Coluna

João Paulo Charleaux

Quais as queixas de palestinos e israelenses à imprensa

03 de dezembro de 2024

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Escolha de termos e enfoques traz para os jornais brasileiros uma parte difícil das disputas em curso nos campos de batalha da Faixa de Gaza

Na segunda-feira, com os palestinos. Na terça, com os israelenses. Em 24h, estive em dois jantares com membros de organizações que fazem lobby por lados opostos. Ambos criticam a forma como a imprensa cobre o conflito. Mas será que existe um consenso possível? Eu acho que não.    

“No princípio era o verbo”, nos conta João (1:1–4), e a paz reinava no mundo, só enquanto Deus falava sozinho. Humanos, brigamos com as letrinhas e deitamos em divãs para que alguém nos ajude a entender o que não somos capazes de pôr em palavras nem quando se trata de narrar nossas próprias vidas – o que dirá reportar sobre a vida dos outros, em guerra. Eis a função do jornalismo. 

Fui informado pelos representantes do PIPD (Instituto Palestino pela Diplomacia Pública) da contrariedade com o uso da expressão “guerra”. Em conversa com jornalistas, em São Paulo, no dia 25 de novembro, os membros da organização palestina disseram a mim e a alguns colegas presentes no jantar que não há uma “guerra” em Gaza, mas um “genocídio” ou um “massacre”. 

Para o PIPD, o uso do termo “guerra” propõe uma falsa simetria entre o lado que massacra e o outro, massacrado. Tudo certo se pudermos publicar uma colocação como essa entre aspas e creditar a uma fonte, mas, objetivamente, o que existe em Gaza é um conflito armado internacional – chamado vulgarmente de guerra –, no qual, de acordo com processo movido pela África do Sul na Corte Internacional de Justiça, ocorre o crime de genocídio, que Israel nega praticar.

O equivalente do lado israelense talvez seja o “terrorismo”. Em Israel, muitos consideram que a imprensa não é honesta se não se refere ao Hamas como “grupo terrorista”. Objetivamente, o Hamas é um grupo político que exerce papel de governo em Gaza e tem um braço armado organizado que comete atos de terror. “Terrorismo” é um método ao qual grupos e até mesmo agentes estatais recorrem para fazer avançar de maneira ilegal suas agendas políticas e militares.

João Paulo Charleauxé jornalista, escritor e analista político. Foi repórter especial, editor e correspondente do Nexo em Paris. Trabalhou por sete anos no CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha) em cinco diferentes países, cobriu a guerra nas fronteiras de Israel com Gaza e o Líbano, a crise política e humanitária no Haiti e o tsunami no Chile. Pela Cia das Letras, publicou o livro “Ser Estrangeiro – Migração, Asilo e Refúgio ao Longo da História” e prepara um novo livro, sobre “As Regras da Guerra”, mesmo tema de uma série publicada na Folha em 2023-2024. Ao longo dos últimos 25 anos, escreveu no Estadão, no Globo, na Piauí, no UOL e na Carta Capital. Participou como comentarista na CNN e na CBN. Trabalha principalmente com temas ligados ao direito internacional aplicável aos conflitos armados.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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