Gabriela Longman
A convite da seção ‘Favoritos’, a jornalista e curadora Gabriela Longman indica cinco biografias de mulheres que se destacaram no cenário cultural brasileiro
Pensar o mundo a partir da história cultural – artística, intelectual, literária – sempre foi minha tarefa preferida, e poucas coisas me deixam mais felizes do que ver as mulheres sendo reconhecidas, cada vez mais, como protagonistas.
O Brasil tem um caldeirão de boas histórias esperando para serem contadas. Mergulhar na vida de alguém é transitar o tempo todo entre o plano pessoal/individual e o plano social/coletivo. Fazer essa costura com habilidade é, talvez, o principal desafio de um bom biógrafo/biógrafa.
Francesco Perrotta-Bosch (Todavia, 2021)
Crítico e ensaísta, Bosch investiga como a arquiteta Lina Bo Bardi, nascida em Roma, foi capaz de enxergar (e transformar) tanto um país que não era o seu e como conseguiu, de alguma maneira, “traduzi-lo” para os brasileiros. Uma ótima deixa para conhecer um pouco mais dos bastidores da criação do Masp, do Sesc Pompeia, de seus projetos em Salvador… Foi lançada quase simultaneamente a uma outra biografia de fôlego, de Zeuler R. Lima, pela Companhia das Letras, pensada de maneira mais linear e cronológica. Vale a pena ler as duas!
Benjamin Moser (Companhia das Letras, 2017)
Lançado em 2009, o livro de Moser serviu para transformar Clarice Lispector numa escritora lida, traduzida e celebrada mundo afora. Ali, ele analisa não apenas os aspectos biográficos, mas também o contexto social e histórico de Clarice (1920-1977), destacando suas inovações estilísticas e temáticas, como a busca pela subjetividade e a exploração da condição feminina.
Alvaro Machado (Edições Sesc, 2020)
Jornalista, curador e pesquisador em artes cênicas, Alvaro Machado mergulhou numa das figuras mais apaixonantes do teatro brasileiro, a atriz e produtora Ruth Escobar (1935-2017). O livro acompanha sua trajetória de 40 anos na cena brasileira e mundial, seu ativismo político em favor de causas democráticas e feministas e suas ações de promoção da cultura lusófona no Brasil e na Europa. A edição bem cuidada é cheia de fotos do acervo da família, além de registros de veículos de comunicação e arquivos.
Bianca Santana (Companhia das Letras, 2021)
Nem todo mundo tem a honra de ter uma biografia em vida, mas Sueli Carneiro merece todas as honras. “Entre a esquerda e a direita, sei que continuo preta”, costuma dizer a escritora, intelectual e ativista que ajudou a transformar a história do movimento negro. Para dar conta de uma longa trajetória política, que se confunde com a própria história do Brasil pós-redemocratização, a jornalista, escritora e professora Bianca Santana realizou dezenas de entrevistas e uma pesquisa cuidadosa.
Rita Lee (Globo Livros, 2016)
Diferentemente das outras aqui apresentadas, esta é uma autobiografia, o que muda tudo. Sai o mito da imparcialidade jornalística, entra o testemunho em primeira pessoa, com todas as nuances envolvidas. No caso de Rita, entra uma mente em ebulição que se transformou num dos grandes símbolos da contracultura, contando histórias mirabolantes que atravessam a formação dos Mutantes, a São Paulo dos anos 1980 e a cena musical das últimas décadas. Não resisto a deixar aqui um trechinho:
“(…) Mulheres têm a idade que merecem, homens serão sempre crianças. (…) É um tal de política destruindo a liberdade, de medicina destruindo a saúde, de jornalismo destruindo a informação, de advogados e policiais destruindo a justiça, de universidades destruindo o conhecimento, de religiões destruindo a espiritualidade. Confie em Deus, mas tranque o carro. (…) O pior inimigo da criatividade é o bom-senso, mudar, mudar, mudar, nem que seja para pior. Dói mais sorrir na frente dos outros do que chorar sozinha, mas não devo levar a vida tão a sério porque ninguém sai dela vivo.”
Além das cinco que apresento aqui, aproveito para celebrar três biografias que estão em gestação tendo mulheres não só como as biografadas mas também como autoras: um novo olhar sobre Tarsila do Amaral tecido pela Francesca Angiolillo, uma imersão na vida e obra de Lygia Fagundes Telles pensada pela Raquel Cozer e um mergulho no universo de Djanira por Josélia Aguiar. Três trabalhos de fôlego feitos por três grandes jornalistas, já já pertinho da gente.
Gabriela Longman é jornalista, editora e curadora, mestre em história da cultura pela EHESS-Paris (Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais de Paris) e doutora em Teoria Literária pela USP (Universidade de São Paulo). Foi repórter da Folha de S.Paulo e fundou, em 2023, a start-up jornalística Guia Orbit – plataforma digital que concentra e organiza a programação cultural de São Paulo, com expansão prevista para outras capitais. Na encruzilhada das artes e da literatura, desenvolve projetos para instituições como Sesc-SP, Biblioteca Mário de Andrade, Instituto Inhotim e Museu Judaico.
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