Trechos

‘Nihonjin’: uma história da imigração japonesa no Brasil

Oscar Nakasato


24 de janeiro de 2025

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O ‘Nexo’ publica um trecho da reedição de ‘Nihonjin’, romance de estreia de Oscar Nakasato. Vencedor do Prêmio Jabuti de 2012, o livro navega pelos sonhos e desafios de gerações de uma família nipo-brasileira

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Depois — era outra hora, provavelmente um fim de tarde —  eu vi os homens conversando animadamente sobre seus planos.  Um, ao lado de Hideo, falava alto para que todos conhecessem  seu projeto, para que todos compartilhassem dos seus sonhos:  ficar no Brasil durante quatro, cinco anos. 

“Os anos passam depressa”, disse sorrindo, ao mesmo tempo  em que se preparava para fumar um cachimbo. 

Depois, com bastante dinheiro no bolso, abrir um pequeno restaurante em Yokohama, servir sashimi com um shoyu especial que sua mulher, só ela, sabia fazer.  

“Não é mesmo, Marichan?” 

Deixar os concorrentes transtornados. 

“Não é mesmo, Marichan?” 

A esposa, um pouco distante, em conversa com outras mulheres, mas atenta ao marido, concordava: 

“Hai.” 

Outro, fungando a coriza do resfriado que contraíra no porto de Kobe, onde ficara bastante tempo sob uma chuva fina, disse que queria voltar para a lavoura de arroz, que lavrar a terra era a única coisa que sabia fazer. 

Um terceiro lamentava a queda da exportação da seda para os Estados Unidos, pois a sua família tinha uma criação de bicho-da-seda e de repente não podia produzir mais, não tinha  mais compradores, e não restara outra saída senão ir ao Brasil. Ia com o pai e os dois irmãos. A mãe ficara no Japão, na casa da avó. Fora reprovada no exame médico obrigatório realizado  alguns dias antes da viagem porque estava com tracoma. Não sabia que os olhos vermelhos, cheios de muco, constituiriam um impedimento para viajar ao Brasil com a família. Mirando o piso do convés, o homem lamentou, disse que era tudo um  grande sofrimento, pois nunca pensara em sair do Japão, que deixara a mãe aos prantos no porto, que queria voltar logo, o quanto antes, depois abrir em sociedade com os irmãos e o pai uma marcenaria para fabricar mesas, armários, prateleiras, que quando era criança gostava de brincar com madeira. 

Um quarto homem, de cabelos longos e cavanhaque, o rosto muito sério, figura próxima àquelas que se vê em filmes de samurai, esfriou o ânimo dos demais. Sussurrou primeiro um sussurro que não era humano, que era um lamento de animal desterrado, incompreensível. Depois disse, como se dissesse para si mesmo, que após a partida ficara na amurada por longo tempo olhando o porto, as pessoas acenando, algumas balançando bandeirinhas, tornando-se cada vez menores à medida que a embarcação se afastava, enquanto, no navio, homens e mulheres ainda gritavam banzai, e não dava para saber se festejavam ou lamentavam aquela viagem. Depois a vista foi se  estendendo, e então o que se via era a cidade, que também foi  encolhendo. Pensou que nunca mais veria o Japão, por isso não saiu da amurada até o mar engolir a última mancha esverdeada de uma montanha distante. 

Os outros homens o ouviram assustados, surpresos com aquele prenúncio de um futuro em exílio. 

“Não seja tão pessimista”, disse alguém. 

Não era pessimismo, prosseguiu o homem. Era uma forma de pensar no porvir para não ser surpreendido. O Brasil ficava do outro lado do mundo, um lugar inimaginável, por mais que lhes dissessem que era uma ótima terra para se ganhar dinheiro. Um país desconhecido, com homens estranhos, que poderiam ser violentos, que poderiam querer impor normas difíceis ou até impossíveis de serem cumpridas por japoneses. Um país subdesenvolvido, onde poderia haver epidemias. Não lhes haviam dito se haveria médico quando alguém ficasse doente, se  haveria um navio que traria de volta aquele que não se adaptasse ao trabalho na lavoura de café, se haveria a quem reclamar se  um nihonjin fosse maltratado. Era um artista, sua mão estava  acostumada a segurar pincéis leves e a traçar singelamente riscos sobre peças de barro. 

Uma voz se impôs, interrompendo: 

“Desculpe dizer, Kimurasan, mas ter uma ideia tão negativa a respeito de nossa ida ao Brasil é falta de patriotismo, é um desrespeito ao imperador. Ele quer que emigremos, que fiquemos um tempo em terra estrangeira, mas que voltemos depois, com bastante dinheiro, e ajudemos no desenvolvimento do país. Será a nossa contribuição. E ninguém vai pensando que encontrará um trabalho fácil, que não será exigido suor. O governo não nos enganou dizendo que ganharíamos dinheiro com arte. Se Kimurasan não aguenta empunhar uma enxada, não deveria estar neste navio.” 

