Entrevista

‘Brasil vive transição religiosa sem precedentes no mundo’

Malu Delgado

18 de janeiro de 2023(atualizado 28/12/2023 às 22h47)

Leia entrevista do cientista político Victor Araújo para o podcast Politiquês na minissérie ‘Uma crise chamada Brasil’, em que ele fala sobre a identificação política dos fiéis e as diferenças entre evangélicos

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FOTO: PILAR OLIVARES/REUTERS – 25.OUT.2022

Pastor Aroldo em igreja pentecostal no Rio de Janeiro

Pastor Aroldo em igreja pentecostal no Rio de Janeiro


Victor Araújo, cientista político e pesquisador da Universidade de Zurique, foi entrevistado pelo podcast Politiquês em julho de 2022 para a minissérie “Uma crise chamada Brasil”, que traça um panorama dos anos que marcaram a quebra do pacto social da Nova República. Ele aparece no oitavo episódio, “Fé no voto” , sobre a crescente influência política dos evangélicos e seus líderes.

O Nexo traz agora a transcrição da conversa que teve com Araújo. Ao longo de dezembro de 2022 e janeiro de 2023, as entrevistas realizadas para a minissérie serão publicadas por escrito, a fim de que possam ser fonte de consulta dos leitores do jornal.

Quais são as consequências da tendência de o Brasil ter uma maioria evangélica a partir de 2030?

VICTOR ARAÚJO Eu acho que o que torna esse tema, essa discussão extremamente saliente é o fato de que poucos países no mundo experimentaram uma transição religiosa tão rápida como a nossa. Em cerca de seis décadas, o Brasil transicionou de um país que, em 1970, tinha cerca de 90% de católicos para um país que daqui a pouco, pelo que as projeções apontam, vai ter uma maioria evangélica.

O Brasil está experimentando uma transição religiosa muito rápida, sem precedentes na história da humanidade. Não é exagero dizer isso. A Europa demorou séculos para transicionar do catolicismo para o protestantismo. O Brasil está experimentando essa transição de um país majoritariamente católico para um país majoritariamente evangélico em 60 anos. É algo muito rápido e que tem diversas consequências, tanto sociais quanto políticas. O meu interesse é entender as consequências políticas desse fenômeno. Quando você tem essa rotação, essa transição religiosa, você faz com que um conjunto expressivo da população passe a ter um peso muito importante no processo eleitoral. Entender como esse conjunto da população se entende, no que esse conjunto da população acredita, as preferências e como eles expressam isso, sobretudo no contexto eleitoral, importa bastante. Essa transição é um fenômeno muito grande tanto social quanto demográfico.

Essa métrica que aponta 2030 como ponto de virada procede?

VICTOR ARAÚJO Pode ser 2030, pode ser 2035, pode ser 2040, mas eu acho que é algo inescapável. A gente vai chegar lá não só porque a velocidade do crescimento do evangelicalismo no Brasil é muito rápida, exponencial, mas também porque o catolicismo está experimentando uma decadência, experimentando um decréscimo muito importante a cada ano. O catolicismo perde cerca de 1% de seus adeptos a cada ano desde 2000 no Brasil. Essa velocidade é o que explica a maioria evangélica por volta de 2035 ou 2040. Isso é um fenômeno importante.

É possível comparar o Brasil com outros casos na América Latina, por exemplo. O caso do Chile é um bom comparativo, porque o catolicismo também vem decaindo, vem experimentando decréscimo anual, mas o que está sendo colocado no lugar não são evangélicos. Então, o catolicismo tá caindo e o que está tomando lugar é o ateísmo e pessoas que não professam nenhuma religião. E no caso do Brasil, se não me falha a memória, só o Brasil e El Salvador na América Latina vêm experimentando decréscimo do catolicismo acompanhado do crescimento evangélico.

A Assembleia Constituinte tinha a participação de 33 evangélicos. Atualmente, a Frente Parlamentar Evangélica tem mais de 200 deputados e nove senadores. O líder da bancada já disse que eles têm a aspiração de chegar a 30% do Congresso Nacional. Considerando o grande poder da bancada, como essas lideranças se organizam no espectro político desde a década de 1980? O que explicaria esse crescimento tão rápido?

VICTOR ARAÚJO São dois fatores muito importantes aqui. Primeiro, a Constituinte é uma espécie de ponto de inflexão, porque ali as lideranças evangélicas, sobretudo as lideranças evangélicas pentecostais, entendem que era necessário ter uma maior representatividade. Elas entendem que era necessário também ocupar as instâncias de poder formal. Quem puxa esse movimento lá na Constituinte são as Assembleias de Deus, eu digo no plural porque são várias denominações dentro da Assembleia. São várias convenções. Mas o que a Assembleia faz naquele momento é entender que precisa orientar os fiéis a votarem em poucos candidatos para que esses candidatos tenham chance e para que sejam viáveis no contexto eleitoral. Então, a Assembleia de Deus foi um case literalmente no Brasil, porque foi a primeira denominação a entender isso, muito antes de Edir Macedo sonhar e lançar candidatos e organizar isso na igreja dele, a Assembleia de Deus faz isso na Constituinte com relativo sucesso e consegue eleger ali 33 parlamentares.

