretenimento, e tal confusão está colocando em risco a nossa democracia, alerta o professor Eugênio Bucci, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Ele tem chamado a atenção para o perigo de uma comunicação que apela para a emoção, tornando-se melodramática para poder merecer a atenção do indivíduo. “Ou a mensagem segue o alfabeto visual estabelecido pela indústria do entretenimento, quer dizer, ou a propaganda assimila as narrativas baseadas no modelo ‘bonzinhos-contra-malvados’, ou não encontrará eco nas mentes e corações”, afirma em um de seus artigos para o jornal O Estado de S. Paulo. “O termo ‘vontade’ perdeu terreno para o termo ‘desejo’: a vontade tem parte com a razão; o desejo não paga pedágio nenhum para o pensamento, apenas avança o sinal com tudo o que tem de visceral e de fútil. O 8 de Janeiro envolveu menos inocentes úteis do que indecentes fúteis. Espatifar relíquias históricas no Palácio do Planalto deu sentido heroico a vidas vazias – isso não no plano da História, com H maiúsculo, mas na tela do entretenimento, inteiramente minúsculo. As forças que movem o povo não são práticas nem programáticas – são melodramáticas”, reflete, em um outro artigo.
Nesse sentido, é preciso prestar muita atenção na relação das pessoas com o que lhes acontece. Há que se trabalhar por um consenso de realidade, uma base comum factual que se ampare nas evidências, na ciência, nos valores éticos que promovem o bem-estar comum. A confusão entre ficção e realidade, entre notícia e entretenimento, evidencia que o fenômeno da desinformação se ampara no individualismo, nas crenças pessoais, nas opiniões e, por fim, na mentira. Não à toa a palavra do ano, para o dicionário Cambridge, foi “alucinar”, que é quando uma ferramenta de inteligência artificial produz uma informação falsa. De alguma forma, parece que estamos todos alucinando ou alucinados…
É preciso educação socioemocional e política aliadas à noção de que a informação é um bem público, direito de todos, e de que, portanto, a notícia deve ser entendida como um elemento fundamental para a promoção e o exercício desse direito. Ler e compreender as notícias com certeza são competências e habilidades que devem ser desenvolvidas para combater a desinformação e nos ajudar a enxergar a realidade em que vivemos.
Januária Cristina Alvesé mestre em comunicação social pela ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, coautora do livro “Como não ser enganado pelas fake news” (editora Moderna) e autora de “#XôFakeNews - Uma história de verdades e mentiras”. É membro da Associação Brasileira de pesquisadores e Profissionais em Educomunicação - ABPEducom e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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