Levou-a para conhecer os vizinhos mais próximos e o arruado.
Mangueiras, pequizeiros, mangabas, jaqueiras já estavam ali no terreno, como se esperassem por eles. O Cerrado se espraiava até se perder de vista. Da porta da cozinha, no barraco, dava pra ver a serra ao longe e um bocado de pedras brancas e volumosas, como se tivessem sido empilhadas pelos milênios sem cuidado algum, com desacerto, como algo que se descarta sem consideração. Zé Minino as concebia como um engano da natureza, que as deixara ali talvez por descuido ou esquecimento. Poderia tê-las deixado mais adiante, em algum local onde achassem companheiras e formassem um conjunto mais bonito. Já Anja achava que não, que eram bonitas do seu jeito e davam “uma graça à vista, que, sem elas, ia parecer arrumadinha demais, o que também seria bonito, num ia dizer que não, mas é bom variar”.
— A natureza gosta de parecer bem-arrumadinha — disse Zé a Anja. — Espia a mata, as árvore mais ou menos do mesmo tamanho, as copa formando um arranjo verde bonito de se ver de longe.
— Só se for bem de longe. As mata que a gente conhece de perto é tudo desordenada, árvore com tronco de tudo quanto é jeito, cipó caindo por tudo quanto é lado, chão cheio de capim, folha, toco, bichim de todo jeito. Uma desarrumação só, assim é que é a natureza de perto. E por isso que ela é tão bonita. O homem é que vem depois com essa vontade de ajeitar tudo numa reta ou curva bem-feita, puxar daqui, em purrar dali, limpar. Acabam com o modo de ser dela.
— Por um lado, até acho que cê tá certa, Anja, mas eu tava falando que a natureza também tem sua maneira de ordenar este mundo. A ordem dela não é a ordem humana, é outra ordem.
— Então vamo dar uma chegada lá antes que esses homi apareçam pra pôr do jeito deles?
Os dois logo iriam pegar o costume de passear até essas pedras empilhadas. Era uma caminhada não tão longa, uma distância que Anja podia fazer sem muita ajuda. Paravam para descansar antes de pegar uma subida leve, de onde se podia ter uma visão mais completa da natureza que avançava em matas e campo livre, e nele o pequeno oásis dos buritis. Anja gostava especialmente de poder avistar, aindamais adiante, a cachoeira estreita que caía com seus chuás em linha vertical, como se tudo em volta existisse para lhe servir de cenário.
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Ao lado da porteira que se abria para a morada, dois altos an gicos de casca branca se erguiam com muito brio. Morada de bem-te-vis.
Ela gostou do que viu e não hesitou em confiar que seriabom viver naquela terra.
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Maria Branca
Quando me despedi da irmã da Santa Dica, ela me perguntou se eu num tava com medo. “Medo de quê?”, me espantei. “Do que cê nem conhece.” “Se eu num conheço, quero mais é conhecer”, respondi. “Medo num faz a vida de ninguém, mulher. Ainda mais um medo assim, por adianto. Medo desses tá é dentro da gente, não do lado de fora. Se o medo ameaça pôr os zóio pra azucrinar, tem jeito de agarrá-lo e jogar pra longe, pra que num atrapalhe a vida. Num deixo, neeem! Abro os braço e vou em frente.” Espia só se eu ia ter medo de vir pra cá, que pensamento mais cheio de despropósito! Fico até com pena dela. Isso se chama é medo de viver.
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Anja e Zé Minino já tinham se convencido de que não teriam filhos quando a filharada começou a chegar com pouco intervalo entre um e outro: Nestor, Valdelice, Divina, Donato e depois, com um espaço grande, sendo quase temporões, os gêmeos Umberto e Doroteia.
Com o tempo, construíram uma casa de tijolo, caiada de branco, janelas abertas para todos os lados, quintal bem demarcado. Ficava perto do barraco e do poço que a Véia contava ter sido aberto pelo pai de Zé Minino. Ergueram cercadinhos para os porcos e as galinhas, outro para o cavalo, adquirido com muito custo pelo que lhes dava a terra cultiva da com milho, feijão, arroz, jiló.
Véia, a mulher indígena já de alguma idade, preferiu continuar no barraco antigo. Silenciosa, ela. Fumava agachada seu cachimbo de barro, olhando para fora ou para dentro de si mesma, Anja não sabia. Mas pegava no trabalho com eles e era toda risada quando as crianças começaram a chegar. Sua presença tranquila sempre a postos, uma sombra benéfica ao lado deles.
Tinham a vidinha da roça de subsistência, a plantação e a filharada crescendo, juntas, aos pés dos três.

Farejador de águas
Maria José Silveira
Editora Instante
256 páginas
Lançamento em 2 de junho