Favoritos

Izabella Cristo


22 de novembro de 2024

Temas

Compartilhe

A convite da seção ‘Favoritos’, a escritora e médica belenense Izabella Cristo indica cinco livros que mostram a multiplicidade da produção literária atual sobre o Pará

O Nexo depende de você para financiar seu trabalho e seguir produzindo um jornalismo de qualidade, no qual se pode confiar.Conheça nossos planos de assinatura.Junte-se ao Nexo! Seu apoio é fundamental.

No processo de revisitar e redescobrir minhas origens, tenho me debruçado com mais afinco sobre a literatura paraense e aquilo que vem sendo produzido fora do eixo São Paulo-Sudeste, grande formador de opinião.

 

Optei por contemporâneos vivos e em ascensão, autores cujas obras estão acessíveis e em desenvolvimento, como cá estamos todos, e que fogem do clássico, mas que podem ser lidos e admirados.

 

Escolha dura, dói no coração, por exemplo, me privar da escolha de Jacques Flôres, o nosso Machado de Assis paraense, ou Max Martins com poesia e obra estabelecidas, e Dalcídio Jurandir, mestre dos personagens paraenses. 

 

Contudo, a diversidade e novidade que proponho não é ao acaso, faz parte de um componente a diversificar o que está sendo lido e visto. 

 

Assim como a culinária, a literatura paraense tem um tempero singular. Não há nada que se compare ao efeito anestésico do jambú na língua, como também é único o sabor da linguagem e imagens papa-chibés abordadas nos temas amazônicos. Tempero único, por vezes turvo e ácido, sim, mas digno da mais elevada culinária literária quando se prova com a mente, linguajar e coração abertos. 

Deguste!

 

Castanha do Pará

 

Gidalti Moura Jr. (Sesi-sp, 2018)

 

COMPRAR*

 

Inicio minhas indicações já quebrando paradigmas e incitando questões ao indicar primariamente uma premiada história em quadrinhos de um mineiro que escreve em São Paulo sobre o Pará. À margem das discussões acerca de se quadrinhos são ou não manifestações de literatura e a despeito do local de nascimento do autor, de berço mineiro, mas com alma mais paraense que muitos dos nativos, Gidalti vem com sua graphic novel, “Castanha do Pará”, nos apresentar típicos e reais personagens da Grão menina capital Belemense.

 

Neste mundo de Gidalti, onde meninos são porcos, macacos e gatos e apenas os adultos têm face, conhecemos a história de Castanha, o menino Urubu que não tem nome, mas tem fama e é altamente conhecido na vila como pivete. Aos moldes de Spielgelman, autor da famosa HQ norte americana “Maus”, porém bem distante dos campos de concentração e do Holocausto, aqui circulamos pela violência e a miséria, que pousam lado a lado e andam livres junto com Castanha pelo mercado Ver-o-Peso e pelas ruas da capital paraense. 

 

O subtexto é a grande dádiva desta graphic novel. Narrada na maior parte pela personagem fofoqueira da vila, descobrimos muito menos de Castanha pelas palavras de sua denunciadora o relatar o caso para a polícia do que pelas imagens. O traço colorido e borrão, mas sempre escuro, nos leva à vida esboçada que o menino pivete tem, sempre secundário às suas próprias mazelas. 

 

A obra é entremeada de gírias e expressões típicas da região, e o leitor desacostumado talvez hei de estranhar ou ter certa dificuldade e até precise de reforços do dicionário popular em algumas das muitíssimas referências ao linguajar paraense (égua, pisica, aplica, deixa de potoca, levar o farelo, levar um tubão, dentre outras…), com expressões que, garanto, são completamente verossímeis. 

 

Em Castanha do Pará — a castanha que não é do Brasil, é do Pará mesmo —, a crítica se camufla. Somos levados à década de 90 com imagens certeiras e algumas clássicas personagens da miséria, violência e desigualdade da cidade de Belém. Mas não de qualquer forma, não de qualquer jeito. De um jeito cru, porém com inerente sensibilidade, potência e certa dose de lamento por ainda se fazer atual e presente nos dias de hoje. Triste contemporaneidade. 

 

Corpos benzidos em metal pesado

Pedro Augusto Baía (record, 2022)

 

COMPRAR*

 

De todas as leituras recentes, considero, definitivamente, esta obra de Pedro Augusto Bahia a mais surpreendente.

 

Preciso e cirúrgico, Pedro Bahia demonstra uma maturidade literária e completo domínio da arte da narrativa curta. O conto não aceita rodeios, e é o que Pedro faz, nos soca com palavras, temas e múltiplas personagens, nos proporcionando uma coleção magnífica de cenários e situações de um Brasil que pouca gente conhece, mas muitos vivem. 

 

Nada sobra e nada falta em seus contos. Pedro é preciso. Domestifica uma serra elétrica, afoga bois em rios, passeia de canoa com encantados, permeia e evoca a vasta loucura em que se vive — que seria fruto dos metais pesados ou das vastas mazelas contemporâneas? Eis a questão.

