Trechos

‘Zona cinza’: como se conscientizar da catástrofe

Victor Hermann


03 de janeiro de 2025

O ‘Nexo’ publica um trecho de ‘Zona cinza’, de Victor Hermann. O livro se dirige a leitores que sabem das diferentes crises globais, mas ainda não percebem seus efeitos

O Nexo depende de você para financiar seu trabalho e seguir produzindo um jornalismo de qualidade, no qual se pode confiar.Conheça nossos planos de assinatura.Junte-se ao Nexo! Seu apoio é fundamental.

O que ocorre à percepção quando o nevoeiro da zona cinza baixa e podemos finalmente reconhecer a área de risco em que vivemos?

Em “Heavy Cloud” (1985), Anselm Kiefer abordou o problema da percepção de risco de catástrofe. Um ano antes do desastre de Chernobyl, quando a OTAN decidiu posicionar mísseis nucleares táticos na Alemanha, Kiefer pintou essa obra cujo título faz trocadilho com heavy water, metáfora para a radiação nuclear. Nela, Kiefer subverte a representação tradicional das nuvens. Elas perdem qualquer caráter etéreo para se tornarem espessas e compactas, graças ao chumbo usado para recobrir o céu da fotografia (em alto contraste) de um matagal recortado por linhas de energia. O chumbo é um poderoso material usado em procedimentos de segurança nuclear para selar a radiação. Na obra de Kiefer, contudo, o chumbo não consegue deter a goma-laca amarela que escorre por seus poros, manchando a fotografia. O nevoeiro da zona cinza deve ter esse mesmo aspecto maciço e opressivo, sob o qual são dissimulados os riscos de catástrofe.

O tema da obra de Kiefer é a transmutação do mundo provocada pela intrusão do risco de catástrofe. Como já dissemos, catástrofe e risco não são da mesma ordem; risco é sempre um acréscimo conceitual a um fenômeno real.20 Portanto, o risco não é percebível em si mesmo, ele só pode ser deduzido, calculado, projetado em fenômenos reais a partir de uma informação ou de um conceito prévio. O risco não é nem a fumaça nem o fogo; é uma compreensão intelectual, de caráter projetivo ou retrospectivo, da relação indicial entre fumaça e fogo. Para se definir um risco, portanto, só há signos indiciais. Entre os indícios de antecedência e de decorrência da catástrofe, habita o risco. A mãe então diz ao filho: eu te avisei. 

Nesse sentido, o risco é invisível em si mesmo, ainda que certos tipos de risco, como comer comida estragada, possam ser percebidos de maneira quase inata por nosso organismo (mesmo assim, uma definição de “ausência” de risco costuma bastar para vencer a rejeição do organismo a uma substância ou prática que ele percebe como sendo arriscada). 

Para complicar, nas sociedades modernas, as definições de risco devem necessariamente passar pelo crivo dos “‘órgãos sensoriais’ da ciência – teorias, experimentos, instrumentos de medição – para que possam chegar a ser ‘visíveis’ e interpretáveis como ameaças”. Assim, uma definição de risco, para poder ser “percebida” pelos governos e instituições, precisa receber uma chancela normativa da ciência: 

Enquanto os riscos não forem cientificamente reconhecidos, eles não “existem” – em todo caso, não em termos jurídicos, medicinais, tecnológicos e sociais, não sendo portanto evitados, manejados, corrigidos. Contra isto, nenhum lamento ou ranger de dentes coletivo ajuda. Somente a ciência. O monopólio de verdade do juízo científico obriga assim que os próprios afetados façam uso de todos os meios e métodos de análise científica para implementar suas demandas. E obriga ademais que eles ao mesmo tempo os modifiquem.

A ciência monopoliza o poder de impor ao Estado a observação de um risco. Mas ela não monopoliza os efeitos políticos e econômicos causados pela percepção de risco. Em Wall Street, por exemplo, é possível acumular valor apostando a favor ou contra as estratégias de controle de risco (por exemplo, a chance de um país adotar ou não medidas rígidas contra a covid-19). 

Por isso, precisamos discordar de Ulrich Beck: o ranger de dentes coletivo ajuda, na medida em que, para nos proteger, não basta apenas nos servirmos da ciência para construir definições mais refratárias ao risco, é preciso ainda atuar para interromper os usos colaterais dessas definições para fins de desresponsabilização da atividade empreendedora e de acumulação de capital. Não basta apenas fabricar mais leis, mais controle, mais fiscalização, mais pesquisa; é preciso politizar os afetos que orientam essas atividades técnicas, visando à reinscrição da percepção de risco em amplas redes de prudência. 