As lideranças nunca mais abriram mão disso e começaram a se movimentar cada vez mais em torno dessa questão político eleitoral. Como a gente tem uma competição religiosa muito forte no Brasil, as outras denominações começaram também a entender que era um movimento importante. Isso gerou um movimento dentro do pentecostalismo para lançar candidatos, mas também no protestantismo tradicional, que entendeu que eles também precisariam lançar candidatos. Isso é interessante, porque nas décadas anteriores as igrejas tinham resistido muito a lançar candidaturas, até aquele ponto havia um entendimento de que a esfera política não era o lugar que a igreja deveria ocupar, mas isso não significa que a igreja não estava fazendo política. A igreja tem, por exemplo, um papel decisivo e importante na ditadura também, a Evangélica, não só a Católica.

Mas o entendimento era que na arena formal eles não deveriam estar. A Constituinte muda isso, é um ponto de inflexão. E aí tem um segundo fator importante: o grupo eleitoral, essa base eleitoral evangélica também cresce muito de lá para cá. Então, a ideia de ter uma frente parlamentar que representa 30% das cadeiras no Legislativo tem a ver com o entendimento de que eles são atualmente 30 e poucos por cento do eleitorado. Se você conversa com as lideranças evangélicas, elas dizem, olha, nós somos sub-representados ainda. Se nós conseguirmos espelhar o tamanho da nossa população, o tamanho da população evangélica no Brasil, nós deveríamos estar muito próximo de 30%, então todo o trabalho que tem sido feito de articulação entre essas lideranças é para conseguir potencializar ou alcançar todo o potencial eleitoral que eles têm.

Como é o perfil das lideranças evangélicas? É possível fazer esse retrato?

VICTOR ARAÚJO Sim, é possível fazer esse recorte com algum nível de imprecisão, como sempre, mas é possível mapear isso, porque as igrejas colocam candidaturas oficiais e tem alguns partidos também que são mais ligados a algumas igrejas. Então, até pouco tempo, por exemplo, as igrejas pulverizavam candidatos em diferentes partidos e esse é um processo interessante que vem acontecendo. Se você olhar na Constituinte, tinha deputados evangélicos da esquerda e da direita, era bem distribuído isso, e hoje tem uma concentração muito forte do centro para a direita. É muito difícil hoje encontrar candidatos evangélicos em partidos de esquerda. E esse é um processo recente que vem acontecendo de 2010 para cá.

Mas o perfil geral, o perfil majoritário são candidatos de igrejas pentecostais e neopentecostais. Então, é aquela força motriz desde lá de trás, da Assembleia de Deus, que continua muito pujante e muito forte do ponto de vista eleitoral, acompanhada do crescimento do neopentecostalismo. Só para identificar isso: igrejas como a Igreja Universal do Reino de Deus, Mundial, lideranças como Edir Macedo, RR Soares e outros, eles entendem também que precisam disputar esse espaço e começam a investir muito do ponto de vista logístico, eleitoral, formando lideranças para convencer pessoas, que a gente chama de brokers na ciência política. Cabos eleitorais fazem esse processo de forma muito forte, consistente e organizada no interior dessas igrejas. Mas isso não significa que não tenham pessoas de outras denominações. Tem pastores de denominações batista, presbiteriana, o próprio ministro que acabou de sair agora da Educação [Milton Ribeiro] é um pastor presbiteriano. Existe diversidade, tem heterogeneidade ali, mas dentro do Congresso Nacional eles são majoritariamente pentecostais e neopentecostais.

Logo no início do seu livro, você apresenta os ‘votos evangélicos’ no plural. Quais aspectos estão por trás dessa heterogeneidade? Que eleitores evangélicos temos no Brasil de 2022?

VICTOR ARAÚJO Esse é um dos principais focos e objetivos da minha pesquisa, que é diferenciar dois grandes grupos. Provavelmente nós poderíamos ainda identificar outros subgrupos, mas acho que tem dois grupos que nos permitem entender um pouco mais a diversidade dentro da categoria evangélicos. Então, tem um grupo que é formado pelas igrejas protestantes históricas, é um protestantismo de origem europeu, que chega no Brasil. Igrejas, por exemplo, como a batista, movimento episcopal, calvinista, presbiteriano, metodista. Esses são exemplos dessas igrejas protestantes históricas. E tem um segundo movimento, que é um movimento que chega ao Brasil um pouquinho depois e começa a partir de Belém do Pará e depois vai descendo para o resto do Brasil, que é o movimento pentecostal, que vem dos Estados Unidos. São missionários americanos que chegam no Brasil. A primeira igreja dessa Assembleia de Deus se estabelece em Belém e as outras denominações vão se formando depois.

Esses dois grupos têm perfis bem diferentes. O pentecostalismo é constituído majoritariamente por pessoas que ganham até dois salários mínimos, mulheres não brancas. Então, é uma religião extremamente feminina. O protestantismo histórico é composto majoritariamente por pessoas de classe média, um pouco mais escolarizadas e que frequentam menos os templos. Então, essa é uma coisa interessante, eles têm uma relação com a igreja, uma relação com as lideranças de suas igrejas que é bastante diferente. Eles tendem a contestar mais essas lideranças, têm um distanciamento maior dessas lideranças. E por quê? Pelo contexto. O pentecostalismo cresce muito no Brasil a partir dos anos 1980, ele é muito fortemente concentrado em áreas vulneráveis e pobres dos grandes centros urbanos brasileiros, então áreas periféricas em geral, regiões metropolitanas como do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Salvador têm uma concentração muito forte do pentecostalismo. E nesses lugares, essas igrejas pentecostais, elas são muito fortes não apenas pelo apelo religioso, litúrgico, mas também por oferecer um aparato de assistência social, muitas igrejas têm creche, muitas dessas igrejas oferecem bancos de emprego, tem todo um sistema ali de proteção social que atrai essas pessoas e faz com que essas pessoas fiquem.

