Coluna
Januária Cristina Alves
O avesso do avesso do avesso: a censura aos livros no Brasil
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“E quem vende outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso…”
Com esses versos, o poeta, compositor, cantor e escritor Caetano Veloso homenageia outro grande poeta concretista, Décio Pignatari, brincando com a palavra “avesso” que, dita e desdita, expressava sua sensação paradoxal em viver na maior cidade do Brasil, aquela “Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas/ Da força da grana que ergue e destrói coisas belas”. Em “Sampa”, Caetano canta também o Brasil, um país desde sempre recheado de paradoxos. Um território no qual apenas 9,5% dos alunos de 15 e 16 anos leram algum material com mais de 100 páginas em 2018, segundo um levantamento realizado a partir dos resultados do último Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes). Em contraste, no Chile, 64% dos alunos atingiram essa marca, e na Finlândia, um exemplo de sucesso educacional, esse índice chega a 72,8%. O estudo revela também que 66,3% dos alunos brasileiros nessa faixa etária não leram textos ou livros que ultrapassam 10 páginas. Ou seja, segundo a entidade, esses jovens não alcançam um nível de proficiência adequado para “participar plenamente da sociedade”. Como se isso não bastasse, estamos falando também de um país que perdeu mais de 800 bibliotecas públicas nos últimos cinco anos.
Censura, cancelamento, cerceamento à liberdade de expressão. Nenhum desses temas é novo neste Brasil tão incoerente
E é nesse Brasil de poucos e parcos leitores, que temos assistido a episódios seguidos de censura e banimento de… livros! Das escolas, das bibliotecas, da vida de milhares de crianças e jovens que, apesar de não terem a proficiência necessária para ler os que lhes chegam às mãos, responderam, no questionário do Pisa, que veem a leitura de forma positiva: tanto na rede pública quanto na privada, mais de 40% dos alunos afirmam que gostam de falar sobre livros (média superior à registrada pelos países da OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Tendo esse cenário como pano de fundo, num intervalo pequeno de tempo, vimos Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul proibirem a circulação do livro “O avesso da pele”, de Jeferson Tenório, em todas as suas escolas públicas. A obra foi aprovada pelo maior programa de distribuição de livros para escolas públicas do país, o PNLD (Programa Nacional do Livro Didático), que conta com avaliadores de alto nível.
Enquanto isso, um dos mais prestigiados prêmios de literatura do país, o Prêmio Sesc de Literatura, resolveu “parar tudo” e reformular as suas regras, e até agora a promoção dos vencedores está paralisada. Tudo porque o professor de história e escritor Airton Souza leu um trecho de “Outono de carne estranha”, romance de sua autoria vencedor da edição de 2023 do prêmio, na casa do Sesc em Paraty durante a Flip. O fragmento escolhido descreve uma cena de sexo entre dois garimpeiros e a leitura teria causado “desconforto” à plateia (ou àqueles que se arvoraram a interpretar o que a plateia deveria ter sentido).
Por fim, mas não por último: presídios de Minas Gerais impediram a entrada de livros literários e liberaram apenas os de autoajuda e a Bíblia para os detentos (vale dizer que, sabe-se lá o que se entende por autoajuda, vai depender do humor de quem está no comando).
