Um ano depois de a pandemia ter sido declarada, a atuação online de Wolf tornou-se um dos principais pontos de confluência nas redes dedicadas a espalhar esse tipo de horripilante desinformação, quase duplicando sua audiência no Twitter com relação ao ano anterior – seu perfil chegou à marca dos 138 mil seguidores. Em pelo menos sete plataformas tecnológicas que pude contar, ela retratou praticamente todas as medidas tomadas pelas autoridades de saúde para controlar o vírus como parte dessas tramas conspiratórias, com os objetivos nefastos de capturar o nosso dna, adoecer a todos nós, esterilizar-nos, matar os nossos bebês, rastrear todos os nossos movimentos, transformar crianças em zumbis desprovidos de emoções, derrubar a Constituição dos Estados Unidos da América, corroer o poder do Ocidente. Ela especulou que o vírus talvez fosse uma arma biológica – e as vacinas também, possivelmente criadas para assassinar políticos (“líderes locais também estão morrendo”, ela escreveu. “[É] por isso que eu temo que seja um ataque. As dosagens diferem”). Ela comparou o epidemiologista Anthony Fauci, então diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, a Satanás, e chamou de “demoníacas” as tentativas de combater a desinformação sobre as vacinas.
Um “grupo transnacional de maus atores – incluindo o Fórum Econômico Mundial (fem), a Organização Mundial da Saúde (oms), a Fundação Bill e Melinda Gates, empresas de tecnologia e o Partido Comunista Chinês (pcc) – usou a pandemia para acabar com a humanidade e, em particular, para destruir o Ocidente”, Wolf escreveu. “Existe uma forma melhor de debilitar a outra superpotência mundial do que destruir as nossas linhas de frente e a nossa próxima geração estadunidense com vacinas contaminadas e assassinas, que escoam com tremenda facilidade Ocidente adentro por meio de (nem tantas assim) empresas de fachada e intermediários secretos? Não seria bem fácil fazer o mesmo com a Europa Ocidental, com o Canadá e a Austrália como um todo?”
Já de partida, ficou claro que a destacada atuação de Wolf como um implacável manancial de desinformação relacionada à covid estava produzindo resultados no mundo real. Por meio de seu site, DailyClout, bem como de novas alianças com uma série de parlamentares estaduais republicanos, Wolf reivindicou crédito parcial pela bem-sucedida pressão para aprovar a legislação proibindo a obrigatoriedade de máscaras e passaportes vacinais em dezenas de estados republicanos do país.
A minha doppelgänger é afeita a exagerar a sua própria influência – a bem da verdade, ela é apenas uma voz em meio a uma cacofonia global que fala muitas línguas, alcança dezenas de milhões de pessoas e se esparrama por todas as plataformas e ferramentas de comunicação social. Todavia, no âmbito dessa rede global, alguns indivíduos – graças a seu prestígio e notoriedade pré-covid, a seu traquejo para lidar com as mídias sociais e à sua obstinada capacidade de trabalho árduo e incansável – desempenharam um papel descomunal. Embora tenham começado com a covid, estão migrando depressa para toda sorte de conspirações supostamente concebidas para instalar a tirania.
Wolf é um desses indivíduos, sobretudo quando se trata de desinformação médica direcionada ao grupo que de início a elevou à fama internacional: as mulheres. Num dos seus tuítes relacionados à covid, amplamente divulgados e compartilhados com o seu público que crescia em velocidade vertiginosa, ela escreveu que “centenas de mulheres […] relatam que depois de tomarem a vacina estão tendo hemorragias/coagulação, ou que sangram estranhamente quando estão perto de mulheres vacinadas”.