Então, o fato de no momento eleitoral essas lideranças conseguirem exercer bastante influência sobre essas pessoas não vem do nada, tem todo um contexto que está relacionado com os perfis muito diferentes desses eleitores.

Em que momento da política brasileira as campanhas presidenciais passaram a ter foco nos votos evangélicos?

VICTOR ARAÚJO Essa pergunta é muito interessante. Eu vou começar de trás para frente. Vou começar de 2018 para entendermos o que acontecia antes e como 2018 foi diferente nessa questão. Em 2018, 70% dos evangélicos votaram no candidato Jair Bolsonaro. Evangélicos em geral. Esse foi o único ano em que os evangélicos votaram de forma tão homogênea e tão agrupada em um candidato. E por isso que 2018 é muito especial nesse sentido.

O que a gente assistia anteriormente era uma divisão clara, que é o que eu tento mostrar no meu livro, com fartas evidências, que é: tem dois grupos de eleitores, os protestantes históricos, que geralmente votam de forma mais errática, mas que em geral não são antipetistas, não são fortemente contrários à esquerda, e tem um outro lado, que é o eleitorado pentecostal que é fortemente antipetista. Na minha visão, o eleitorado pentecostal não é um eleitorado bolsonarista, é um eleitorado antipetista. Então, se você pegar a concentração de votos do Bolsonaro e comparar com a concentração de votos a nível municipal do Aécio Neves em 2014 e, antes disso, do PSDB, Geraldo Alckmin e José Serra, 2006 e 2010, você vai ver que é o mesmo padrão de concentração, o mesmo padrão espacial de votos.

O que o Bolsonaro fez foi surfar em uma onda antipetista, que já vinha em crescimento na década de 2010, e conseguiu convencer, inclusive, protestantes históricos a votarem contra o PT. Se olharmos as pesquisas hoje em dia, e a projeção que a gente pode fazer para 2022, para outubro agora, é que provavelmente nós vamos voltar ao padrão de 2014, que é um racha grande nesse grupo, nessa categoria evangélicos, os pentecostais fortemente alinhados ao Bolsonaro, como sempre foram desde 2006, fortemente antipetistas, e os protestantes históricos com o voto mais disperso, um voto mais difícil de identificar, mas provavelmente muito menos alinhado a Bolsonaro e muito menos antipetista. Existem poucos grupos no eleitorado brasileiro que são tão antipetistas quanto o grupo pentecostal.

Diante das pesquisas de intenção de voto, o Bolsonaro lidera o voto no segmento dos evangélicos, mas o Lula não está tão atrás. Esse cenário tem a ver com essa sua última resposta?

VICTOR ARAÚJO Exatamente. O Bolsonaro tem a vantagem, que é basicamente a expressão da divisão desse grupo. Então, os evangélicos cresceram muito no Brasil e vêm crescendo, puxados pelos pentecostais, e é por isso que o Bolsonaro terá a maioria evangélica. Como ele terá a maioria pentecostal, ele vai ganhar nesse segmento, eu apostaria nisso com muita tranquilidade. O PT tem um teto nesse segmento e o teto é dado pelos protestantes históricos, eles são minoritários.

São os pentecostais que vão continuar crescendo, não são os protestantes históricos, que vêm experimentando o crescimento negativo, ou seja, não crescem desde o Censo de 2000. É por isso que a gente deveria estar preocupado como esse grupo vota, e não como o protestantismo histórico vota. Mesmo se o Lula ganhar em outubro de 2022, a esquerda continuará tendo um grande problema nas mãos para resolver, porque esse eleitorado, que é fortemente contrário às esquerdas, vai continuar crescendo. É muito provável que a gente esteja passando no Brasil o que os americanos passaram algumas décadas atrás, que é forçar os partidos de esquerda a correr um pouco para o centro para conseguir convencer parte desse eleitorado, muito conservador, a votar na esquerda. Então, aí tem outros desdobramentos e outras simplificações que a gente pode discutir de forma mais detalhada também.

O que explica o fato de que o segmento evangélico tem um forte viés antipetista que não é convencido ou atraído pelo discurso redistributivo para a população de baixa renda?

VICTOR ARAÚJO Eu acho que pra responder essa pergunta a gente precisa dar um passinho atrás e tentar, assim, dar um panorama e uma ideia de como que em geral as pessoas tomam decisão sobre voto. A gente tende a achar que a única, o único cálculo que é feito pelo eleitor é feito levando em consideração o bolso. Então, você pensa na variável econômica, você eleitor, eleitora pensa na projeção da inflação, na sua capacidade de compra, se você está empregado ou não, considera essas variáveis e toma a sua decisão. No contexto atual, o que a gente deveria esperar? A economia está indo mal, a inflação está alta, dois dígitos, a taxa de desemprego não teve muita melhora, a gasolina até há pouco tempo estava super cara. Você vai no mercado, um litro de leite custa quase R$ 10. O que você deveria esperar da posição majoritária de baixa renda no Brasil? Não votar no Jair Bolsonaro.

