Expresso

Como governos anteriores controlaram o desmate na Amazônia

Mariana Vick

24 de abril de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h29)

Bolsonaro pede recursos estrangeiros, mas pesquisadores dizem que o maior problema não é a falta de dinheiro. Eles explicam como o país conteve a devastação da floresta a partir de 2004

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FOTO: AGÊNCIA BRASIL

Homem sem camisa está sozinho num pequeno barco, remando num grande rio. Atrás aparece a vegetação verde.

Homem rema em balsa na Amazônia

O presidente Jair Bolsonaro afirmou em discurso na Cúpula do Clima, na quinta-feira (22), que o governo brasileiro estava aberto à cooperação internacional para que o país recebesse “remuneração pelos serviços ambientais” prestados por florestas preservadas no país, como a Amazônia.

O discurso sugeriu a mesma mensagem que o governo federal vem repetindo há semanas, no contexto das negociações da cúpula: o país tem em um plano para reduzir os índices altos de desmatamento, mas, para superar impedimentos financeiros, precisa de mais recursos, inclusive internacionais.

US$ 1 bilhão

é quanto o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, pede à comunidade internacional para reduzir o desmatamento na Amazônia em até 40%

O pedido do governo federal para outros países foi criticado por ambientalistas, que não consideram o dinheiro o principal problema da Amazônia. Para eles, não faltam recursos para proteger a floresta, mas vontade política . Tão importante quanto garantir verbas para programas de controle do desmatamento é, em primeiro lugar, criar esses programas, afirmam.

“A política e o desmatamento se relacionam de diferentes maneiras”, disse ao Nexo Patricia Ruggiero, pesquisadora de pós-doutorado no Departamento de Economia da USP (Universidade de São Paulo). Tanto as políticas públicas quanto as eleições e o discurso dos governos afetam as decisões sobre o território e como a sociedade responde a elas, afirmou a pesquisadora.

Entre os exemplos que Ruggiero cita de controle bem-sucedido do desmatamento, um está no próprio Brasil. Entre 2004 e 2012, o país reduziu em cerca de 80% o desmate na Amazônia com um conjunto de programas que monitoraram de perto a floresta e intensificaram a ação de órgãos ambientais, entre outras medidas.

O Nexo conversou sobre o tema com Ruggiero e com outros dois pesquisadores: Paulo Barreto, do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), e Juliano Assunção, professor da PUC-Rio e coordenador do CPI (Climate Policy Initiative). Eles usam o exemplo das políticas do início dos anos 2000 para mostrar o que pode ser feito agora.

O que fez o desmate cair no país

A principal política de controle do desmatamento na Amazônia a partir de 2004 foi o PPCDam (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal), que busca reduzir a derrubada de florestas e criar as condições para o desenvolvimento sustentável na Amazônia.

O plano, criado no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mudou a direção da política ambiental do país, que passou a entender que o desmatamento não poderia mais ser enfrentado de modo isolado pelos órgãos ambientais, mas de forma abrangente e integrada por mais instâncias do governo federal.

Mais de dez ministérios estão envolvidos em ações do PPCDAm, segundo o Ministério do Meio Ambiente. O plano engloba órgãos como o Ibama, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e a Polícia Federal

O programa se baseia em alguns pilares, como o monitoramento do desmatamento na Amazônia por meio de satélites — atividade executada pelo Inpe, ligado ao Ministério da Ciência — e a aplicação da lei ambiental, feita por órgãos como o Ibama (que atua como polícia ambiental) e a Polícia Federal.

O PPCDam também incluiu a expansão de áreas protegidas na Amazônia, como terras indígenas e unidades de conservação. Criar mais áreas como essas foi importante para reduzir o desmatamento porque deu garantia de proteção para terras públicas que antes estavam vulneráveis a invasões.

FOTO: UESLEI MARCELINO/REUTERS

Agente do Ibama fiscaliza transporte de madeira em região da Amazônia no Pará

Agente do Ibama fiscaliza transporte de madeira em região da Amazônia no Pará

As terras indígenas desempenham uma função especialmente importante na conservação florestal, segundo uma série de pesquisas sobre o tema. Estudo de 2010 mostrou que, na época, a taxa de emissões por desmatamento nessas áreas equivalia a cerca de um décimo das áreas vizinhas.

Outros pontos previstos na política de controle do desmatamento de 2004 foram a restrição de crédito rural para fazendeiros que não cumpriam com a lei ambiental e a política de municípios prioritários , que listou os locais da Amazônia com mais ocorrências de desmatamento e criou ações focalizadas.

O PPCDAm contribuiu para a redução de 83% do desmatamento na Amazônia entre 2004 e 2012 — de 27.772 km² para 4.571 km² ao ano. O sucesso da política tornou o Brasil referência na área e atraiu a atenção de outros países, que a partir de então passaram a apoiar a preservação nacional usando meios como o Fundo Amazônia.

Desde o início do plano

O desmatamento estava no ponto mais alto em 2004 (com 27 mil km²), quando começou a cair. A queda foi expressiva até 2012, quando as taxas voltaram a aumentar. O ano de 2019 teve a taxa mais alta de desmatamento (mais de 10 mil km²) da década de 2010.

Entre 2004 e 2012, o clima político contra o desmatamento levou outros atores a investir em medidas de conservação. Em 2006, após a publicação de um estudo sobre as ligações entre a indústria da soja e o desmate, associações do setor declararam moratória, comprometendo-se a não comprar mais soja de áreas desmatadas.