Enfim, o risco nunca está propriamente presente na realidade. Está sempre aquém ou além dela: mesmo quando a catástrofe ocorre conforme previsto, o risco já faz ver seu passado e seu futuro. Assim, onde a radiação de Chernobyl for detectada, o risco de contaminação nuclear fará ver os perigos da Guerra Fria, os erros da modernidade, o futuro desolador de populações deformadas, de terras desabitadas… Do mesmo modo, onde ocorrem “chuvas escuras”, o risco já faz ver o legado de destruição da Amazônia, o futuro improvável do capitalismo predatório etc. Daí a importância de nunca transferir aos fatos ou à ciência pura o dever de construir uma percepção de risco; não podemos contar somente com as “evidências científicas”, ou com as “aulas da natureza” – o risco exige ser politizado no âmbito dos afetos, para que ocorra uma desmobilização do dever de correr esse risco. 

Kiefer teve a proeza de tornar perceptível o que é da ordem do invisível – tanto a própria matéria radioativa quanto o conceito científico de risco nuclear e o conceito geopolítico de tensão nuclear. O artista traz à tona a trama cerrada de antecedências e decorrências catastróficas que incidem num presente simultaneamente ameaçado e ameaçador, em que os órgãos sensoriais da ciência foram atrelados a máquinas de guerra e de acúmulo de capital. Assim, ao expor a zona cinza, ele permite atentar para a área de risco em que nós vivemos, dissimulada pelas paisagens melancólicas dessa zona, nas quais “nada mudou, exceto tudo”.

As nuvens pesadas de Kiefer cumprem a promessa de que o “homem deve apoderar-se de tudo com seus olhos”. Essa é a frase com a qual Goethe pretendia inaugurar uma nova física especulativa, em oposição à física materialista de Newton. Em seu projeto, a meteorologia – em que Goethe reunia, ao lado da pesquisa científica, a pintura que se dedicava ao problema da representação das nuvens no campo da perspectiva – teria um papel central a cumprir como a ciência moral por excelência. Pois o estudo das nuvens, dentre os vários objetos da física, estaria mais apto a defender os “direitos do mito e das ideias, se não os da religião e do ‘invisível’, concebidos de maneira mística”, contra a crescente abstração da física mecanicista. 

A ciência especulativa é uma ciência atravessada por afetos, em que os objetos e métodos não têm o poder de impor um ponto final, um calar a boca aos possíveis interessados em suas pesquisas. É dela de que mais carecemos na hora de combater toda abstração científica conveniente aos processos de mobilização. 

O que Kiefer representa é o momento em que a percepção sensível do mundo se torna refratária ao risco de catástrofe; em outras palavras, o momento em que um afeto de prudência tangibiliza, intensifica, torna mais denso o conhecimento sobre o risco. 

Um afeto pode testemunhar o aumento ou a diminuição da potência de agir do sujeito; em Kiefer, sentimos um certo lamento impotente, desesperador, que, entretanto, justamente por não ter sido reprimido, já anuncia, ou melhor, torna percebível para além da fumaceira da zona cinza, o futuro revolucionário de um mundo mais prudente. 

Eis outro motivo para nossa escolha do termo “refratária ao risco”: trata-se de aprender a ver sob outro prisma, de refratar os feixes de informação para fazê-los jogar nova luz na experiência afetiva de realidade, e vice-versa. À medida que nos tornamos refratárias ao risco de catástrofe, ocorre uma transmutação do mundo, em que a invisibilidade do risco finalmente se revela hipostasiada à nossa sensibilidade. 

Contudo, não devemos concluir que a capacidade de perceber afetivamente um risco significa, necessariamente, que passamos a conhecer esse risco com mais profundidade. Na verdade, a única coisa que mudou foi que, ao nos deixarmos afetar pela catástrofe, surgem novas emoções, e, com isso, o domínio de ações muda. Saímos da esfera da apatia melancólica, do pânico frio da zona cinza, e passamos ao domínio de ações de proteção ligadas ao medo e ao amor; assim, conseguimos mais facilmente nos desmobilizar do dever de agir de modo indiferente e inconsequente e passar a fazer um reconhecimento das áreas de risco desde um ponto de vista da prudência.

capa de livro chamado zona cinza

Zona cinza: A classe média em meio à catástrofe

Victor Hermann
Relicário
356 páginas

Comprar*

*Caso você compre algum livro usando links dentro de conteúdos do Nexo, é provável que recebamos uma comissão. Isso ajuda a financiar nosso jornalismo. Por favor, considere também assinar o Nexo.