E quando você pergunta para os eleitores, fazendo pesquisa na espontânea, 35% de eleitores ainda declaram o voto no Bolsonaro. Quem são essas pessoas hoje no Brasil? Super-ricos, militares, Forças Armadas e policiais, em sua maioria, e pentecostais. Então, o ponto que eu tento desenvolver no livro é explicar por que os pentecostais, que são majoritariamente de baixa renda (cerca de 70% desse eleitorado recebe até dois salários mínimos), não vota em partidos com uma agenda claramente redistributiva? E a questão, a explicação que eu tento dar é que, de forma bastante simples, é que esse eleitor não tá nem aí para a economia. Quando ele pensa em quem ele vai votar, em como ele ordena a preferência dele, como ele organiza a cabeça dele para escolher um candidato, a economia não é a variável que importa mais, a economia não é a variável mais saliente.

Esses aspectos morais que são mobilizados nas igrejas são muito mais relevantes e mais importantes no momento de tomar essa decisão. Então, eu brinco um pouco com isso no livro e eu mostro as evidências de que, por exemplo, os eleitores de baixa renda pentecostais, que eram beneficiários, sempre foram beneficiários do Bolsa Família, eles nunca retribuíram o PT nas urnas por isso. Porque um argumento forte na ciência política no Brasil seria esse, olha, o PT é muito forte em áreas mais pobres, sobretudo no Nordeste, porque o bolsa família foi implementado, então esses eleitores passaram a ser fiéis e votar sempre no PT. E o ponto que eu faço, olha, não é bem assim, o que acontece é que no Nordeste há uma concentração enorme de católicos, então é entre os católicos que o programa tem retorno. Mas entre os pobres pentecostais não tem retorno nenhum.

Essa é mais uma evidência de que a variável econômica, ou o que a gente chama de voto econômico, não opera para todos os grupos. Para alguns grupos, essa variável é muito menos relevante e aqui vem o último ponto do meu argumento, que é, para o grupo mais importante do eleitorado, aquele que mais cresce e que será a maioria amanhã, essa variável não importa. A gente deveria estar preocupado em tentar explicar a decisão do voto, tentar explicar como essas pessoas estão votando, pensando em outras variáveis. E na minha interpretação a variável religião, a gente chama isso no inglês de moral conviction, convicção religiosa forte, essa convicção religiosa forte é uma espécie de identidade, ela é tão forte que ela suprime ou torna o efeito de variáveis econômicas muito fraco, muito pequeno no contexto eleitoral.

Alguns desses líderes, como Edir Macedo, já estiveram ao lado do PT. O que explica essa oscilação?

VICTOR ARAÚJO Eu faço essa diferenciação no livro entre pentecostais e neopentecostais, eles são muito distintos. Eu vou dar um exemplo que eu acho que é bastante sintomático: na eleição de 2010, quando a Dilma estava sendo super atacada por causa de um projeto de leiu que dava uma flexibilizada em algumas regras de atendimento para mulheres interessadas em fazer aborto ou relacionadas com aborto, a Dilma foi super atacada, chamada de abortista e etc. Naquele contexto, o Edir Macedo elaborou uma cartilha com embasamento bíblico para falar que Jesus era a favor do aborto, para defender o ponto. Se você colocar no Google aí essa cartilha existe ainda, e era o Edir Macedo fazendo um ponto a favor da Dilma.

Eu costumo dizer que o neopentecostalismo é o centrão das igrejas. É um movimento muito mais aderente à situação e muito menos preocupado com situações morais, muito menos orientados por esse tipo de questão. O pentecostalismo, que bebe na fonte do pentecostalismo americano, aí sim, essas igrejas são muito mais preocupadas com isso, são muito mais voltadas a instruir os seus fiéis a como eles devem votar e usando como argumento essa questão moral. Eu não vejo nenhum conflito na verdade na explicação desse ponto de vista, porque eu acho que a gente tende a colocar na mesma categoria pentecostais e neopentecostais, mas eles não estão na mesma categoria.

Vou dar um segundo exemplo que eu acho que é importante e sintomático também sobre isso, que é: lideranças do pentecostalismo são historicamente rivais no neopentecostalismo. A grande liderança do pentecostalismo hoje, que é o Silas Malafaia, é um rival histórico do Edir Macedo. Eles brigam pelo poder para quem vai controlar a bancada evangélica na Câmara dos Deputados. Então, esses não são grupos homogêneos, dentro desse grupo também tem muita variação.

Você cita que o Malafaia esteve ali em 2006-2010 contra o PT, tendo sido cogitado como vice do Jair Bolsonaro. E cada vez menos líderes evangélicos ligados à esquerda têm sido eleitos. Onde esses líderes estão?

