Coluna
Januária Cristina Alves
O perigo de ver tudo enquadrado (ou em quadrados)
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O ano era 1992, e Adriana Calcanhotto cantava, com sua voz límpida e forte, “Esquadros”, música de seu álbum “Senhas”, que estourou nas rádios:
“Pela janela do quarto/ Pela janela do carro/ Pela tela, pela janela/ Quem é ela, quem é ela?/ Eu vejo tudo enquadrado/ Remoto controle…”
A internet ainda era um sonho distante para a maioria de nós, e Adriana, como todos os artistas que com sua sensibilidade conseguem ver além de seu tempo e espaço, já profetizava que estávamos vendo tudo “enquadrado” (e/ou “em quadrados”, não?) e que, por conta disso, o controle que tínhamos deste mundo – ou pelo menos do que víamos dele – era cada vez mais remoto. Se na época a alusão era à TV – ou à câmera fotográfica –, que tem como pressuposto enquadrar imagens e visões de mundo para influenciar e moldar as nossas, mal sabia ela que essas telas se ampliariam de tal forma que já não saberíamos mais se o que está enquadrado é real (ou parte de uma realidade) ou algo 100% criado por um robô, por exemplo. Se o controle já era remoto, na nossa “era da pós-verdade” ele ficou praticamente impossível. “Vídeos são para nós humanos a prova mais confiável de que algo aconteceu. Nos últimos anos aprendemos que textos e imagens são facilmente manipuláveis. Mas e o vídeo? Para a maioria das pessoas, isso é o que mostra que algo de fato ocorreu. Tudo isso agora cai por terra. Não dá mais para confiar em nenhum vídeo”, afirma o advogado Ronaldo Lemos em uma de suas colunas para o jornal Folha de S.Paulo.
Busca pela regulação das mídias digitais passa, em síntese, por uma revisão imensa dos nossos modos de ser e educar na contemporaneidade
E, porque não dá para controlar – nem mesmo remotamente –, estamos em busca de mecanismos de controle e regulação das telas, ou melhor, das plataformas que detêm o poder de escolha do que vemos ali. O que está absolutamente correto: a internet não pode ser terra de ninguém, assim como a realidade fora das telas também tem suas regras para que todos (ainda) possamos habitar este planeta. Porém, sabemos que o controlar e o regular têm um parentesco mais próximo do que gostaríamos com o vigiar, o censurar, o proibir. E é essa questão que dificulta bastante o estabelecimento de regras claras para trafegarmos com ética e segurança no mundo digital. Nesse sentido, estamos assistindo a um movimento mundial para o estabelecimento inequívoco de normas que protejam crianças e adolescentes de conteúdos e ideias nocivas à sua formação e autoestima e, no limite, ameaçadoras à sua sobrevivência. Todas as discussões e leis que estão resultando dessa mobilização ainda carregam em si paradoxos que são complexos para quem lida com a educação desse público.
Celular na escola: pode ou não pode? Cyberbullying é crime passível de punição judicial para uma criança e seus pais? O ChatGPT pode ser usado nas universidades como ferramenta de produção de textos? Como lidar com esses elementos, à essa altura já entranhados na cultura da maior parte das crianças e jovens do mundo inteiro, sem tolher seus direitos, sua liberdade de expressão, sem excluí-los do meio em que vivem e, no entanto, ensinando-os a serem cidadãos respeitosos consigo e com o outro, a serem seres humanos empáticos e compassivos? A busca pela regulação das mídias digitais em síntese passa, sobretudo, por uma revisão imensa dos nossos modos de ser e educar na contemporaneidade.
Em um mundo em que ficção e realidade se misturam, transformando tudo o que experienciamos em espetáculo, em que já não ouvimos os silêncios, não fazemos pausas para refletir, a tarefa de pensar quem somos e para onde vamos – eternas questões do ser humano – foi atropelada pela sequência caótica de quadrados, e já não conseguimos parar a exibição ininterrupta e viciante desses quadros despedaçados dos contextos, sem sentido algum para nossa existência. Por isso, estamos assistindo cada vez mais os cientistas, pesquisadores e educadores chamarem a atenção para a leitura como um porto seguro onde ainda é possível ancorar a formação de nossas crianças e jovens com segurança e ao mesmo tempo com liberdade, autonomia e criatividade, favorecendo a sua experimentação de múltiplos olhares e vivências.
