Pós-graduandos: a resposta para um Brasil do século 21

Ensaio

Pós-graduandos: a resposta para um Brasil do século 21
Foto: Nina Zeynep Güler/Pexels

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Vinícius Soares


22 de maio de 2023

Um especialista que se dedica por anos, às vezes por décadas, a conhecer e fornecer hipóteses e respostas para problemas que afetam a sociedade deve ser reconhecido e valorizado por seu trabalho

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Os avanços cada vez mais rápidos da ciência e tecnologia impactam todos os setores e produzem novas formas de trabalho, relacionamento e de organização da sociedade.

Os países mais avançados do mundo travam um novo tipo de disputa geopolítica, baseada na inovação permanente em busca das fronteiras do conhecimento. Nesse contexto, termos como inteligência artificial, nanotecnologia e indústria 4.0 passam a ser cada vez mais frequentes no cotidiano.

A necessidade das nações de maximizar a produtividade e competitividade de suas indústrias na economia global exige altos investimentos em ciência e tecnologia. Esse desafio de financiamento, ontem, hoje e sempre, tem no Estado nacional seu grande artífice. E também pudera: trata-se de questão central para o desenvolvimento e a soberania de qualquer país.

Na realidade brasileira, infelizmente, o desafio é recuperar o tempo perdido. Nosso relógio andou para trás nos últimos anos. Nossos investimentos em ciências e tecnologia estão na faixa de 1,2% do PIB, um escárnio se comparado a países como Coreia do Sul, Israel e outros.

Um especialista que se dedica por anos a conhecer e fornecer hipóteses e respostas para questões que afetam a sociedade deve ser reconhecido

Exemplos não faltam. Já tivemos uma forte indústria farmacêutica, já tivemos uma pujante indústria têxtil, mas isso foi dilapidado por políticas antinacionais. Como resultado, na pandemia da covid, ficamos totalmente dependentes de empresas multinacionais para obter vacinas, fármacos e até mesmo equipamentos básicos, como máscaras cirúrgicas e luvas. Um problema de soberania.

Esse panorama precisa mudar com urgência. É preciso que a ciência e tecnologia sejam alçadas à prioridade e vistas como políticas de Estado. É preciso ter planejamento, metas objetivas, mecanismos de indução e controle, investimento decidido na formação de mão de obra especializada, a partir de incentivos e perspectivas aos jovens pesquisadores e cientistas.

E aqui chegamos no cerne do debate. Mais de 90% da pesquisa científica brasileira ocorre nas universidades, realizada principalmente por pós-graduandos e pós-graduandas, parte deles bolsistas do sistema público de educação e ciência e tecnologia, através das instituições federais de ensino, das agências Capes e CNPq ou das FAPs estaduais.

Esses bolsistas são profissionais híbridos, estudantes e trabalhadores da ciência, que têm especificidades que necessitam ser supridas. Uma delas, o valor das bolsas, começou a ser recomposto em fevereiro de 2023.

Mas há outros temas que precisam vir à tona. Talvez o mais estratégico, porque determina os demais, seja o reconhecimento profissional do pesquisador.

Um especialista que se dedica por anos, às vezes por décadas, a conhecer e fornecer hipóteses e respostas para problemas que afetam a sociedade deve ser reconhecido e valorizado por seu trabalho. É a partir dessa produção que são descobertas curas para moléstias, meios de cultivo e aproveitamento de solos, técnicas que revolucionam a produtividade ou que se conhece o passado para refletir sobre o futuro. É o ofício de quem produz ciência.

O pesquisador, entendido como profissional, precisa ter previsibilidade para seu futuro. É injusta a condição atual, em que é exigido vínculo exclusivo para um bolsista, sem que haja correspondência em mecanismos permanentes de reajuste de bolsas, direitos trabalhistas e previdenciários.

Afinal, qualquer categoria profissional tem piso salarial, data-base, proteção em caso de doença e amparo quando da aposentadoria. Não é demais pedir o que a maioria já tem.

A carreira científica, que deveria ser vista como fundamental ao Estado, precisa ser atrativa para que nossos jovens talentos não sejam obrigados a deixar o país por falta de bolsas ou exaurimento de perspectivas profissionais.

O Brasil, por suas dimensões e posição no mundo, tem desafios e potenciais gigantescos a serem enfrentados e explorados. Para realizar seu destino de grande nação e contribuir com a edificação de um mundo multipolar, que defenda a democracia, a soberania e a paz entre os povos e busque o desenvolvimento sustentável, temos que elevar a ciência e os pesquisadores ao centro do projeto nacional de desenvolvimento. E esse centro, passa necessariamente sobre o papel estratégico sobre o dos mais de 1 milhão e 300 mil pós-graduandos e sua atuação cotidiana para a construção do Brasil do século 21.

Vinícius Soares é mestre em biologia celular e molecular aplicada pela UPE (Universidade de Pernambuco), doutorando em Saúde Coletiva pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e presidente da Associação Nacional de Pós-graduandos.

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