Trechos

‘A mulher habitada’: o despertar para uma luta social

Gioconda Belli


31 de janeiro de 2025

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O ‘Nexo’ publica um trecho de ‘A mulher habitada’, da escritora nicaraguense Gioconda Belli. O romance conta a história de Lavínia, que volta dos estudos na Europa para a América Latina nos anos 1970 e passa a questionar seu papel numa sociedade tomada por uma ditadura militar

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As ruas, a essa hora, estavam desertas. Apressou o passo para chegar à avenida, a fronteira de seu bairro de velhos. Na esquina, parou um táxi. O Mercedes-Benz novíssimo, lustrado várias vezes, parou ao seu lado. Nunca deixava de admirar o paradoxo dos táxis Mercedes-Benz. Em Fáguas, o Grão-General dava de presente licenças de livre importação de carros Mercedes-Benz para os militares. Os militares vendiam seus carros Mercedes-Benz usados para cooperativas de táxi das quais eram sócios e compravam novos modelos. Em Fáguas, pobre, empoeirada e quente, os táxis eram Mercedes-Benz.

Mal tinha acabado de se acomodar no banco que cheirava a couro, deu-se conta da transmissão do rádio. Transmitiam o julgamento contra o diretor do presídio A Concórdia. O julgamento tinha sido a conversa obrigatória dos últimos dias, e ela não aguenta mais o assunto, não queria mais ouvir falar daquelas atrocidades, mas estava presa naquele táxi. O taxista, fumando, não perdia palavra, totalmente concentrado no trânsito. Ela olhou pela janela. Dessa região alta, via-se a cidade, a silhueta longínqua de vulcões pastando às margens do lago. A paisagem era linda. Tão bela quanto imperdoável o fato de que tivessem dado ao lago a função de esgoto. Imaginou-se como seria esta manhã se a cidade não desse as costas para a paisagem lacustre, se existisse um calçadão às margens do lago, onde pelas tardes passeariam os apaixonados e a babá com carrinhos azuis de bebê. Mas os grandes generais nunca estiveram interessados na estética. A cidade era uma série de contrastes: mansões amuralhadas e casas caindo aos pedaços. Não podia fugir da voz do médico militar, o legista, testemunha-chave do julgamento. Sua voz firme, sem hesitação, descrevia as cicatrizes de torturas encontradas no cadáver do prisioneiro. Dizia que o irmão do morto – também acusado de conspirar – tinha sido jogado pelo diretor no vulcão Tago. Um vulcão em atividade, com lava rugente na cratera. Ao escurecer, via-se a beirada vermelha se alguém se aproximasse das bordas. Os espanhóis conquistadores acreditavam que se tratava de ouro fundido. O homem descrevia as quebraduras e lacerações do irmão, também assassinado, como se tratasse do ditame de algum engenheiro relatando os efeitos de um terremoto. Abundavam no relato as palavras técnicas. Lembrou-se de como se quebravam as colunas depois das explosões subterrâneas nos documentários que o professor na Universidade de Bolonha, na Itália, lhes mostrava. Mas se tratava de seres humanos. Estruturas destruídas de seres humanos.

“Devia ter ficado em Bolonha”, pensou, lembrando-se de seu apartamento ao lado do campanário. Era sua reação cada vez que se deparava com o lado obscuro de Fáguas. Mas na Europa ela teria tido que se contentar com interiores, reformas de velhos edifícios que não alteram as fachadas, a história de melhores passados. Em Fáguas, ao contrário, eram outros os desafios. Tratava-se de dominar a natureza vulcânica, sísmica, opulenta; a luxúria das árvores atravessando, indômitas, o asfalto. Fáguas alterava-lhe os poros, a vontade de viver. Era o país da sensualidade: um corpo aberto, largo, sinuoso, peitos desordenados de mulher feitos de terra, esparramados sobre a paisagem. Ameaçadores. Lindos. Não queria continuar escutando sobre mortes. Encostou o rosto na janela, olhando fixamente as ruas. O que Fáguas precisava era de vida, disse para si, por isso ela sonhava em construir prédios, deixar sua marca, dar calor, harmonia ao concreto; substituir as imitações de truncados arranha-céu nova-iorquinos na avenida Truman – pela qual o táxi avançava lentamente no trânsito – por desenhos de acordo com a paisagem. “Embora fosse um sonho quase impossível”, pensou, olhando o cartaz da recém-inaugurada loja de departamento. Da rua podia se ver a escada rolante, a grande novidade, a única em todo o país. A loja teve de pôr seguranças na porta para evitar a entrada das crianças esfarrapadas vendendo jornais que, nos primeiros dias, foram a ruína do prazer das senhoras chiques eletronicamente elevadas para o consumo. A cidade buscava de todas as formas a modernidade, usando qualquer tipo de artifício estrambótico.

Os mortos eram membros do clandestino Movimento de Libertação Nacional. “São os únicos valentes deste país”, dizia Adrián, o marido de Sara. “De que outra maneira podia-se acabar com a subversão?”, dizia o fiscal, quando o táxi parou.

Lavínia olhou o relógio. Eram oito horas da manhã. Chegou na hora. Pagou o taxista, e o viu fitar suas pernas longas. Sorrindo sarcasticamente enquanto lhe desejava um “bom dia”, depois de obrigá-la a ouvir aquela descrição detalhada de gólgotas crioulos.