“Em tempos tão difíceis para as infâncias, em que o controle parece ser a salvação para protegê-las de todos os perigos iminentes na sociedade, tudo aquilo que é previsível, moldado, replicado, configura um lugar-conforto para algumas famílias e educadores. Nesse sentido, dar lugar ao não dito, à criatividade, às metáforas e à imaginação parece ser um sopro de liberdade para essas infâncias…”, afirma a especialista em leitura e literatura para as infâncias Dianne Melo, no prefácio para o livro de Cecília Bajour, pesquisadora e crítica de literatura infantojuvenil, “Cartografia dos encontros: literatura, silêncio e mediação” (Solisluna Editora).
Em sua obra, Bajour aborda a questão da leitura para as infâncias como uma possibilidade concreta de se combater as fake news e a desinformação, já que a matéria-prima dessa literatura é o cruzamento entre texto e imagem, entre o culto e o popular, entre ficção e realidade: “esse cruzamento intersemiótico é a semente da multimidialidade antes que essa perspectiva existisse”, aponta. Ou seja, a literatura e a ficção são instrumentos potentes para ampliarmos a nossa perspectiva de entender o mundo, para treinarmos o nosso olhar, para ler e ver o que não está posto, mas sugerido e enviesado. “Em tempos em que é fundamental reverter diversos retrocessos em direitos básicos, torna-se imprescindível que os leitores e leitoras disponham de ferramentas para olhar criticamente como diversas formas de poder utilizam estratégias cada vez mais sofisticadas para exercer o controle sobre a vida de todas e todos e impor uma verdade única”, alerta a autora.
Sim, porque também a literatura para as infâncias vem sofrendo censuras e silenciamentos, sempre disfarçados de boas intenções, como as tentativas de “adaptar” clássicos para que não proponham questionamentos e inquietações de nenhuma ordem. Em uma entrevista que concedeu ao Nexo, o escritor Bernardo Carvalho, ao falar sobre a moral na literatura, diz que esta traz em si a possibilidade de “confrontar as pessoas com coisas que as contradizem (…) não precisa ser necessariamente a verdade, mas algo que põe em movimento a relação social, uma relação com o real, com a morte, com o contraditório”. Quando comparamos o exercício da leitura com a rolagem de telas, que são regidas por algoritmos cuja função maior é nos colocar em bolhas que não permitem o respiro ou o acesso ao que é diferente e diverso de nós, a literatura pode, efetivamente, nos libertar.
O francês Michel Desmurget, autor do livro “Faça-os ler! Para não criar cretinos digitais” (ed. Vestígio), faz uma veemente defesa da leitura como a maior ferramenta para formar pessoas críticas e bem-informadas: “Vasculhei a literatura científica em todas as direções e não encontrei um antídoto melhor para a estupidificação das mentes do que a leitura. Ela é uma verdadeira máquina para moldar a inteligência em sua dimensão cognitiva (aquela que permite pensar, refletir e raciocinar), mas também, de maneira mais ampla, socioemocional (aquela que permite entender a si mesmo e aos outros, para benefício das relações sociais). O leitor é o anticretino digital!”. No entanto, ele mesmo reconhece que não é tarefa fácil formar leitores apaixonados, dado que as redes possuem um mecanismo que induz ao vício e à dependência. Mas, como educadores que somos, não podemos abrir mão de conduzir nossas crianças por outros mundos. E, em se tratando das infâncias, isso começa e se fortalece nas famílias, que precisam estar juntas nessa tarefa, e continua na escola, que pode promover experiências diversas.
Como diz Adriana Calcanhotto em sua canção, a experiência “enquadrada” só produz cansaço e solidão: “Eu ando pelo mundo, e meus amigos, cadê?/ Minha alegria, meu cansaço/ Meu amor, cadê você?/ Eu acordei/ Não vi ninguém ao lado”. A literatura, ao fim e ao cabo, nos faz sentir acompanhados, o que, em tempos cibernéticos, é essencial.
Januária Cristina Alvesé mestre em comunicação social pela ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, coautora do livro “Como não ser enganado pelas fake news” (editora Moderna) e autora de “#XôFakeNews - Uma história de verdades e mentiras”. É membro da Associação Brasileira de pesquisadores e Profissionais em Educomunicação - ABPEducom e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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