VICTOR ARAÚJO Você tem alguns exemplos, alguns casos raros. Isso é interessante porque tem sempre exceções para desconfirmar qualquer teoria. Você pensa por exemplo no caso a Benedita da Silva, que é da Assembleia, que é negra, é mulher, da Assembleia de Deus e é filiada ao PT há décadas já, acho que quase três décadas, e faz um movimento ali importante para tentar atrair outros cristãos evangélicos que eventualmente possam apoiar o PT e outros candidatos de esquerda, mas é uma exceção, é uma exceção à regra. A regra é: os pentecostais geralmente estão mais ali concentrados em partidos de centro e centro direita, e tem alguns, algumas pouquíssimas lideranças evangélicas de esquerda pulverizadas em alguns partidos, como o PT. O PT tem alguns deles, mais recentemente tem alguns pastores aí crescendo no PSOL também, mas são figuras minoritárias mesmo dentro desses partidos.

O tipo de candidato evangélico que os partidos atraem geralmente não são os candidatos mais moderados, porque partidos têm sentido para vencer a eleição, e eles sabem que candidatos mais à direita e com discurso mais fortemente contrário às esquerdas têm mais chance de vencer eleição, porque o eleitorado pentecostal, que é o eleitorado majoritário, ele tá mais propenso a votar nesse tipo de candidatura. Eu estava conversando outro dia com pessoas que estudam candidaturas no Brasil e tem uma discussão forte sobre isso, como viabilizar candidaturas de candidatos cristãos evangélicos que estão às esquerdas, que são mais moderados? E é difícil, porque os partidos entendem que eles têm menos viabilidade eleitoral. Então, aqueles que acabam sendo eleitos, em geral, são os mais barulhentos e são os mais à direita.

Se você olha no nível de candidaturas, tem um equilíbrio ali, tem gente tentando se colocar, tentando ser eleito. Mas esse eleitorado não está buscando esse perfil de evangélicos. Acho que o exemplo mais sintomático no Brasil é Marina Silva. Marina Silva é uma assembleiana, mas uma pessoa que desde a década de 1980 está falando sobre desenvolvimento sustentável no Brasil, tava falando sobre redistribuição de renda, tá falando seriamente sobre descriminalização do aborto, e nunca foi bem votada entre esses evangélicos. A Marina nunca teve tração eleitoral e não foi para o segundo turno em 2014, porque entre os evangélicos era muito mal votada. Então, acho que ela é o melhor exemplo de como candidatos, dentro do evangelicalismo, que são mais moderados enfrentam muita dificuldade.

Como você avalia a participação das igrejas evangélicas nos acontecimentos políticos mais recentes, como o impeachment de Dilma?

VICTOR ARAÚJO Alguns especialistas na época traçavam alguns paralelos com o período da ditadura, acho que é preciso voltar um pouquinho lá atrás. Na ditadura, é sabido pela história e pela documentação que a gente tem, que as igrejas evangélicas ou se omitiram ou tiveram um papel pró-ditadura. Vários pastores foram inclusive delatados uns pelos outros por fazerem o movimento contrário à ditadura, por defender entre os fiéis resistência. Com raríssimas exceções, a igreja evangélica no Brasil na ditadura foi uma igreja bastante alinhada ao regime. E se a gente dá um pulo e pensa nisso no pós-redemocratização, nunca houve um movimento progressista de fôlego ou substância nesse movimento no Brasil, e o que acontece ali em 2013, nas manifestações de 2013 já se viu claramente que eles tinham um posicionamento majoritário contra o governo ali. E as lideranças evangélicas operaram e foram de fundamental importância para a perda de apoio da Dilma.

Se você assiste aquela votação no Congresso, tem pessoas que fizeram análise depois das palavras que apareciam ali, e você vai ver que defesa da família, Deus e versículos bíblicos foram muitas vezes mencionados, citados. Então, eu gosto sempre de trazer exemplos para dar um pouco de perspectiva. É só pensar na figura do Eduardo Cunha. Ele é um cara ligado à Assembleia de Deus de Madureira que conduziu o processo da Dilma, que formatou todo o processo, que construiu o apoio para a derrubada da Dilma com amplíssimo apoio de outras lideranças evangélicas dentro do congresso e fora do congresso. Então, se a gente pode resumir isso em duas linhas, de 2013 para cá, o movimento evangélico, com algumas poucas vozes dissonantes apoiou o impeachment e tem sido, majoritariamente, antipetista assim desde então, com poucos momentos de mudança.

Como você avalia a capilaridade e a presença das igrejas evangélicas nas periferias?

VICTOR ARAÚJO Eu acho que é interessante esse ponto porque ele nos ajuda a rebater um pouco desse argumento de irracionalidade, sobretudo os evangélicos pentecostais de baixa renda. No momento eleitoral, quando esses evangélicos acompanham as lideranças na direção do voto, entendem que seguir a direção das lideranças é o correto a se fazer, tem todo um contexto por trás disso. Então, essas igrejas oferecem todo um aparato social que, muitas vezes, nem mesmo o Estado consegue oferecer. As igrejas têm creches, oferecem cesta básica, oferecem apoio, acompanhamento psicológico, oferecem tratamento de reabilitação contra drogas. Tem uma série de coisas que essas igrejas estão oferecendo ali. Elas são o Estado em muitos sentidos e em muitas localidades.

