Coluna
João Paulo Charleaux
A tentação de crer na versão moderada do Isis na Síria
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O presidente da Síria, Bashar al-Assad, foi um ditador terrível: torturava dissidentes e usava armas químicas contra a própria população. Sua queda abre uma oportunidade de avanço em relação aos direitos humanos e talvez até à democracia, mas é prematuro e imprudente considerar que os grupos que assumiram o poder serão capazes de honrar essa expectativa em relação ao futuro.
O problema não é que o autoproclamado líder da revolução, Ahmed al-Sharaa – ou Abu Mohammad al-Jolani, como também se apresenta – seja combatente, faça parte de grupos armados e tenha matado pessoas até tomar o poder. Isso é comum nos processos revolucionários que envolvem a contestação de elites políticas cujos períodos de governo são tão longos que às vezes quase se emendam aos períodos coloniais anteriores. A Síria só se tornou independente da França em 1945 e, de seus 79 anos de vida independente, 53 foram sob as ditaduras de Assad e do pai dele, Hafez.
É ingenuidade, portanto, achar que esse quadro podia ser mudado pacificamente, nas urnas, sem choque. A história síria não é, nesse sentido, muito diferente da história dos demais países que passaram por descolonizações tardias. Basta ver os casos de Moçambique e Angola, em 1974, para ficar em dois exemplos de alguma forma familiares para os brasileiros, pelo idioma – ambos países tiveram transições marcadas pelo protagonismo de guerrilheiros vinculados com seus respectivos movimentos de liberação nacional, dos quais derivaram os primeiros partidos políticos locais.
Não é esse, portanto, o problema de al-Jolani e dos demais movimentos internos sírios. Nem é tampouco o fato de ele ser muçulmano, pois a região tem exemplos de países estáveis, nos quais também não há separação entre religião e Estado, mas, nem por isso, são países inviáveis. Pode não ser esse o modelo preferido dos observadores ocidentais, que durante anos preferiram ditadores ligados ao baathismo, como Saddam Hussein no Iraque, para evitar a ascensão de clérigos locais, como os aiatolás no Irã, mas se deram mal do mesmo jeito em seu projeto de exportar a democracia à força ou por meio de fantoches.
O problema de Al-Jolani é que ele tem duas caras, e não dá para saber ainda qual delas vai prevalecer, caso ele se firme no poder e o país não se espatife em vários territórios sectários, controlados por grupos armados rivais. A cara do passado é ligada ao Estados Islâmico e à Al-Qaeda, grupos dos quais ele fez parte desde que largou um curso de medicina na Síria para defender Saddam no Iraque contra a invasão americana, em 2003. É uma cara associada ao jihadismo internacional que, mais tarde, já como Estado Islâmico, exportou para a Europa o terrorismo como método de combate com o qual esses grupos radicais visavam punir infiéis e apóstatas para criar um califado regido pela sharia (a interpretação radical da lei islâmica), em toda a zona do chamado Levante, que inclui Síria, Jordânia, Líbano, Palestina, Turquia, Iraque, Arábia Saudita e Israel.
João Paulo Charleauxé jornalista, escritor e analista político. Foi repórter especial, editor e correspondente do Nexo em Paris. Trabalhou por sete anos no CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha) em cinco diferentes países, cobriu a guerra nas fronteiras de Israel com Gaza e o Líbano, a crise política e humanitária no Haiti e o tsunami no Chile. Pela Cia das Letras, publicou o livro “Ser Estrangeiro – Migração, Asilo e Refúgio ao Longo da História” e prepara um novo livro, sobre “As Regras da Guerra”, mesmo tema de uma série publicada na Folha em 2023-2024. Ao longo dos últimos 25 anos, escreveu no Estadão, no Globo, na Piauí, no UOL e na Carta Capital. Participou como comentarista na CNN e na CBN. Trabalha principalmente com temas ligados ao direito internacional aplicável aos conflitos armados.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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