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Danilo Cymrot


21 de fevereiro de 2025

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Foto: Caio Oviedo/Arquivo Pessoal

A convite da seção ‘Favoritos’, o pesquisador em criminologia Danilo Cymrot indica cinco livros que contam a história de crimes reais cometidos no Brasil

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Narrativas sobre crimes causam fascínio e interesse do público há séculos. Esse interesse, de certa forma mórbido, encontra explicações que passam pela psicologia social, sociologia, antropologia e estudos culturais. Ora o leitor se identifica com as vítimas, ora com os criminosos, que realizam muitas vezes desejos inconfessáveis e reprimidos. Livros sobre crimes permitem ao leitor penetrar em ambientes marginalizados e misteriosos, saciando sua curiosidade. Tanto os crimes quanto sua repercussão nos dizem muito sobre os valores de uma sociedade e o tempo histórico. 

 

Em tempos em que filmes e séries do gênero true crime fazem muito sucesso no streaming, indico cinco livros que tratam de crimes reais no Brasil. 

 

Minha formação no campo da criminologia crítica me levou a escolher não apenas livros que abordam casos de homicídios praticados por um indivíduo que se tornou celebridade, mas principalmente livros que fogem do sensacionalismo e jogam o foco na criminalidade que é praticada por agentes estatais e que vitima principalmente grupos sociais minoritários ou minorizados, como negros, gays e judeus. Em comum, são livros que prendem a atenção do leitor e são difíceis de largar. 

 

Rota 66: A história da polícia que mata 

Caco Barcellos (Record, 2003)

 

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O livro parte de um caso ocorrido em 1975, narrado de forma eletrizante no primeiro capítulo, em que três jovens de classe média foram executados por policiais da Rota em um bairro nobre de São Paulo. Baseando-se em uma pesquisa de fôlego, o jornalista Caco Barcellos conta as histórias de execuções extrajudiciais praticadas por policiais da Polícia Militar de São Paulo: o modus operandi, seus alvos preferenciais (jovens, negros e pobres da periferia de São Paulo), sua relação com a repressão à guerrilha urbana durante a ditadura militar e seu histórico de impunidade. 

 

Entre os casos célebres narrados, está o do assassinato, em 1987, do ator Fernando Ramos da Silva, que interpretou Pixote no filme homônimo, de Hector Babenco. O livro rendeu a Caco Barcellos ameaças de morte e o Prêmio Jabuti de 1993 na categoria Reportagem. Em 2022, originou uma minissérie na Globoplay. 

 

Dias de ira: Uma história verídica de assassinatos autorizados 

Roldão Arruda (Globo, 2001) 

 

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O jornalista Roldão Arruda narra os crimes atribuídos ao michê Fortunato Botton Neto, apontado como o Maníaco do Trianon, um suposto serial killer de homossexuais na segunda metade da década de 1980 em São Paulo. Pesquisando os processos judiciais, o autor questiona a real autoria dos crimes, lembrando outros casos ocorridos em outras cidades, no mesmo período, como o do diretor de teatro Luiz Antônio Martinez Corrêa, que tiveram modus operandi e motivações semelhantes. 

 

Arruda chama a atenção para as falhas nas investigações, relacionando-as à falta de interesse da polícia em elucidar os assassinatos, em virtude do perfil das vítimas, e contextualizando os crimes em um período de pânico moral e epidemia da aids, quando a homofobia da sociedade legitimava e até incentivava os crimes.

 

Os porões da contravenção

Aloy Jupiara e Chico Otavio (Record, 2015)

 

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Os jornalistas Aloy Jupiara e Chico Otavio tiram o glamour dos bicheiros mais famosos do Rio de Janeiro neste livro. Muito mais do que contraventores românticos, essas figuras estão muitas vezes envolvidas com crimes bem mais graves, como homicídios. 

 

Tal qual mafiosos, corrompem e se aliam a agentes políticos, de direita e de esquerda. Recrutam ex-torturadores da ditadura militar como capangas, quando não são eles próprios ex-torturadores expulsos das Forças Armadas. E se apresentam como patronos e patrocinadores de escolas de samba e times de futebol não apenas pelo amor à cultura popular, mas também pela estratégia de angariar apoio entre a população e consolidar seu poder. 

 

Daniella Perez: Biografia, crime e justiça 

Bernardo Braga Pasqualette (Record, 2022)

 

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Publicado no ano em que o assassinato da atriz Daniella Perez completou três décadas e pouco após o lançamento da série documental sobre ele no Max, o livro escrito pelo advogado Bernardo Braga Pasqualette destrincha com riqueza de detalhes o caso que marcou toda uma geração no início dos anos 1990 e que repercute até hoje. 

 

A primeira parte, uma biografia de Daniella, peca pela idealização e pelo excesso de elogios à personagem biografada. Este defeito, no entanto, é compensado pela pesquisa aprofundada sobre o assassinato, sua repercussão, o julgamento dos assassinos, a campanha capitaneada por Glória Perez para incluir o homicídio qualificado no rol dos crimes hediondos e a vida dos criminosos pós-prisão. 

 

O autor relembra outros casos célebres de feminicídio, como os de Mônica Granuzzo e Claudia Lessin e problematiza a forma como a mídia lidou com o caso Daniella Perez e também os preconceitos sociais – homofobia, machismo e intolerância religiosa – que permearam o julgamento dos réus. Vale lembrar que um livro anterior sobre o tema sofreu tentativa de censura e outro, escrito pelo próprio assassino, foi censurado judicialmente. 

 

Baviera tropical 

Betina Anton (Todavia, 2023)

 

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Vencedor do Prêmio Jabuti 2024 na categoria Biografia e Reportagem, “Baviera tropical” narra as atrocidades cometidas pelo médico nazista Josef Mengele no campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau e sua rota de fuga da Europa, passando pela Argentina e pelo Paraguai até chegar ao Brasil, onde viveu por muitos anos – paranoico mas impune. Entre vários méritos, a obra desmonta teorias da conspiração mediante uma rigorosa pesquisa e cumpre um papel importante de denúncia diante do crescimento do neonazismo no Brasil. A relação pessoal da autora com o caso Mengele, exposta nas primeiras páginas, deixa o livro ainda mais interessante. 

 

Danilo Cymrot é mestre e doutor pelo Departamento de Direito Penal, Criminologia e Medicina Forense da Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo). É pesquisador cultural e autor do livro ‘O funk na batida: Baile, rua e Parlamento’ (Edições Sesc, 2022), finalista do Prêmio Jabuti 2023.

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