Tem um contexto, até chegar no momento de eleição, sua liderança indicar em quem você deve votar e você seguir. Obviamente, se são essas pessoas que compõem a sua rede, são essas pessoas que, no momento de aflição, oferecem para você uma mão, oferecem para você uma ajuda, é esperado que essas pessoas tendem a se alinharem também no momento eleitoral com essas lideranças, com essas pessoas que estão ali comungando com você da mesma fé em primeiro lugar, e também oferecendo uma rede de assistência. Esse é um mea culpa que eu faço. É preciso entender o contexto onde essas igrejas estão, é preciso entender quem são essas pessoas e é preciso entender porque elas votam assim. Elas não votam contra a redistribuição porque elas são burras e irracionais, elas votam contra candidaturas de esquerda porque elas não conseguem perceber que essas candidaturas podem, em primeiro lugar, oferecer uma melhoria de bem-estar, oferecer uma melhoria efetiva das suas vidas ali, porque não são eles que estão lá no dia a dia, e em segundo lugar porque tem uma discussão aí também de guerra espiritual, de batalha espiritual.

Essas candidaturas são colocadas, os partidos são vistos como partidos destruidores da família, como partidos que, além de não estarem presentes e não oferecerem bem-estar, querem destruir a sua família, eles querem aprovar drogas, eles querem drogar seus filhos, eles querem fazer com que sua filha aborte. Então, tem toda uma discussão, uma narrativa que é construída, que faz com que naquele contexto o voto contra as esquerdas seja a opção que faça mais sentido naquele contexto de extrema vulnerabilidade.

Qual é a influência política que os pastores exercem sobre seus fiéis a depender da linha?

VICTOR ARAÚJO Esse contexto de vulnerabilidade acaba desembocando também em um alinhamento mais consistente entre lideranças e liderados. Os pentecostais vão mais às igrejas, eles vão três vezes mais nas igrejas se comparado com os protestantes históricos, eles confiam cinco vezes mais nessas lideranças. Isso tem a ver com esse contexto que eu tava tentando escrever aqui agora há pouco, se você vive num contexto que o pastor que vai visitar seu filho na prisão, é o pastor que leva uma cesta básica quando seu marido está desempregado, quando você está desempregado, faz muito mais sentido que você confie muito mais e que você seja muito mais dependente dessas lideranças. Então, a gente tem uma série de implicações, inclusive implicações eleitorais. No momento da eleição, se esse pastor diz pra você que Jesus ou que Deus gostaria que você votasse no candidato X ou Y é muito provável que você faça isso.

Agora, no contexto protestante histórico que você tem uma renda maior, que você tem mais qualidade, que você recebe mais informação. Esse é um ponto muito importante: os fiéis pentecostais se informam sobre política em geral nas igrejas. É ali que eles discutem, é ali que eles ouvem sobre política, é ali que eles são informados, é ali que eles formam opinião. E isso é muito diferente no caso dos protestantes históricos, porque como eles são mais escolarizados, como eles têm acesso a uma outra rede e a mais informação, informação mais variada, de mais qualidade, de diferentes fontes, obviamente a opinião da liderança será mais contestada. Obviamente, quando uma liderança coloca algo esses fiéis vão refletir um pouco mais sobre isso e vão pensar: será que faz sentido nesse contexto aqui votar em candidato A ou B? Eles são muito menos vulneráveis nesse sentido para tomar uma decisão que é mais independente. Então, eu acho que é essa a discussão: quem pode fazer o quê? E não nos termos de irracionalidade, não tentar reduzir essas pessoas a pessoas que não conseguem tomar decisões e a pessoas que não refletem sobre esse processo. Na verdade tem sim um processo de reflexão, tem sim um processo complexo de tomada de decisão, mas que as variáveis e o contexto que está sendo levado em consideração ali é outro.

Eu acho que nós, de fora, enquanto especialistas e formadores de opinião, é esse contexto que a gente deveria levar em consideração também na hora de entender como e por que essas pessoas votam, é um pouco do exercício que eu tento fazer no livro.

Em seu livro, você me parece bastante pessimista, porque associa a ascensão da população pentecostal a um aumento da desigualdade no Brasil justamente pelo fato de esse segmento da população não estar ligado às questões redistributivas. De onde vem essa conclusão?

VICTOR ARAÚJO Eu acho que o meu pessimismo vem de um lugar específico. Quando eu tô discutindo ali na conclusão do meu livro, e eu concordo com os meus juízos pessimistas ali, eu estou pensando na discussão sobre políticas públicas. Como nós estaremos discutindo várias questões daqui para frente? E aí, na minha avaliação, é inevitável colar o caso brasileiro ao caso americano, ao caso norte-americano, porque é a única referência que nós temos de um país grande que tem maioria evangélica. Nós não temos outro exemplo no mundo. Obviamente é um exemplo imperfeito porque os americanos não experimentaram transição, eles já começaram uma maioria protestante, mas eles também experimentaram, no meio do processo deles, um crescimento exponencial do pentecostalismo. Houve, no início, as colônias, as três colônias e aquele processo ali de colonização todo feito por protestantes históricos, em algum momento ali próximo de 1900, de 1910, tem uma explosão do pentecostalismo, sobretudo nos estados do sul. Isso cresce e se alastra nos Estados Unidos e você tem uma mudança um pouco ali de como o debate estava sendo feito.

