Debate
Carlos Fausto
A covid-19 começou como uma doença de ricos, mas se espalhou seguindo a topologia da desigualdade brasileira. E, nesse quesito, os indígenas se juntam aos mais pobres, entre os quais não apenas se observa um número maior de casos, como também uma porcentagem maior de óbitos
Meu primo Kanari Kuikuro me telefonou várias vezes no sábado pela manhã. Eu estava na feira — sábado é o dia em que saio do confinamento para abastecer a casa. Ao chegar, vi na tela do celular as várias ligações perdidas. Só podiam ser más notícias. E eram. A covid-19 havia, enfim, chegado ao Alto Xingu.
Conversamos por meia hora, sem mais falar sobre a epidemia de sarampo do tempo de seu avô . Afinal, o nosso tempo é agora; a epidemia é desta geração. Entrei no grupo de WhatsApp das lideranças kuikuro para confirmar a informação. A voz calma de Mutuá, hoje vereador em Gaúcha do Norte, pedia a todos que aguardassem a confirmação oficial. Ela veio à tarde, por meio de uma nota técnica do DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena) do Xingu. O cacique da aldeia Sapezal e seu filho tinham sido retirados da área apresentando quadro de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave). Testaram positivo para covid-19 e foram transferidos para Cuiabá. Há notícias, ainda não confirmadas, de outros casos na fronteira leste do Parque Indígena do Xingu, onde se localiza a aldeia atingida.
O território xinguano abriga, hoje, cerca de 7.000 pessoas de 16 povos diferentes, distribuídos ao longo de 2,6 milhões de hectares, formando um sistema multiétnico e plurilinguístico vibrante, com uma vida social e ritual muito intensa. Esqueça a imagem da Amazônia como um deserto verde com povos espalhados e isolados! Pense, ao contrário, em sistemas regionais, ligados em rede, com dezenas de aldeias interligadas, por onde circulam informações, pessoas, objetos e, infelizmente, vírus também.
Essas redes foram rapidamente atingidas pelas epidemias coloniais — os vírus eram levados de pessoa a pessoa por centenas, milhares de quilômetros sertão adentro. Quando todos estavam morrendo, as pessoas ainda saudáveis procuravam refúgio em outras aldeias, utilizando-se desse sistema reticular. E assim levavam a doença para um número cada vez maior de pessoas. É isso, justamente, o que tememos que venha a acontecer hoje no Xingu. Por isso, é preciso agir com rapidez e diligência.
As epidemias do passado contêm ensinamentos para o presente. Volto à devastadora epidemia de varíola que varreu o Maranhão e o Pará em 1695, da qual falei em texto anterior . O padre Bettendorff conta que um navio negreiro chegou a São Luís trazendo “uma pessoa malsã de bexigas”. O navio foi proibido de ancorar perto da cidade. Porém, a cautela foi logo abandonada em função da avidez dos moradores por mão de obra escrava e dos interesses do capitão da nau que ameaçava processar a cidade por perdas e danos. O resultado? Mortes sobre mortes, durante meses, com as bexigas se espalhando do Maranhão ao Pará. Como concluiu argutamente o jesuíta, aquilo “que parecia ser para seu remédio [dos moradores] foi para sua grande ruína”. Mas, claro, a conta maior foi paga pelos povos indígenas: “Caíram e foram morrendo tantos, que às vezes não havia quem acudisse aos vivos e enterrasse os mortos”.
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