Era a voz de ojiichan

Houve um breve constrangimento, ninguém sabia o que dizer. O homem de cabelos longos e cavanhaque prosseguiu: “Inabatasan, sei muito bem que uma enxada pesa mais que um pincel e que no Brasil vou fazer o meu traçado sobre a terra, não mais sobre vasos e bules de chá. Não é o que me preocupa, eu já fui lavrador e sou jovem e forte para aguentar o trabalho duro sob o sol. O que me deixa apreensivo é que lavramos uma terra alheia, estrangeira, e obedeceremos às ordens  dos donos dessa terra, que não conhecemos. Os meus vizinhos sempre foram nihonjin, eu ia ao mercado e era um nihonjin que me vendia cereais, eu ia comprar tinta e era um nihonjin que me atendia, conversava comigo em nihongo.” 

“A gente aprende a falar brasileiro”, arriscou alguém.

“Veja, nem isso vocês sabem. No Brasil não se fala brasileiro, lá se fala português, porque o país foi colonizado por portugueses. E não se aprende a falar uma língua estrangeira de um dia para o outro. Vocês devem se preparar para um começo de dificuldades para não serem surpreendidos.” 

Sem falar mais, o homem se afastou. Então ojiichan sorriu: “Vamos ao Brasil contentes, cheios de esperança. Não podemos permitir que um pessimista como Kimurasan contamine o  nosso ânimo.” 

Todos o aplaudiram, e logo o ar pesado se desanuviou. Hideo prosseguiu, agora sobre os seus projetos pessoais: teria uma loja de utensílios domésticos em Tóquio ou Osaka, já que o Japão estava se industrializando, fabricando peças em série, e precisava de comércio para vendê-las. Teria três ou quatro funcionários, quem sabe meia dúzia. Seria patrão. Daria à mãe, que já sofrera tanta penúria, um pouco de conforto. Falar da mãe embargou-lhe a voz, calou-se por um instante, mas logo se animou novamente. Disse que a loja teria uma grande variedade de produtos, todos de boa qualidade, pois seu comércio teria fregueses da alta sociedade. Não perguntou a opinião de Kimie. Ela teria gostado que lhe dissesse: “Não é mesmo, Kimichan?”.  

Responderia que sim, com sinceridade, ou simplesmente sorriria e acenaria com a cabeça, concordando. 

Hideo continuou: 

“No Japão, só ganham dinheiro com a agricultura os latifundiários.” 

E se dirigindo ao homem que pretendia voltar à lavoura: “E Hanadasan não está pretendendo comprar um latifúndio,  não é?” 

Riu. E prosseguiu em tom professoral, dizendo que os pequenos proprietários estavam à míngua, que os impostos eram elevados, que o governo apoiava mais a indústria. É claro que alguém deveria produzir alimento para o povo, mas que se encarregassem disso os grandes proprietários. O governo investira na construção de usinas geradoras de energia, em indústrias de fiação de algodão e em siderúrgicas para o país se modernizar. 

“A vida agora acontece na cidade”, completou. 

Kimie, sentada sobre as pernas, as mãos pousadas uma sobre a outra, pensava que preferiria, como Marichan, abrir um pequeno restaurante, onde poderia se dedicar a preparar as iguarias que sua mãe lhe ensinara a fazer, enquanto o marido se encarregaria do atendimento e do caixa. Logo, porém, desviou suas ideias para a loja de utensílios domésticos, pois desejar outra coisa seria inútil. Então sonhou com a loja, mas sem saber se era a mesma que habitava as expectativas do marido. Seria bom viver entre panelas, hashis, colheres, jarros, canecas,  tigelas, vassouras, cestos, talvez algum vaso, pois vasos, embora não fossem úteis para os homens e as mulheres, alegrariam  os olhos. Seria bom dispor as peças nas prateleiras, limpá-las, vendê-las para que alguém vivesse melhor com elas. 

Depois, quando o navio chegou ao porto de Santos, vi Kimie  se espremendo em meio a homens e mulheres maiores que ela,  procurando um espaço na amurada. Primeiro a surpresa agradável da recepção feita pelos japoneses que já moravam no Brasil, a alegria de ver tremulando no ar pequenas bandeiras brancas com a bola vermelha no centro, a confortável sensação que substituiu o desassossego que estava sentindo desde que o capitão anunciara que o navio estava próximo de terras brasileiras. Logo as outras caras, criaturas estranhas, e principalmente, a visão  assustadora dos negros, estivadores carregando enormes cargas, gente jamais imaginada, nunca vista em gravuras de livros.

Nihonjin

Oscar Nakasato
Fósforo
144 páginas

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