O meu pessimismo vem do lugar de que nós teremos cada vez menos pressão por redistribuição no Brasil, se esse crescimento se consolidar, porque uma parcela do eleitorado, como a gente já conversou aqui um pouco, está menos orientada pelo voto econômico e, portanto, têm menos incentivos para votar em partidos de esquerda. E veja o paradoxo disso: não é porque eles não querem redistribuição, é simplesmente porque a variável econômica não é tão saliente para esse eleitorado. Assim, é inevitável que os partidos de esquerda tenham que andar um pouco para o centro, e aí você acaba regredindo numa série de discussões. Então, o Brasil virou uma espécie de ilha na América do Sul. Por exemplo, quando você pensa a questão do aborto, todos os países estão tentando legislações mais progressistas, tentando descriminalizar, tentando resolver essa questão, que é uma questão de saúde pública, e o Brasil voltou a fazer esse debate nos termos que os americanos fazem que é pensando numa discussão de quem é a favor da vida, quem não é a favor da vida, discutindo no Congresso Nacional e em comissões, à luz da Bíblia e não à luz de ciência, de documentação, de fartos dados que nós temos sobre isso.

O que eu vejo assim, se nada, se nenhum evento de grandes proporções acontecer nas próximas décadas, é que a gente vai caminhar para ser um novo Estados Unidos, um Estados Unidos da América Latina. A gente vai pautar as nossas discussões sobre políticas públicas que deveriam ser fundamentadas por evidência e ciência, dado que nós somos um Estado pelo menos no papel laico, por uma discussão que é cristocêntrica. Então, você entende que a gente tem que pensar o Brasil, pensar as nossas políticas a partir de uma visão bíblica.

Tem um ponto que eu gostaria de ressaltar que é: minorias, quando se tornam maioria, elas tendem a ter um comportamento mais hostil, porque os evangélicos sofreram e sofrem preconceito no Brasil até hoje, e é por isso que quando estão em posições de comando, em posições de poder, eles querem sempre aprovar leis e coisas, leis e legislação que trazem proteção, porque eles vêm experimentando preconceito no Brasil, vêm experimentando estar à margem há décadas. É muito improvável que esse grupo chegue ao poder e tenha um comportamento que não seja hostil. Então, eu não quero de forma nenhuma dizer que os evangélicos são pessoas que não têm caráter, que os evangélicos são pessoas que não poderiam e não saberiam legislar. Eu acho que a questão é menos essa, a questão é pensar: qual a visão de mundo dessas pessoas? O que eles querem? Pensa, se você pegar o exemplo do governo Bolsonaro, a nossa política oficial agora de prevenção de DST [doença sexualmente transmissível], de gravidez na adolescência é “escolhi esperar”, que é um mantra gospel utilizado em várias igrejas que é, em vez de você oferecer preservativo e levar o seu filho no urologista, no ginecologista, você fala para ele: olha, é melhor transar só depois de casar. A gente sabe que isso não acontece na realidade. Na prática, não acontece, isso não poderia nunca ser levado a cabo como uma política pública, mas é o que vem acontecendo agora.

Dá para dar um segundo exemplo, a discussão sobre homeschooling no Brasil agora, que é uma pauta dos evangélicos, que sentem que seus filhos são doutrinados em escolas. Então, você pega um Brasil que não é um país preparado para homeschooling, que tem uma desigualdade educacional absurda, e aprova uma lei que é uma discussão nos Estados Unidos, é uma discussão típica americana. Lá também é uma bandeira dos evangélicos, que tem sido transplantada agora no Brasil.

O meu pessimismo vem desse lugar. O meu pessimismo vem de um lugar de entender que aquele eleitorado que será majoritário amanhã tende a votar em candidatos e tende a estar orientado por questões que focam muito menos em redistribuição, por questões que estão muito menos preocupadas com essas pautas econômicas e muito mais voltadas e amparadas e próximas de pautas morais, o que torna a discussão sobre política pública muito pobre.

Em relação ao armamento, muito se questiona sobre por que os cristãos apoiam um candidato que defende as armas. Essa associação superficial faz sentido?

VICTOR ARAÚJO Eu acho que na superfície tem a ver, mas se você busca isso na profundidade, não. Várias pesquisas estão sendo feitas agora, pesquisas qualitativas mostram que o Bolsonaro tem uma resistência forte entre mulheres, inclusive entre mulheres evangélicas, e o que essas mulheres retratam quando nós utilizamos algumas metodologias como entrevista em profundidade, grupo focal, é que elas resistem muito a essa pauta armamentista do Bolsonaro. Os evangélicos que apoiam essa pauta são os mesmos que estão em outras frações da população, são os homens. São os homens brancos que estão a favor das armas no Brasil. Isso tem que ser dito assim com as palavras de forma bem clara e didática: são os homens brancos brasileiros que são a favor das armas. Homens negros e mulheres rejeitam essa pauta.

Eu não consigo entender, para ser bastante honesto. Do ponto de vista eleitoral, isso é um grande tiro no pé do Bolsonaro, essa pauta armamentista só interessa a quem vende arma e 10%, 15%, talvez menos, do eleitorado dele que está preocupado com isso. Eu não acredito que os evangélicos, em sua maioria, defendam a pauta das armas e sejam favoráveis a isso. Existem algumas lideranças que fazem isso de maneiras muito barulhentas. Eu acho que inclusive é um calcanhar de Aquiles para o Bolsonaro dentro desse eleitorado também. Acho que se ele tivesse sendo um pouquinho melhor assessorado nessa área, ele pararia de falar isso.

Se Bolsonaro tem esse calcanhar de Aquiles, Lula tem inúmeros outros, né? A fala do aborto, por exemplo, foi considerado um tiro no pé.

