Coluna
Luiz Augusto Campos
As lições de França e Reino Unido para o futuro da esquerda
Temas
Compartilhe
O ano começou com ameaças contundentes de uma onda de extrema direita na Europa. Ao poder crescente de Giorgia Meloni na Itália, somou-se a vitória no Parlamento Europeu e as dissoluções dos parlamentos no Reino Unido e na França, ambas por pressões à direita do espectro político. Mas ao contrário de todas as expectativas iniciais, agremiações de esquerda conseguiram nesses dois países a proeza de surfar o temido tsunami.
Cada qual ao seu modo, as vitórias eleitorais da esquerda no Reino Unido e na França foram estrondosas, mas antecipam mais desafios do que motivos para celebrar. No Reino Unido, o sucesso dos trabalhistas já estava previsto há alguns meses, mas foi maior do que o esperado. O agora ex-primeiro-ministro conservador, Rishi Sunak, temia o fortalecimento da ala mais à direita do seu partido e, por isso, convocou novas eleições para que pudesse ter ao menos uma remota chance de continuar no poder. Na França, a vitória inédita da esquerda reflete mais os acordos locais com o centro macronista do que uma guinada ideológica do eleitorado. Ainda assim, os discursos das coalizões de esquerda francesa e britânica estiveram longe de ser moderados ou conciliadores.
Essas vitórias contêm algumas lições para a esquerda de todo o mundo. Primeiro, elas mostram quão equivocados são os diagnósticos que enxergam na polarização a causa fundamental das ameaças atuais à democracia. A posologia lógica deduzida desse diagnóstico recomenda que a esquerda modere ainda mais seu discurso em direção ao centro para isolar a extrema direita. Embora as vitórias recentes da esquerda tenham envolvido alguma aliança, os discursos de Jean-Luc Mélenchon na França e Keir Starmer no Reino Unido apelaram para a urgência de mudanças estruturais progressistas, estando bem longe do centrismo. Ambos entenderam que a maior ameaça à democracia reside na incapacidade de a esquerda democrática apresentar ao eleitorado projetos de futuro à altura dos problemas sociais atuais.
Nos últimos anos, progressistas e moderados de diversas cores políticas se chocam com os planos da extrema direita, mas não podem acusá-los de ambivalência ou falta de clareza. Apesar de todo o populismo irresponsável, a extrema direita não é nada diversionista. Seus projetos de governo são tão claros quanto seus valores ideológicos. E ela vem dando provas cabais de que tem apoio e traquejo políticos para torná-los realidade.
Infelizmente, o mesmo não pode ser dito sobre as esquerdas democráticas ao redor do mundo. Desde a derrocada fiscal do Estado de bem-estar europeu nos anos 1980, elas optaram por compósitos discursivos pouco coerentes e ousados. As esquerdas entraram numa fase de profunda ambivalência discursiva. À mudança radical via investimento estatal, deu lugar o compromisso com os princípios da austeridade fiscal parcamente modulado pela defesa de políticas pontuais de assistência social. Em toda a Europa, esse social-liberalismo até conseguiu algumas vitórias nas últimas décadas, mas vem sendo espremido pelo discurso antissistema da extrema direita e pelo populismo vazio do centrismo à la Macron.
Luiz Augusto Camposé professor de sociologia e ciência política no IESP-UERJ (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), onde coordena o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa, o GEMAA. É autor e coautor de vários artigos e livros sobre a relação entre democracia e as desigualdades raciais e de gênero, dentre os quais “Raça e eleições no Brasil” e “Ação afirmativa: conceito, debates e história”.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
Navegue por temas