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Marcelo Coelho

Viva Oppenheimer! Pobre Oppenheimer! Força, Oppenheimer!

28 de fevereiro de 2024

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‘Zona de interesse’ exclui qualquer senso de torcida. A câmera, o enquadramento, a trilha sonora produzem temperaturas abaixo de zero

Me desculpe, “Oppenheimer”. Por mim a premiação do Oscar poderia começar e acabar com um único filme: “Zona de interesse”, de Jonathan Glazer.

Bem, são obras que apelam para tipos diferentes de público. Ou melhor, o público pode até ser o mesmo, mas a relação que se estabelece entre filme e espectador é de outra ordem.

Como tantos filmes americanos, bons ou ruins, “Oppenheimer” aposta na empatia. Eu me identifiquei com toda a luta do personagem para construir a bomba atômica, e o momento em que a coisa explode no deserto, com todos aqueles excelentes rapazes passando protetor solar e usando óculos escuros para se proteger do clarão, só pode ser celebrado como uma vitória.

Viva Oppenheimer! Mas coitado do Oppenheimer! Ele sofre depois de Hiroshima e Nagasaki. Força, Oppenheimer! Ele é perseguido por suspeitas de traição.

Fazer a bomba, sim, tinha de ser – afinal, Hitler poderia ter construído aquilo primeiro. Fazer a bomba, não – aquilo elevou as possibilidades de massacre a níveis nunca atingidos.

Marcelo Coelhoé jornalista, com mestrado em sociologia pela USP (Universidade de São Paulo). Escreveu três livros de ficção (“Noturno”, “Jantando com Melvin” e “Patópolis”), dois de literatura infantil (“A professora de desenho e outras histórias” e “Minhas férias”) e um juvenil (“Cine Bijou”). É também autor de “Crítica cultural: teoria e prática” e “Folha explica Montaigne”, além de três coletâneas com artigos originalmente publicados no jornal Folha de S.Paulo (“Gosto se discute”, “Trivial variado” e “Tempo medido”).

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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