VICTOR ARAÚJO É, o Lula tem um dilema grande, porque, para a base petista e para a base de apoio do Lula, ele precisa pautar questões do aborto, o Lula precisa falar sobre isso. O problema é que, para ganhar eleição, ele precisa convencer pessoas para além da base. Inclusive convencer uma parcela dos evangélicos a votar nele. Então, eu acho que tentar evitar essas discussões mais espinhosas poderia ser algo inteligente a se fazer nesse momento. Eu acho que com uma exceção importante que é a questão da Segurança Pública, acho que a esquerda vai muito mal nessa discussão, tem muito pouco a dizer, não tem um plano, não tem um projeto de Segurança Pública, o eleitorado, e inclusive o eleitorado evangélico, tem uma impressão que as esquerdas tendem a ser pró-bandido, porque para eles a discussão de direitos humanos é uma discussão pró-banditismo. E essas pessoas estão ali no olho do furacão. É preciso pensar nisso, os evangélicos pentecostais estão morando onde? Eles estão morando nas periferias, eles estão morando nos aglomerados, nas favelas, eles estão perdendo seus filhos diariamente. Essas mulheres que frequentam essas igrejas estão perdendo seus filhos para o crime organizado, para as cadeias. Perdendo essas pessoas de forma permanente.

Eu acho que é preciso pautar essa discussão e rivalizar com a direita essa discussão. Essa discussão foi sequestrada pela direita. E aí, o Bolsonaro consegue muito facilmente vender porte de arma como se fosse uma política de segurança pública, isso não é uma política de segurança pública. Isso é uma transferência, é uma terceirização de um problema que é do Estado para o indivíduo. Compra uma arma e se defenda em casa, porque eu estou assumindo enquanto Estado que não tenho nada para fazer por você. Acho que é um tema que precisa ser discutido de novo, sobretudo porque os evangélicos, que são aqueles mais resistentes ao PT, estão nesse contexto. Essa é uma pauta que precisa ser discutida, discutida com palavras que as pessoas possam entender, com soluções de curto prazo. Dizer que investir em educação e reduzir a desigualdade vai resolver não funciona, porque esse eleitor está esperando isso há décadas. Então, é preciso que alguma medida, alguma política mais curto prazista seja apresentada para esse eleitorado. Eu acho que seria até uma forma de conseguir atrair um pouco desses eleitores que hoje são tão contrários e desfavoráveis à candidatura do Lula em outubro.

Você vê evoluções da esquerda em se aproximar mais dos evangélicos? Há alguma mudança de discurso na centro-esquerda brasileira?

VICTOR ARAÚJO Eu acho que a liderança do Lula nas eleições, nas pesquisas, está criando essa falsa impressão de que é a inflação que importa e que nada mais importa. Isso me chateia assim, claro, frontalmente, não só porque eu estudo isso, mas porque eu acho que é um erro, é um erro de análise dessa conjuntura. Tem um problema vindo, é como se tivesse vindo um trem descarrilhado na sua direção e você ignora esse fato, você ignora que isso está acontecendo.

Eu não saberia dizer muito sobre esses movimentos que o PT vem tentando fazer, eu acho que tem pessoas estudando de forma mais detida e eu não sou uma dessas pessoas. Mas eu queria tocar só no final da sua pergunta. Eu acho que existe uma percepção de por que o Lula está liderando essa eleição, pelo menos nas pesquisas, essa clivagem religiosa não importa. Então, assim, 2018 foi um ponto fora da curva que nunca mais vai acontecer. Eu acho que a junção desses dois grupos alinhados, protestantes históricos e evangélicos pentecostais provavelmente não vai acontecer mesmo. Eu apostaria que isso não vai acontecer. Mas isso importa menos no longo prazo, porque no longo prazo importa que o grupo que está experimentando mais crescimento, que são os pentecostais, eu não consigo ver esses eleitores se realinhando em torno do PT em algum momento no futuro próximo. A única razão pela qual Bolsonaro não será eleito em 2022 é que os pentecostais ainda não são grandes suficientes para decidir as eleições sozinhos. Mas eles estarão próximos disso em oito anos, eles serão cerca de 35% do eleitorado, que é muita coisa, muita coisa.

Esse é um fenômeno que não pode ser considerado. É como se você tivesse um trem descarrilhado vindo na sua direção e você simplesmente fizesse de conta que isso não está acontecendo, mas está acontecendo. A vitória de Lula em outubro de 2022 não muda o fato de que tem uma maioria eleitoral contrária às esquerdas sendo formada de forma sistemática nas últimas duas décadas. Isso é um fato que a gente não tem como mudar. A pergunta é se esse eleitorado, quando chegar na condição de maioria, continuará sendo o mesmo? O que vai acontecer no interior desse eleitorado? Vai ter divisão? Todas essas coisas podem mudar, somos humanos. Então, ciência social é algo complexo. A gente tem um quadro, um panorama nas últimas duas décadas, é o que eu tento traçar no livro e falar: olha, se isso aqui se mantiver constante, a esquerda tem um problema nas mãos, mesmo se o Lula vencer em 2022.

Eu acho que o fato do Bolsonaro, tendo feito o pior governo da história da redemocratização, ainda ter 35% de votos em espontânea e ser um candidato competitivo mostra que tem um problema aí que não pode ser ignorado.

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