O mito viral que associa as vacinas à infertilidade revelou-se especialmente deletério no mundo online do bem-estar das mulheres, em que uma influenciadora, autoproclamando-se “apaixonada pela saúde do útero”, alertou suas seguidoras para não se aproximarem demais de qualquer pessoa que tivesse tomado “a picada no braço”. Pelo menos uma escola privada na Flórida decidiu proibir em suas salas de aula a presença de professores vacinados, em nome da proteção dos alunos contra a “disseminação viral” de substâncias nocivas da vacina, que eram transmitidas pelo corpo de uma pessoa imunizada para quem não tomou a injeção. Uma investigação da National Public Radio (npr), realizada com a ajuda de especialistas em análise de dados, constatou que muitas dessas falsas crenças poderiam ser atribuídas a “uma influenciadora com imenso número de seguidores no que chamamos de comunidade pseudomédica”: Naomi Wolf.
Ou, para quem lê um pouco rápido demais: Naomi Klein.
Essa enxurrada de atividades da Outra Naomi durante a era da covid significava que os riscos de ser confundida com ela se tornaram significativamente maiores do que naquele banheiro público em Manhattan. As incursões anteriores de Naomi em conspirações infundadas eram amiúde ofensivas e, sem dúvida, nocivas para as pessoas que, ela insinuava, agiam como espiões ou partícipes de crises. Mas suas investidas nunca colocaram um número grande de pessoas em perigo concreto e imediato.
Com a covid, esse cenário mudou. E, quando se tratava da notória ficção da “disseminação viral de substâncias patogênicas pela vacina”, era fácil ver por que ela estava ganhando tanta força. A alegação de que as pessoas inoculadas poderiam de alguma forma infectar com partículas perigosas as pessoas não vacinadas começou a circular num momento crucial da pandemia, quando muita gente ainda estava decidindo se valia a pena ou não confiar nas vacinas. Para algumas pessoas saudáveis que se convenceram de que o vírus representava pouca ameaça para elas, mas se preocupavam com os possíveis efeitos adversos da vacinação, a ameaça de disseminação da doença que foi inventada proporcionou uma forma prática de inverter a situação.
Vejamos o caso de uma famosa instrutora de ginástica e influenciadora antivacina de Toronto autodenominada “Glowing Mama” [Mamãe exuberante]. Obcecada pela teoria da transmissão de doenças via vacinas, a instrutora declarou que estava “sangrando entre um período menstrual e outro” porque as pessoas ao seu redor haviam sido vacinadas. Em um vídeo que viralizou por todos os motivos errados, a Glowing Mama irrompeu em lágrimas enquanto se enfurecia pelo fato de que os avós de sua filha, que se vacinaram, queriam segurar a neta no colo, evidentemente indiferentes aos riscos que representavam para a criança e a mãe. “Eles estão esterilizando uma geração inteira de pessoas”, afirmou a influenciadora, entre soluços. A seu ver era inacreditável o egoísmo dos idosos, que estavam com “um pé na cova” – e eram egoístas por terem se vacinado e ainda esperavam ter uma relação de afeto com a netinha.
O vídeo era uma maluquice – não existe vínculo entre vacinação e infertilidade, as vacinas não “passam” por abraços, e há um bocado de recursos e evidências científicas facilmente disponíveis para provar por a mais b ambos os pontos. Porém, nessa manifestação, o fascínio exercido pela teoria de que as vacinas transmitem doenças – que a minha sósia tanto fez para difundir – revela-se como a suprema e definitiva ferramenta de projeção e absolvição. Wolf e seus simpatizantes pegaram o argumento a favor das vacinas – o de que pertencemos a comunidades de corpos emaranhados, então o que fazemos e não fazemos com nosso corpo afeta a saúde de outros corpos, sobretudo corpos vulneráveis – e o viraram de ponta-cabeça. De acordo com eles, na verdade eram as pessoas vacinadas os egoístas que sacrificavam os vulneráveis, os imunizados eram os responsáveis por espalhar a doença e infectar os outros.