É o avesso, do avesso, do avesso, do avesso. Proibir livros para quem já tem dificuldade de acessá-los e também de lê-los…
Censura, cancelamento, cerceamento à liberdade de expressão. Nenhum desses temas é novo neste Brasil tão incoerente. No livro “Herói mutilado: Roque Santeiro e os bastidores da censura à TV na ditadura”, da jornalista Laura Mattos, nos deparamos com um retrato tão detalhado quanto aterrador de como a ditadura militar cortou e recortou obras de arte do quilate daquelas produzidas pelo grande dramaturgo Dias Gomes em nome “da moral e dos bons costumes”. Tal como acontece nos dias de hoje, a censura lança suas garras sobre nós em nome de “boas causas”, como se cortar, suprimir, esconder e escamotear pudesse promover a formação de cidadãos mais conscientes e críticos, capazes de, por si só, fazerem escolhas éticas e sustentáveis. Segundo Mattos, o próprio Dias Gomes temia que, de tanto assistirmos a episódios de censura, acabássemos, todos nós, censores: “Quando passo pelos porteiros (da TV Globo, onde trabalhava), já temo que um deles me chame de lado e diga: ‘Olhe, vi no videotape aquele episódio. Acho que você deve mudar aquela cena, aquilo não passa…’”, relatou o autor em uma carta destinada a Boni, então diretor da TV Globo. Segundo a autora, “o clima (daquela época) de terrorismo terminava por moldar o processo criativo”.
O clima segue atual, pois é o que temos visto nas editoras, produtoras de vídeos, filmes, de conteúdos de uma forma geral, nas mídias sociais. Melhor cortar antes que nos cancelem, mais seguro produzir “água com açúcar” para não gerar nenhum tipo de polêmica, incômodo, para não mostrar a realidade. Para onde estamos indo em nome da liberdade de expressão, do direito à livre circulação de ideias? O que temos visto na internet, nas redes sociais, sob o manto de certas causas, preconceitos, ideias engessadas? Não há como refletir sobre essas questões senão a partir da nossa conduta nesses espaços públicos em que nos manifestamos. É interessante lembrar, para início de conversa, o conceito de liberdade de expressão cunhado pelo juiz americano Louis Dembitz Brandeis, conhecido por sua luta em prol desse direito, que afirmava que “o remédio a ser aplicado (contra um discurso considerado nocivo) é mais discurso, não o silêncio imposto”. Ou seja, antes ter que contextualizar uma obra para seus leitores – vamos lembrar dos casos de Monteiro Lobato, Roald Dahl, Agatha Christie, leituras imprescindíveis para formação leitora de todos nós! – do que privá-los dela. Como afirma Luciana Temer, presidente do Instituto Liberta em um artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, os alunos das escolas públicas e privadas devem ler “O avesso da pele”: “ …há uma hipocrisia social que impede a discussão direta e verdadeira (dos temas abordados no livro) com os adolescentes. O argumento que foi utilizado para barrar a leitura da obra, de que há cenas de sexo ‘muito fortes’ para adolescentes de 15 anos está totalmente desconectado da realidade…”.
No título de seu livro “Somos mesmo todos censores?”, o professor emérito do Departamento de Inglês da Universidade de Winnipeg (Canadá), Perry Nodelman, faz a mesma pergunta que Dias Gomes, lá nos idos dos anos 1960. E nas páginas finais, nos brinda com uma reflexão fundamental para essa questão: “Talvez fosse melhor lembrarmos que a necessidade de selecionar livros não nos isenta de nossas obrigações como adultos de ajudar as crianças a desenvolver o conhecimento de como interagir com e pensar produtivamente sobre o mundo em todos os seus aspectos – inclusive aqueles que preferiríamos que elas não conhecessem. (…) talvez fosse melhor ter menos certeza…”. Antes de censurar, seja em nome do que for, é preciso assumir, como diz a sempre necessária Clarice Lispector, que sabemos de muito pouco: “Mas tenho a meu favor tudo o que não sei e – por ser um campo virgem – está livre de preconceitos. Tudo o que não sei é minha parte melhor: é a minha largueza. É com ela que eu compreenderia tudo. Tudo o que não sei é que constitui a minha verdade.”
Januária Cristina Alvesé mestre em comunicação social pela ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, coautora do livro “Como não ser enganado pelas fake news” (editora Moderna) e autora de “#XôFakeNews - Uma história de verdades e mentiras”. É membro da Associação Brasileira de pesquisadores e Profissionais em Educomunicação - ABPEducom e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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