Ao vê-la dobrar a última página, eu já não estava tão amuado. Sandra, que já se foi, nunca teve noção do impacto de uma leitura tão despretensiosa na formação do menino. Em poucos minutos, minha vida se transformara. Eu me sentia como Flicts. Eu era Flicts. E também buscava a implausível lua que pudesse, quem sabe, um dia me espelhar.
Recordo essa passagem de uma tarde em Madureira, minha Macondo suburbana, ao arrumar os livros infantis na estante de Lia. A edição que Sandra guardava no antigo quarto se perdeu no labirinto dos anos, mas a de Marcelo, marmelo, martelo, embora já bem gasta, tenho comigo. Na primeira página, a dedicatória: “Ao Marcelo, com um beijo da Mary, sua irmã – Rio, 24/02/81”.
Mary é minha irmã mais velha e possivelmente o livro de Ruth Rocha tenha sido o primeiro entre os tantos que me deu entre a infância e a adolescência. Não sei se a razão foi o nome do protagonista — é bem provável que sim. E a história do garoto que quer rebatizar todas as coisas com nomes que julga mais apropriados — “latildo” para cachorro; “suco de vaca” para leite — não fugiu mais da lembrança. Quem é que entende esse menino?, me pergunto ainda hoje.
É comum querermos que os filhos compreendam e até mesmo compartilhem nossos afetos. Ainda que seja uma quimera. Daí minha tensão quando li Flicts e Marcelo, marmelo, martelo para a Lia. “É muito triste essa história”, ela comentou após dobrarmos a última página do livro de Ziraldo. “Mas achei fofa”.
Com Marcelo, marmelo, martelo, muitas risadas e um incentivo a inventar palavras, a reescrever o universo à sua própria maneira. Não é pouco.
A leitura de um livro antes de dormir se tornou, mais que hábito, um momento de encontro profundo entre pai e filha. Aos seis anos, Lia já tem seus protagonistas favoritos — Gildo, Leotolda, o Monstro das Cores. Também sabe mencionar os autores do coração, como Eva Furnari e Martha Lagarta. Rima ou combina?, da Martha, acabou virando uma brincadeira nossa. Tesouro e besouro? Rima. Mar e areia? Combina. Gato e pato? Rima e combina.
Não sei se, a exemplo do que aconteceu naquele dia ao lado da minha falecida irmã, Lia se identificou com algum personagem a ponto de perceber, nele, um vislumbre de si mesma. Talvez jamais saiba. Mas cada noite nossa à frente de um livro infantil é uma confirmação do poder da literatura em criar laços desde muito cedo. Nas tramas e reviravoltas, nos desenhos e jogos de palavras, nas gargalhadas e nas perguntas embebidas de espanto, firma-se o cordão que atravessa o tempo. Um fio capaz de ultrapassar a morte porque feito só de amor.
O último dia da infância
Marcelo Moutinho
Malê
172 páginas