Quanto o brasileiro leu em 2020. E o que mais leu
Aline Pellegrini
26 de janeiro de 2021(atualizado 28/12/2023 às 22h57)Previsão era pessimista para o ano da pandemia, mas mercado de livros cresceu em comparação com 2019
Racismo e distopia são novidades na lista de livros mais vendidos
Fechamento de livrarias, lojas físicas trancadas durante meses e dificuldades dos varejistas em se adaptar ao comércio virtual alimentaram a previsão de que o mercado de livros teria uma queda de vendas em 2020, mas não foi o que aconteceu. O levantamento de dezembro da Nielsen Bookscan para o SNEL (Sindicato Nacional dos Editores de Livros) mostra que o Brasil teve um tímido crescimento na venda de livros em 2020.
Foram 41,91 milhões de livros vendidos em 2020, um aumento de 0,87% em comparação com 2019, ano em que 41,54 milhões de exemplares foram comercializados. A arrecadação, no entanto, diminuiu: o mercado livreiro movimentou R$ 1,74 bilhões em 2020 ante R$1,75 bilhões em 2019, uma queda de 0,48%.
A redução da receita pode estar ligada à mudança na forma de consumir livros, já que as obras digitais, que costumam ser mais baratas, ganharam mais espaço durante a pandemia. Desde 2014, o mercado de e-books está em ascensão, mas, segundo a Bookwire Brasil , que é especializada no segmento, a pandemia acelerou a adesão dos brasileiros aos livros digitais.
De março a maio de 2020, houve um aumento de 154% no consumo de livros digitais de não ficção e, de junho a agosto, 227% de aumento das vendas de e-books infantis e juvenis. Esses números estabilizaram com a retomada parcial das atividades presenciais.
A recuperação das vendas começou só no segundo semestre de 2020, o que deixou o setor editorial esperançoso de que a tendência de crescimento possa se prolongar. No texto de apresentação do levantamento, o presidente da SNEL, Marcos da Veiga Pereira, afirma que “o brasileiro voltou a ler” e que houve ainda “a inauguração de um número recorde de novas livrarias no último trimestre do ano e este movimento tende a continuar este ano [2021]”.
Assim como em 2019, a busca pela resposta da pergunta “como ficar rico?” impulsionou as obras mais vendidas de 2020. “Do mil ao milhão”, do youtuber brasileiro Thiago Nigro (do canal “Primo rico”), que promete ensinar ao leitor uma forma de atingir a independência financeira, melhorando gastos, investimentos e ganhos, foi o mais vendido no país, segundo levantamento da Nielsen feito para o Estadão.
A procura pelo sucesso financeiro também guia “Os segredos da mente milionária”, de T. Harv Eker, 6º mais vendido em 2020, “O homem mais rico da Babilônia”, de George S. Clason, 8º lugar da lista, e “Pai rico, pai pobre”, de Robert Kiyosaki, em 13º lugar.
Apesar desses títulos serem repetidos da lista de 2019, o perfil das obras mais consumidas em 2020 mudou bastante. Em 2019, o ranking de mais vendidos feito pela Nielsen só trazia livros de autoajuda e nenhuma ficção. Em 2020, no entanto, assuntos muito comentados fizeram a diferença na escolha dos livros.
A autoajuda financeira e pessoal perdeu espaço para livros que abordam racismo e política. Os diferentes universos criados por George Orwell (1903-1950) que refletem sobre o poder voltaram a ser lidos pelos brasileiros. A fábula “A revolução dos bichos” e a distopia “1984” apareceram entre os mais vendidos na 7ª e na 10ª posição respectivamente.
As edições da Companhia das Letras, que publicava os livros de Orwell até então, antecedem um fenômeno de vendas que deve se estender em 2021, já que, em 1º de janeiro, toda a obra do autor entrou em domínio público e muitas editoras já lançaram ou programam reedições dos dois livros.
Em entrevista ao Nexo em dezembro, o editor Emilio Fraia, responsável pela obra de Orwell na Companhia das Letras, afirmou que o interesse pelas obras do escritor se deve aos temas que guiam as narrativas: liberdade e autoritarismo. “É um autor que investigou com muita propriedade questões que se impuseram nas últimas décadas”, afirmou.
Mas as ficções de Orwell não foram as únicas da lista: “Sol da meia-noite”, que integra a série de livros sobre vampiros da escritora americana Stephenie Meyer, foi o 14º mais vendido no país. “Sol da meia-noite” recupera a história de outro best-seller da autora, “Crepúsculo”, mas é contada pelo ponto de vista de outro personagem.
Após a onda de protestos contra a violência policial e o racismo que tomaram as ruas do mundo em maio, “Pequeno manual antirracista”, da filósofa Djamila Ribeiro, entrou no ranking da Nielsen e chegou ao 12º lugar. Já no site da Amazon, ele foi o livro mais vendido de 2020. O mesmo tema guia “Racismo estrutural”, de Silvio Almeida, 9º mais vendido no site da Amazon, que não figura no levantamento da Nielsen.
Também aparece pela primeira vez entre os mais vendidos do ano, “Mulheres que correm com os lobos”, da analista junguiana Clarissa Pinkola Estés. A obra de 1992 está em terceiro lugar na lista de mais vendidos da Nielsen e em segundo na lista da Amazon. O livro investiga o arquétipo da mulher selvagem em mitos e histórias selecionadas e costuma integrar as listas dos clubes de leitura feministas.
No ranking dos 15 livros mais vendidos em 2020 figuram apenas quatro autoras, ainda assim o dobro do que apareceu em 2019, quando apenas “Mindset”, da psicóloga americana Carol S. Dweck — título que se repete em 2020 na 11ª posição — e “Me poupe!”, da brasileira Nathalia Arcuri, estavam entre os best-sellers.
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