A mim me pareceu que tudo isso aumentou consideravelmente a probabilidade de ser confundida com Naomi Wolf. O mesmo aconteceu com a frequência dos episódios de confusão de identidade. Já não se tratava de um aborrecimento periódico a cada poucos meses. No primeiro ano da covid, era uma avalanche diária. E foi assim que, depois de alguns meses enredada nessa mixórdia, encontrei razões para fundamentar minha iniciativa de começar a revidar. Adicionei à minha biografia de mídias sociais um breve recado (“Não aquela Naomi”) e, em fevereiro de 2021, enquanto Wolf fazia uma turnê pelos programas da Fox News para alertar que os governos que impunham medidas contra a covid eram “tiranos e autocráticos”, tuitei: “Este é o seu lembrete periódico para manter as coisas no devido lugar e fazer a distinção entre uma Naomi e outra”. Quando a conta de Wolf no Twitter foi suspensa, aparentemente banida para sempre, escrevi “Ainda aqui, infelizmente”. Essas duas frases foram “curtidas”, da última vez que verifiquei, 20 mil vezes.
Isso porque, em meio ao extremo isolamento e à ansiedade do início da vida pandêmica, a confusão entre as duas Naomis se tornou uma das piadas favoritas do Twitter de esquerda. A mentalidade coletiva da internet não apenas gostava de rir das coisas ultrajantes que a Outra Naomi dizia, mas também ficou em igual medida encantada com a perspectiva de que eu receberia pelo menos parte do crédito/culpa (“Pensamentos e orações para Naomi Klein”). Passamos a ser um passatempo para pessoas atoladas em um profundo tédio, viciadas em doses de dopamina fornecidas por nossas máquinas. Não era bem algo que dava prazer às pessoas, mas algo sinteticamente adjacente a ele – uma falsa experiência comunitária naqueles tempos de solidão e ansiedade.
E, veja bem, até para mim era de fato confuso e também, de um jeito sombrio, engraçado. Repetidas vezes, Wolf dizia coisas que se pareciam um pouco com o argumento que apresentei em A doutrina do choque, mas refratadas através de um espelho mágico de parque de diversões de tramas e conspirações baseadas quase exclusivamente em uma série de palpites. Ela teimava em questionar a gravidade da covid, descrevendo-a como “uma crise médica muito badalada”, mesmo quando a epidemia já havia matado centenas de milhares apenas nos Estados Unidos. Ela disse ao [apresentador de televisão] Tucker Carlson que a administração Biden estava, sob o “disfarce” de uma emergência médica, recorrendo a “ordens de emergência” com o intuito de “nos privar de nossos direitos – direitos de propriedade, direitos de reunião, direitos de culto, todos os direitos garantidos pela Constituição”.
Observando isso, tive a sensação de que Wolf surrupiou minhas ideias, colocou-as em um liquidificador maluco e depois compartilhou o purê de pensamentos com Carlson, que assentiu a tudo com veemência. Enquanto isso, os seguidores de Wolf me perseguiam com uma saraivada de acusações e questionamentos sobre por que eu havia me vendido aos “globalistas” e estava ludibriando a opinião pública no sentido de fazer as pessoas acreditarem que máscaras, vacinas e restrições a encontros em ambientes fechados eram medidas de saúde pública legítimas – e não um pretexto para uma doutrina de choque de âmbito mundial da mesma espécie sobre a qual eu havia alertado em meus livros. “Acho que ela foi comprada, estão pagando propina pra ela!”, alguém cujo apelido na mídia social é “RickyBaby321” afirmou a meu respeito, dizendo a Wolf: “Eu releguei Naomi Klein à posição de ser ‘a Outra Naomi’!”. É uma coisa vertiginosa ser esculachada nas mídias sociais por causa de sua suposta incompreensão das próprias ideias – enquanto ouve que uma outra Naomi é uma versão melhor de você do que você mesma.
Doppelgänger: Uma viagem através do Mundo-Espelho
Naomi Klein
Carambaia
480 páginas