Entrou no hall. O prédio era moderno. Parecia uma caixa de fósforo. Retangular. Paredes cinzentas e detalhes vermelhos. Tinha elevador, sinal de status. Existiam cinco ou seis elevadores em toda Fáguas. O elevador levava a elegantes escritórios de médicos, engenheiros, advogados e arquitetos. Dias antes, quando foi até lá para a entrevista, Lavínia parou em cada andar, por curiosidade. Todos eram parecidos. Portas grandes de madeira com letreiros dourados.

Empurrou as portas de madeira da empresa Arquitetos Associados S/A e se viu no hall sóbrio e moderno, diante da secretária singela de olhos verdes que lhe pediu que se sentasse. O sr. Solera a receberia em alguns instantes.

Pegou uma revista e acendeu um cigarro. Em algum lugar dentro do escritório, um rádio continuava a transmissão do julgamento. Por sorte não conseguia entender as palavras.

Para benefício de sua aparência profissional, fingia prestar atenção na revista; naquelas casas em cujos interiores era quase impossível imaginar seres humanos. Pareciam feitas para anjos etéreos, alheios a necessidades elementais como pôr as pernas em cima das mesas, fumar um cigarro, comer amendoim.

Na entrevista, Julián Solera tinha discursado sobre as dificuldades intrínsecas de trabalhar com arquitetura em Fáguas. Não era como na Europa, disse-lhe. Chegavam as senhoras com seus recortes de revistas e lhes encomendavam desenhos de House & Garden e House Beautiful. Apaixonavam-se por um refúgio nos Alpes e decidiam aplicá-lo em uma casa de veraneio. Havia que convencê-las de que estavam em outro país. O calor. Os materiais. Mas ela era mulher, disseram. Teria mais facilidade para se comunicar. As mulheres se entendiam. Sorriu ao lembrar, ao evocar como o sorriso o convenceu de lhe dar aquele emprego. Inicialmente, a olhava com desconfiança. Quando ela entrou em seu escritório, na semana anterior, comparecendo à entrevista que sua amizade com Adrián tinha facilitado, a olhou de cima a baixo, medindo seu ostensível pedigree, o comprimento de sua minissaia, o cabelo desordenado em cachos. Era um homem quarentão, de olhar alerta e atitude pragmática, mas com a necessidade de sedução própria dos homens latinos dessa idade. Pouco tempo depois do primeiro cumprimento, quando ela sacou seu portfólio e esgrimiu sua elevada qualificação acadêmica, o orgulho de seus projetos universitários, seus critérios sobre as necessidades de Fáguas, defendendo seu amor pela arquitetura com a veemência própria de seus vinte e três anos, Julián sucumbiu. Como criança fazendo piruetas em uma bicicleta, mostrou-lhe as complicações locais do ofício e não demorou muito para se convencer de que seria uma boa aquisição contratá-la. Ela não teve remorsos por usar as milenares armas da feminilidade. Aproveitar a impressão que as superfícies polidas causavam nos homens não era sua responsabilidade, mas sim sua herança.

A espera tinha se prolongado. Um homem alto, de estatura mediana e olhos cinzentos, atravessou o hall e entrou na sala de Solera. A secretária de olhos verdes disse a Lavínia que podia entrar.

A sala era moderna. Sofás de couro. Desenhos abstratos nas paredes emoldurados em alumínio. Janelão de quarto andar dominando a paisagem do lago. Os vulcões se aproximando. Enormes mamíferos. O sr. Solera se aproximou para cumprimentá-la. Simpatizava com seu ar de cavalheiro de outros tempos, embora a formalidade a incomodasse. O tratamento de “o senhor” parecia-lhe mais apropriado para suas vizinhas anciãs do que para ela.

— Apresento-lhe Felipe Iturbe – disse Solera. 

O homem estava de pé no meio da sala, com ar de edifício bem construído. Apertou sua mão com força. Lavínia notou seu antebraço musculoso, os nervos, a camada de pelo preto que aparecia. Era mais jovem que Solera e a olhava de maneira divertida, enquanto o outro fazia referências sobre sua qualificação, dizia as vantagens de contar com uma mulher no time e explicava para ela o papel de Felipe como arquiteto coordenador, encarregado de designar e supervisionar todos os trabalhos. O arquiteto Iturbe, disse Solera, se encarregaria de tornar-lhe familiar as normas e os procedimentos do escritório.

Os dois homens pareciam desfrutar de sua atitude de paternidade profissional. Lavínia se sentiu em desvantagem. Fez uma reverência interna à cumplicidade masculina e desejou que as apresentações terminassem. Não gostava de se sentir na vitrine. Lembrava-lhe de sua volta da Europa, quando seus pais a levavam a festas, enfeitada, e a soltavam para que animaizinhos de terno e gravata a farejassem. Animaizinhos domésticos procurando quem lhes desse filhos robustos e frondosos, cozinhasse, arrumasse seus quartos. Sob lustres de cristal e luzes ofuscantes a exibiam como porcelana Limoges ou Sevrès naquele mercado persa de casamentos com cheiro de leilão. E ela odiava. Não queria mais isso. Para fugir, estava ali. Mexeu-se, desconfortável. Finalmente, o sr. Solera deu por terminada a apresentação e ela saiu atrás de Felipe.

A mulher habitada

Gioconda Belli
Trad. Enrique Boero Baby
Rosa dos Tempos
448 páginas

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