 

A variedade das personagens e o trânsito entre cenários urbano, rural e estrangeiro absolutamente não as descola do meio, pelo contrário, acrescentam, somam na composição das forças que as envolvem, expondo sem rodeios o panorama e a sociedade massiva que as cercam.  

 

Em poucas linhas, histórias que tocam a alma, dolorosas ao expor as feridas da realidade amazônica brasileira, mas, ainda assim, belas, munidas de grande sensibilidade, coisa que só alguém com um olhar humanista pode proporcionar. 

 

Uma leitura envolvente, sensível e necessária. 

 

Outono de carne estranha

Airton Souza (record, 2023)

 

COMPRAR*

 

Inevitável falar da obra de Airton Souza. “Outono de carne estranha” é, dentre as obras contemporâneas de autores nortistas, a mais pungente. 

 

Airton logo de cara nos insere no cenário da Serra Pelada de maneira inusitada ao revelar a homoafetividade em meio a um garimpo na década de 80. Airton não poupa o leitor, nem deveria, ele o injeta, o escandaliza, o emerge sem rodeios com riquíssimas imagens permeadas de personagens nada planos, nessa terra de lama marcada pela ganância e pela violência. 

 

De repente, mesmo o leitor inadvertido ao desconhecido se vê inserido neste romance histórico e palavras como bamburrar, melechete, adeus-mamãe, bate-paus e bateia já não lhe soam tão estranhas. 

 

Estranho mesmo é o desejo incessável pelo bamburrar. Na eterna busca pelo ouro que nunca chegará, os três protagonistas nos revelam todo o paradoxo humano. Cercados pelas mazelas e disparates de Serra Pelada, são uma mina de paradoxos e absurdos. Seco e lúcido, mas preciso, Airton consegue com sua linguagem lírica e maestral trazer uma beleza que só um trabalho literário com afinco pode fazer. 

 

Não é à toa que o livro coleciona indicações de prêmios. Obra corajosa e necessária para os dias atuais. 

 

Mulheres de Fogo 

Roberta Tavares (2020)

 

“venho varando de quilombos 

Venho do ventre de mulheres que 

Costuraram liberdade com retalhos

Trago comigo outras mulheres

De peles pretas reluzentes como a noite”

 

É assim que Roberta Tavares nos recebe, neste belo acervo de sua poesia, que contém, em um único exemplar de livro, diversas mulheres. A ancestralidade é a palavra que permeia e emana desta obra. Roberta não consegue fechar os olhos ou ignorar a história, aliás, como boa historiadora, abre-se para esse olhar de descendência não consentida e permitida, valoriza e carrega em sua poesia a honra e a glória ou remissão da memória.  Faz isso de maneira inteligente e poética. 

 

É preciso ser tanto leitor atento quanto pesquisador pungente para se aprofundar em certos enxertos, como Delcidiar versos e emanar Verequete ou ter ciência de nomes esquecidos na história da Cabanagem.

 

Mas não é somente isso. Roberta traz o olhar amoroso e feminino sobre o cotidiano, nada inerte, e utiliza belas imagens não só contemplativas, como também literárias, além das histográficas.

 

Ancestralidade, história e memória juntas à poesia. A poesistografia está instaurada. 

 

Flor de Gume

Monique Malcher (ferina, 2020)

 

COMPRAR*

 

Completando o círculo de leituras mágicas e sensíveis do escopo contemporâneo, trago mais uma figura feminina para a roda, desta vez para falar de carne para carne, com amor, dor e grande sensibilidade. 

 

Monique Malcher, no premiado Jabuti, nos contempla com uma prosa poética acerca de gerações de mulheres, meninas, filhas, mães e avós afundadas e renascidas em dores, amores, violências e perturbações.

 

Monique também é daquelas que não poupa o leitor, porém quanto mais destila e discorre pelas ruas e águas do Pará, trazendo à tona temas agudos como abuso sexual, violência doméstica, alienação parenteral, machismo e desamores, mais sua escrita é poderosa, nos fazendo sentir o inesperado, o oculto, e nos ferindo para, logo em seguida, num mesmo texto, curar e abraçar as feridas reveladas. As flores-personagens, resistentes e corajosas, se preenchem de ressignificação, em narrativas curtas e espessas, completamente independentes de fórmula literária, com plena liberdade artística. Prova de que é possível fazer poesia com tudo.

 

Uma escrita arrebatadora.

 

Izabella Cristo é paraense, nasceu em Belém e vive em São Paulo. Médica, pós-graduada no curso de formação de escritores pelo Instituto Vera Cruz, é membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores. Tem diversos textos de prosa e poesia em coletâneas, além de livros de crônicas lançados por autopublicação. “Mãezinha”, vencedor do Prêmio Caminhos de Literatura de 2024, é seu primeiro romance.

*Caso você compre algum livro usando links dentro de conteúdos do Nexo, é provável que recebamos uma comissão. Isso ajuda a financiar nosso jornalismo. Por favor, considere também assinar o Nexo.