O estrago da pandemia para os agentes culturais brasileiros
Aline Pellegrini
09 de dezembro de 2020(atualizado 28/12/2023 às 13h00)Pesquisa realizada entre junho e setembro em 472 municípios mostra a percepção sobre a queda econômica do segmento
Teatro alemão antes do fechamento dos espaços culturais com a segunda onda de coronavírus no país
O setor cultural do país viu sua renda diminuir significativamente em 2020: 48,8% dos agentes culturais perdeu 100% da sua receita entre maio e julho. Os dados são da pesquisa Percepção dos impactos da covid-19 nos setores cultural e criativo do Brasil, divulgada nesta terça-feira (8).
As consequências das medidas de isolamento para as atividades do segmento foram duras no mundo todo . A particularidade brasileira está na demora para criar uma política nacional de cultura em meio à pandemia, que só foi proposta no fim de junho com a Lei Aldir Blanc — com recursos que estão aos poucos sendo repassados à classe artística—, e na inércia da secretaria especial da Cultura, que sofreu constantes mudanças na chefia da pasta — em menos de dois anos de governo a secretaria já teve cinco titulares .
De acordo com os dados do IBGE de 2018, 44% dos trabalhadores do setor cultural eram autônomos, sem salário fixo ou carteira assinada. Antes da pandemia, a previsão era de que, até 2021, o setor pesquisado contribuísse com US$ 43,7 bilhões para o PIB nacional.
O levantamento apresentado na terça-feira (8), coordenado pelos pesquisadores Pedro Affonso, André Lira e Rodrigo Amaral, com apoio da Unesco ( Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), da USP (Universidade de São Paulo), do Sesc e do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura, contou com 2.667 respostas de pessoas jurídicas e de empreendedores de 472 municípios brasileiros.
Entre eles, 17,8% não tiveram alteração na receita durante os meses de março e abril. De maio a julho esse número diminuiu para 10%. Os profissionais mais afetados entre os que perderam o total de suas receitas nesse período foram os que trabalham com circo (77%), casas de espetáculo (73%) e teatro (70%).
Considerando o mesmo período de maio a julho, o Distrito Federal foi o que mais registrou perdas totais de receita (59,2%), enquanto o Mato Grosso do Sul registrou o menor percentual (16%).
“Há mais vulnerabilidade entre quem tem menos escolaridade e isso cria um certo funil para entendermos quem ficou mais fragilizado nesse período, ainda que o impacto econômico tenha sido sentido em todos os estratos”, afirmou o pesquisador Rodrigo Correia do Amaral.
As projeções para o segundo semestre entre aqueles que responderam a pesquisa são pessimistas. A maior parte acredita que não receberá nada (38,6% entre agosto e outubro, e 30,6% entre novembro de 2020 e janeiro de 2021). Apenas 1,8% projeta um aumento de 100% na receita nesse último período.
O setor mais incrédulo com a recuperação é o das artes cênicas. No período de novembro de 2020 a janeiro de 2021, 44% dos participantes desse segmento acredita que irá perder o total de suas receitas. Entre os indivíduos, 29,7% dos participantes acreditam que perderão a totalidade da receita no período de novembro de 2020 a janeiro de 2021, enquanto que, entre os coletivos, esse percentual se eleva para 35%.
“O segmento [cultural] foi um dos primeiros a parar, em virtude das necessidades de distanciamento impostas pela pandemia, e certamente será uma das últimas cadeias produtivas a retomar as atividades por completo. Estamos longe de recuperar os postos de trabalho perdidos”, afirmou Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural.
Em novembro, o Painel de Dados do Observatório Itaú Cultural, que monitora a evolução econômica da indústria criativa no Brasil com dados da Pnad ( Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, mostrou que um em cada dois profissionais da cultura perdeu trabalho neste ano. Em uma comparação entre junho de 2019 e o mesmo mês de 2020, houve uma queda de 49% de indivíduos trabalhando no segmento: de 659,9 mil profissionais ligados ao setor, o número caiu para 333,7 mil postos.
Os trabalhadores de cinema, música, fotografia, rádio e TV perderam 43.845 postos de trabalho (uma retração de 38,71%). O setor editorial perdeu 7.994 postos (queda de 76,85%), e o setor de artes cênicas e artes visuais viu 97.823 postos de trabalho sumirem (encolhimento de 43%).
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