Lilian Dias
A convite da seção ‘Favoritos’, a escritora Lilian Dias indica cinco livros para pensar sobre a memória coletiva
Instada a refletir sobre livros que abordam a construção da memória coletiva, acabei me dando conta de que eles são abundantes, seja na ficção, seja em trabalhos acadêmicos. Particularmente, considero a ficção um lugar privilegiado para trazer à tona, de forma imersiva, as diversas formas de relacionamento com o passado, onde estão presentes tanto aquilo que é lembrado quanto aquilo que é esquecido. É nessa dicotomia, desenvolvida dentro dos indivíduos, que se constrói a memória coletiva de um povo, de uma nação, ou até de pequenas comunidades já varridas pela história.
Tenho especial interesse pelo tema da memória, que, de uma forma ou de outra, acabou sendo abordado em todos os meus livros. Em “Futuro do pretérito”, meu último romance, tentei resgatar a memória de um Brasil que parecia querer desaparecer da lembrança de muitos brasileiros, por meio da criação deliberada de narrativas divergentes, negacionistas, em acintoso movimento de aniquilação das memórias vivas de um povo. Tratando-se de obra ficcional, tracei um paralelo com o processo individual de sedimentação das memórias em uma personagem que sofria de amnésia pós-traumática. Os cinco livros que vou citar aqui também constroem seus enredos sobre o cruzamento entre tempos históricos e as memórias de seus personagens.
Mia Couto (Companhia das Letras, 2016)
Neste romance, o escritor moçambicano Mia Couto estabelece um diálogo entre história e ficção, para construir um relato sobre a formação de seu país, e, de forma mais abrangente, da África contemporânea – um continente assolado pelas guerras, que assistiu à memória coletiva de seu povo muitas vezes desaparecer sob os escombros. O enredo, no qual o autor viaja por dois tempos históricos, trata da relação com o passado, da dicotomia permanente entre o lembrar e o esquecer.
Conceição Evaristo (Pallas, 2017)
Neste livro, a autora relata as memórias de infância de uma menina que cresceu em uma favela em Belo Horizonte. Aqui, predomina o tema do desenraizamento de populações que, vivendo sob condições extremamente precárias, parecem privadas, inclusive, do direito de construir suas memórias coletivas, em virtude das constantes remoções. A autora entrega, com maestria e poesia, uma obra que resgata o direito à memória de um povo, construindo um dos mais belos livros da literatura brasileira.
Antônio Bispo dos Santos (Ubu/Piseagrama, 2023)
Nesta obra, Nego Bispo – filósofo, escritor e professor – nos oferece uma percepção cosmológica constituída a partir de sua formação quilombola no Piauí, e, com ela, revela a vida e valores das comunidades rurais, seus territórios, símbolos e modos de vida. Com os conceitos de confluência, transfluência, contracolonização e cosmofobia, dentre tantos outros, Bispo nos entrega uma visão única e desconcertante do modo de vida quilombola diante da sociedade colonialista em que vivemos. Um livro necessário, capaz de bagunçar, por completo, nossas visões sedimentadas sobre o mundo.
Ecléa Bosi (Companhia das Letras, 2023)
Mais um livro desta lista que não se constitui como obra ficcional, “Memória e sociedade: Lembranças de velhos”, da professora Ecléa Bosi, é considerado uma obra-prima das ciências humanas, no campo da psicologia social. Trata-se de um ensaio sobre a memória, elaborado a partir de depoimentos de pessoas idosas que revelaram, de maneira única, a vida dos imigrantes e operários que ajudaram a construir a história social da cidade de São Paulo.
Érico Veríssimo (Companhia das Letras, 2009)
A obra de Érico Veríssimo é um clássico da literatura histórica do Brasil, uma jornada épica que narra a formação do estado do Rio Grande do Sul através das famílias Terra, Cambará, Caré e Amaral. Os três livros (“O continente”, “O retrato” e “O arquipélago”) percorrem um período de 200 anos e combinam elementos de romance histórico, saga familiar e crônica de costumes. A ficção é amparada em fatos e personagens reais, trazendo episódios determinantes para a formação da identidade cultural e geográfica do Rio Grande do Sul.
Lilian Dias é escritora, autora dos romances ‘Acorde vagante’, ‘A dobra do fio’ e ‘Futuro do pretérito’, este último recém-lançado. Com formação em ciências sociais, trabalhou com livros durante toda a vida, tendo sido tradutora, revisora, livreira, além de restauradora e pesquisadora de obras bibliográficas raras. Nos últimos anos, vem se dedicando exclusivamente à escrita de ficção.
*Caso você compre algum livro usando links dentro de conteúdos do Nexo, é provável que recebamos uma comissão. Isso ajuda a financiar nosso jornalismo. Por favor, considere também assinar o Nexo.