O ano de 2016 indicou o fim da chamada “onda rosa” na América Latina (governos de esquerda e centro-esquerda que se estabeleceram no começo dos anos 2000). Um inventário de choques políticos marca esse esgotamento: a crise política e econômica na Venezuela, os problemas econômicos e o escândalo no governo chileno (alimentando a vitória da coalizão de direita de Sebastián Piñera em 2017), a derrocada do kirchnerismo na Argentina, as crises econômica e institucional no Brasil, a derrota de Evo Morales no referendo boliviano sobre a possibilidade do quarto mandato e, no Peru, a coalizão dirigida pela centro-direita, que acabou beneficiada por grupos de centro-esquerda, levando ao poder Pedro Pablo Kuczynski.
Três problemas devem ser considerados nesse fiasco:
(1) os escândalos de corrupção são os grandes desafios éticos ainda sem resolução na América Latina;
(2) as crises institucionais foram desencadeadas por problemas estruturais de governabilidade;
(3) o fim do boom das commodities, entre 2011 e 2015, expôs a fragilidade e a reprimarização neoextrativista, para usar um termo da socióloga argentina Maristella Svampa, decorrentes da integração periférica da América Latina no sistema-mundo capitalista.
O novo cenário de instabilidade financeira ameaça os países periféricos. Há, por exemplo, o risco de um choque financeiro na Argentina, no contexto de pressão inflacionária, desvalorização do peso, dependência do Fundo Monetário Internacional e duro ajuste fiscal, sob um ciclo de protestos em Buenos Aires e da crescente impopularidade de Mauricio Macri. O horizonte de austeridade indicado por Lenin Moreno no Equador, a fim de “restabelecer a confiança institucional” do mercado em uma economia dolarizada desde o começo dos anos 2000, expõe o espectro de uma iminente crise monetária que ainda ronda a região.
Se o populismo autoritário criou raízes na Europa e nos Estados Unidos, a desconfiança generalizada nos mecanismos de representação política e o apelo ideológico a um mundo fundamentado em certezas morais finalmente desembarcaram nas eleições brasileiras
O conjunto de promessas de desenvolvimento social desmancha diante de nossos olhos. Em 2018, mesmo a eleição de López Obrador no México, o potencial quarto mandato de Morales na Bolívia (apesar do recado negativo do referendo de 2016) e a presença significativa do Partido dos Trabalhadores nas eleições brasileiras estão longe de sinalizar qualquer tendência consistente de um ressurgimento de governos de esquerda. Em vez disso, especialmente nos dois últimos casos, como Jeffrey R. Webber e Hervé do Alto argumentam, o cenário parece mais uma resistência. Isso ocorre não apenas pela mudança na correlação de forças políticas, mas porque a atmosfera social abruptamente embaralhou nossos horizontes. Assistimos a uma região revolvida pela dinâmica neoliberal centrada na emergência da extrema direita e de tensões autoritárias produzidas no interior das próprias democracias liberais.
Quando uma fração da população se atribui o conteúdo de “o povo” e crê no reforço da autoridade estatal para a imposição de suas prerrogativas culturais e políticas, emerge o populismo autoritário. Esse movimento pode se apoiar no carisma do líder, realçado pela condenação da decadência social e pela corrupção das elites e de seus grupos associados. Mas, para além disso, “o povo” tenta não apenas apagar as diferenças internas da sociedade, mas busca um passado mitologizado de força e de uma moralidade tradicional perdida. Se o populismo autoritário criou raízes na Europa e nos Estados Unidos, a desconfiança generalizada nos mecanismos de representação política e o apelo ideológico a um mundo fundamentado em certezas morais finalmente desembarcaram nas eleições brasileiras.
A polarização tóxica e a tradução da crise institucional em uma gramática de violência social difundem instabilidade, varrendo os últimos traços da “onda rosa”. O colapso econômico do chavismo na Venezuela afoga o país na crise social mais dramática da história recente da América Latina, com centenas de mortos em protestos de rua em 2017 e um êxodo capaz de lembrar que a multidão de despossuídos e os conflitos socioculturais de fronteira não estão apenas no distante pesadelo do Mediterrâneo.
O choque dos petrodólares venezuelanos e a inabilidade dos governos na administração dos protestos sociais tem lançado a região em outras turbulências. A repressão de Daniel Ortega e os conflitos de rua nas cidades da Nicarágua, então, não são apenas parte de uma crise de legitimação na esteira das eleições de 2016 e da tentativa de reforma da previdência social: trata-se do sintoma de falência do plan de desarrollo humano, que parece afundar ao lado de todas as aspirações sociais que marcaram as vitórias da esquerda sandinista em 2006 e 2011.
A frágil tendência progressista da “onda rosa” fica como reminiscência dos vícios e virtudes de uma agenda reformista das esquerdas latino-americanas. Por isso, a grande questão não é o que permanece, mas a realidade que está se materializando das contradições do processo social. Por quase 15 anos, fortes políticas de redução da pobreza e da desigualdade foram combinadas com esforços de aprofundamento da democracia e expansão da cidadania. Por outro lado, a integração periférica da região no capitalismo global, a crescente distância dos governos em relação a suas bases sociais e as relações promíscuas entre os setores públicos e privados colocaram limites estruturais aos esforços de desenvolvimento social. A erosão da confiança institucional e a crise de representação, ao lado da deterioração da situação socioeconômica, são os resultados mais tangíveis das atuais mazelas. Em um artigo de 2016, Jorge Castañeda tentou prever a morte da esquerda latino-americana. Nós não ousamos ir tão longe: antes do fim, a situação a coloca no meio do labirinto.
Felipe Ziotti Narita é pesquisador de pós-doutorado da USP e professor da Unesp. Editor do grupo polonês Theoretical Practice (Univ. Adam Mickiewicz), conferencista convidado na inauguração do Forschungskreis Gregor Girard na Universidade de Friburgo (Suíça) e um dos coordenadores do seminário “Cartografias do contemporâneo” no Instituto de Estudos Avançados da USP.
Jeremiah Morelock é sociólogo do Boston College (EUA) e diretor da Critical Theory Research Network. Editor do volume “Critical theory and authoritarian populism” (University of Westminster Press, 2018).