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A extrema direita pode participar livremente da vida democrática ou essa é uma corrente política que já provou ser essencialmente incompatível com os valores democráticos e que, portanto, deve ser contida, sob risco de, chegando ao poder, levar a própria democracia ao colapso?
Em pelo menos três países – França, Brasil e Romênia –, decisões judiciais recentes impediram que líderes de extrema direita participassem de disputas eleitorais. As sentenças contra eles não foram proferidas com a intenção mais ampla de alijá-los do sistema político nacional. Mas, no fim, esse foi o resultado, porque os três condenados estavam em primeiro ou segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto em seus respectivos países, mas já não poderão seguir participando das disputas.
O caso mais recente é o de Marine Le Pen. A líder da extrema direita francesa foi condenada na segunda-feira (31) a cinco anos de inelegibilidade, além de uma pena de quatro anos de prisão e multa, por ter usado verba de gabinete para pagar contas do partido. A inelegibilidade tem aplicação imediata, enquanto a privação de liberdade ainda está sujeita a recursos. Le Pen vinha liderando as pesquisas de intenção de voto na França e provavelmente se tornaria presidente na próxima eleição nacional, marcada para 2027, mas, com essa condenação, terá de ceder a vez a um substituto, que talvez seja o jovem Jordan Bardella.
No Brasil, outro expoente da extrema direita, o ex-presidente Jair Bolsonaro, também está inelegível. Ele não poderá disputar nenhuma eleição no país até 2030. Além disso, corre o risco de, assim como Le Pen, ser condenado à prisão, o que, aos 70 anos de idade, pode equivaler a seu funeral eleitoral definitivo.
O terceiro caso é o de Calin Georgescu. Ele começou a campanha para a presidência da Romênia com 5% das intenções de voto, mas terminou o primeiro turno, em novembro de 2024, como o mais votado, com 22,9%. Só que a Justiça eleitoral anulou a eleição no mês seguinte, alegando que a explosão de votos em Georgescu teve como motor a interferência de agentes russos.
João Paulo Charleauxé jornalista, escritor e analista político. Foi repórter especial, editor e correspondente do Nexo em Paris. Trabalhou por sete anos no CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha) em cinco diferentes países, cobriu a guerra nas fronteiras de Israel com Gaza e o Líbano, a crise política e humanitária no Haiti e o tsunami no Chile. Pela Cia das Letras, publicou o livro “Ser Estrangeiro – Migração, Asilo e Refúgio ao Longo da História” e prepara um novo livro, sobre “As Regras da Guerra”, mesmo tema de uma série publicada na Folha em 2023-2024. Ao longo dos últimos 25 anos, escreveu no Estadão, no Globo, na Piauí, no UOL e na Carta Capital. Participou como comentarista na CNN e na CBN. Trabalha principalmente com temas ligados ao direito internacional aplicável aos conflitos armados.
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