Coluna

João Paulo Charleaux

A política externa de Trump não é nada mal para Lula e Amorim

12 de novembro de 2024

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Presidente eleito dos EUA e líder brasileiro partem de pontos muito diferentes, mas levam a Ucrânia ao mesmo lugar

A eleição de Donald Trump é um desastre para os interesses brasileiros em muitas áreas, mas na política externa pode não ser tanto assim. No que diz respeito sobretudo ao papel dos EUA nos conflitos atuais, é possível que a resultante da política adotada por Trump seja convergente com a do Brasil, ainda que com sinais ideológicos trocados e por meios muito diferentes.

O principal exemplo é a guerra na Ucrânia. Trump não considera que esse conflito seja um problema americano. Ele não quer seguir financiando a defesa ucraniana contra os russos, nem deseja que os EUA sigam sendo fiadores da segurança europeia diante das ameaças de Moscou. Para o presidente eleito americano, há um oceano a separar os EUA dos problemas da Europa com a Rússia, e nem passa pela cabeça dele honrar a aliança transatlântica do pós-Guerra por um laço meramente histórico ou moral com os antigos aliados.

Trump quer que Putin anexe logo uma parte da Ucrânia e pare de fustigar as fronteiras europeias, aliviando com isso a pressão sobre a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) que tem em seu estatuto um incômodo artigo que trata da autodefesa mútua entre seus membros. Entrar em guerra com a Rússia porque Putin bombardeou a Lituânia não parece coincidir com os planos de um presidente eleito que, há nove meses, disse a eleitores da pequena Conway, na Carolina do Sul, que os russos poderiam “fazer o que diabo quisessem” contra os aliados europeus, sem que os EUA tivessem que se preocupar com isso.

Encerrar a guerra na Ucrânia preservando o status quo das anexações russas é também a posição brasileira. Jair Bolsonaro fez uma visita oficial a Putin, em Moscou, em 16 de fevereiro de 2022, dois dias antes, portanto, de as tropas russas cruzarem a fronteira ucraniana. Depois de ouvir tudo o que Putin tinha a dizer, Bolsonaro declarou: “Somos solidários à Rússia.”

Lula é mais sutil, mas nem tanto. Em 1º de novembro, o presidente brasileiro questionou por que “não se faz um referendo para saber com quem o povo [ucraniano] quer ficar?”, se com a Ucrânia ou a Rússia. A ideia chegou um pouco atrasada, pois o próprio Putin já tinha realizado esse referendo nas regiões ocupadas de Donetsk e Lugansk dez anos antes. O resultado, a favor da Rússia, não foi reconhecido por nenhum país sério à época. Não seria tampouco agora. 

João Paulo Charleauxé jornalista, escritor e analista político. Foi repórter especial, editor e correspondente do Nexo em Paris. Trabalhou por sete anos no CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha) em cinco diferentes países, cobriu a guerra nas fronteiras de Israel com Gaza e o Líbano, a crise política e humanitária no Haiti e o tsunami no Chile. Pela Cia das Letras, publicou o livro “Ser Estrangeiro – Migração, Asilo e Refúgio ao Longo da História” e prepara um novo livro, sobre “As Regras da Guerra”, mesmo tema de uma série publicada na Folha em 2023-2024. Ao longo dos últimos 25 anos, escreveu no Estadão, no Globo, na Piauí, no UOL e na Carta Capital. Participou como comentarista na CNN e na CBN. Trabalha principalmente com temas ligados ao direito internacional aplicável aos conflitos armados.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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