0,25%

de terras com cultura de soja haviam sido cultivadas em área desmatada na Amazônia entre 2006 e 2010, segundo estudo publicado em 2011

Por que hoje isso não acontece

O desmatamento na Amazônia parou de cair a partir de 2012, nos governos de Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB). As explicações para o quadro incluem mudanças de ordem política, como a aprovação do novo Código Florestal de 2012 — considerado mais permissivo —, o abandono da demarcação de áreas protegidas e a redução orçamentária do Ministério do Meio Ambiente.

A situação se agravou no governo de Jair Bolsonaro, que se opõe publicamente à proteção ambiental e deixa de investir em medidas que no passado fizeram o desmate cair. O presidente tirou o poder de órgãos ambientais, quer afrouxar leis da área, paralisou a demarcação de terras indígenas e defende grupos como garimpeiros .

FOTO: BRUNO KELLY/REUTERS – 24.AGO.2019

Uma imagem de cima mostra um pedaço desmatado de terra com um caminhão passando em estradas que entrecortam a área

Um caminhão passa por uma área desmatada da Amazônia em Boca do Acre

Em 2020, organizações da sociedade civil protocolaram uma ação no Supremo Tribunal Federal pedindo que a corte obrigue o governo federal a retomar o PPCDam , com o argumento de que, ainda que a política esteja em vigor, a gestão Bolsonaro deixou de executá-la, promovendo, na prática, um tipo de “extinção” do programa.

“O governo federal adotou um discurso agressivo contra as instituições ambientais, os povos das florestas e as ONGs”, disse ao Nexo Paulo Barreto, do Imazon. Em 2019, quando extinguiu a participação da sociedade civil no Fundo Amazônia, o governo federal também provocou um impasse com doadores que levou à suspensão do fundo.

O professor Juliano Assunção, do CPI, citou também mudanças e interferências do governo federal em órgãos de controle, como o Inpe, responsável por monitorar o desmatamento por satélite. Em 2019, Bolsonaro desacreditou dados do instituto e pediu a demissão de seu antigo diretor, Ricardo Galvão .

Para Patricia Ruggiero, da USP, o problema do desmatamento hoje é “essencialmente político”. Embora fiscalizar o desmatamento e propor alternativas de desenvolvimento sustentável exija investimentos financeiros, o primeiro passo para fazer isso, segundo ela, “é a decisão política junto com a sinalização real dessa intenção”.

“É preciso que o governo acredite nesse caminho, tenha uma vontade política clara de conter o desmatamento e sinalize para a sociedade de diversas maneiras que vai cumprir essa missão. Tomada essa decisão, os recursos certamente serão mais bem aplicados e seu uso poderá ser mais eficiente”

Patricia Ruggiero

pesquisadora pós-doutoranda do Departamento de Economia da USP (Universidade de São Paulo), em entrevista ao Nexo

Para Paulo Barreto, o governo federal, se quisesse reduzir o desmatamento, poderia começar por reestabelecer o PPCDam, retirar do Congresso medidas que estimulam novas invasões e desmates e formar um pacto com empresas da cadeia da pecuária contra a destruição da Amazônia, entre outras medidas.

Qual o impacto dos recursos

O pesquisador também sugeriu que o governo federal mobilize pagamentos externos pela conservação de florestas dentro de um mercado internacional de carbono, que poderá ser criado com a regulamentação do Acordo de Paris, no fim de 2021, na COP-26 (Conferência das Partes da ONU).

O país, porém, pode reduzir o desmatamento sem recursos internacionais, disse ele ao Nexo . O professor Juliano Assunção, da PUC-Rio, concorda: embora verbas externas contribuam para o país criar novos projetos, elas não deveriam ser necessárias para cumprir com políticas já previstas nas leis do país.

FOTO: MARCOS CORRÊA – 1.AGO.2019/PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

Em primeiro plano, Salles olha com a tez inquieta. Ao fundo, Bolsonaro

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e o presidente da República, Jair Bolsonaro, durante evento em Brasília

Em 2010, um estudo mostrou que o apoio internacional ao Brasil por meio do Fundo Amazônia teve papel importante na proteção da floresta. Criado em 2008, o fundo recebeu doações da Noruega e da Alemanha, mas condicionou a verba a resultados prévios de redução do desmate no país.

Bolsonaro afirmou na quinta-feira (22), na Cúpula de Líderes sobre o Clima que, para reduzir o desmatamento, também duplicaria os recursos nacionais para a fiscalização na Amazônia. Estimava-se que o aumento seria em torno de R$ 115 milhões , segundo o jornal Folha de S.Paulo.

Na sexta-feira (23), quando sancionou o Orçamento de 2021, porém, Bolsonaro cortou quase R$ 240 milhões do Ministério do Meio Ambiente em áreas como mudança do clima. Para bancar a promessa feita na cúpula, o governo terá que cortar de outras áreas, por causa da regra do teto de gastos .

Interlocutores do governo afirmaram que, se implementado, o adicional de R$ 115 milhões será utilizado para custear o emprego da Força Nacional em ações de combate ao desmatamento, segundo o jornal Folha de S.Paulo. A proposta é criticada por ambientalistas, que apontam que essa é a função do Ibama, não dos militares.

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