Expresso

Quais os efeitos da vacinação contra covid na mortalidade no país

Estêvão Bertoni

07 de maio de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h06)

Número de óbitos entre pessoas com mais de 80 anos apresenta queda cerca de três meses após início da imunização de grupos prioritários no Brasil

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FOTO: RICARDO MORAES/REUTERS – 21.ABR.2021

Imagem mostra vacina sendo aplicada no braço de um homem. Não é possível ver o rosto das pessoas, mas apenas uma mão com luva de borracha segurando a seringa

Morador de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, recebe dose da vacina da AstraZeneca

Embora a vacinação contra a covid-19 no Brasil caminhe em ritmo lento, pesquisadores já identificaram benefícios da imunização em parte dos grupos prioritários, mais de três meses após o início da campanha no país, iniciada em 17 de janeiro. Até o início de maio, a principal vacina distribuída aos estados continuava sendo a chinesa Coronavac.

O plano operacional de imunização contra a covid-19 do Ministério da Saúde elenca 29 grupos preferenciais, entre profissionais de saúde, idosos, indígenas, pessoas com doenças pré-existentes, professores, policiais, caminhoneiros e militares. Ao todo, são cerca de 74 milhões de pessoas aptas a receber as duas doses num primeiro momento. A definição da ordem de prioridade tem sido feita pelos estados e municípios de acordo com as realidades locais.

16,16%

da população recebeu ao menos uma dose da vacina contra a covid-19 até sexta-feira (7), segundo o consórcio de veículos de imprensa; apenas 8,19% receberam as duas doses

O efeito da vacinação já observado no país foi citado pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, na quinta-feira (6), durante a sessão da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que investiga as ações e omissões do governo federal em relação à pandemia. Segundo ele, 17% dos grupos prioritários já foram vacinados com as duas doses.

“E a prova da eficácia dessa ação já se reflete em queda de óbitos de indivíduos idosos. Isso, inclusive, foi externalizado pelo dr. Eric Topol, que é uma das principais autoridades médicas do mundo”, afirmou.

Médico e professor do Instituto de Pesquisa Scripps, nos Estados Unidos, Topol publicou em suas redes sociais , em 3 de maio, gráficos que mostram que o Chile e o Brasil, dois dos países mais afetados pela variante P.1 do novo coronavírus, surgida no final de 2020 em Manaus com características de maior transmissibilidade, apresentam queda no número de casos depois de um pico da doença em março e abril. “Impacto positivo das vacinas (Sinovac e AstraZeneca) no Brasil”, disse.

A queda de casos no Brasil no período coincide com a adoção de medidas de restrição de circulação na maioria dos estados. A cobertura vacinal no país ainda é considerada muito baixa — especialistas acreditam que quase toda a população deverá ser vacinada para que o vírus pare de circular. No entanto, levantamentos com dados de grupos populacionais que tiveram prioridade na vacinação sinalizam que a imunização teve impacto positivo nos números da doença. Abaixo, o Nexo detalha três deles.

As mortes entre idosos

No final de abril, pesquisadores brasileiros da Universidade Federal de Pelotas e de Harvard, nos Estados Unidos, publicaram um pré-print (estudo ainda não revisado por pares) para analisar o efeito da vacinação no Brasil no grupo de pessoas acima de 80 anos.

Eles analisaram 171.517 mortes por covid-19 ocorridas entre 3 de janeiro e 22 de abril de 2021. Segundo os pesquisadores, embora a disseminação da P.1, variante mais contagiosa do novo coronavírus, tenha elevado o número de mortes em todas as idades, a proporção de óbitos entre os idosos começou a cair rapidamente a partir da segunda metade de fevereiro como resultado da imunização.

“Essa proporção permaneceu estável, entre 25% e 30%, desde o começo da epidemia no início de 2020, mas ficou abaixo de 15% em abril de 2021”, escrevem os pesquisadores.

O estudo considera as semanas epidemiológicas (de domingo a sábado, segundo uma convenção internacional que facilita a comparação com os anos anteriores). Nas seis primeiras semanas epidemiológicas de 2021, a proporção de mortes de pessoas acima dos 80 anos era de 25%. A vacinação teve início na terceira semana. Nas semanas 13 e 14, a mesma proporção havia caído para 13,1%, segundo a análise.

O estudo mostra que a taxa de mortalidade, que era 13 vezes maior no grupo acima de 80 anos em comparação com outros grupos até a semana 6, despencou para 6,9 vezes nas semanas 13 e 14.

No período analisado, a Coronavac respondia por 77,3% das vacinas aplicadas na população brasileira, e a AstraZeneca pelos 15,9% restantes. A cobertura vacinal entre os maiores de 80 anos atingiu 49,1% nas semanas 5 e 6 e superou 90% a partir da semana 9.

Vidas salvas

Um outro estudo da Impulso Gov , uma organização não governamental que tem como objetivo ajudar estados e municípios a coletar e a analisar dados dos serviços de saúde, divulgado na segunda-feira (3), chegou a números parecidos ao analisar dados do Registro Civil.

Segundo o levantamento, o Brasil tem 4.418.909 idosos acima de 80 anos. Até 31 de março, 3.464.117 de pessoas (78%) haviam recebido a primeira dose da vacina, e 1.342.020 (30%), a segunda dose.

Ao longo de toda a pandemia, a proporção de óbitos nesse grupo permaneceu praticamente constante. No início de 2021, começou a apresentar redução, e essa redução acelerou à medida que a vacinação avançava.

“Entre abril de 2020 e o final de janeiro de 2021, em média, 28,3% dos óbitos no país eram de pessoas acima de 80 anos. Em 31 de março, essa parcela chegou a 15,1%, uma redução de 13,2 pontos percentuais”, afirma o estudo.

De acordo com a ONG, essa redução de 13,2 pontos significa que cerca de 16 mil vidas foram salvas por causa da vacinação. Na sexta-feira (7), o Brasil contabilizava 419.114 mortos pela covid-19.

O efeito entre profissionais de saúde

A vacinação também surtiu efeitos entre os profissionais de saúde e ajudou a salvar a vida de enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem durante a segunda onda da covid-19 no Brasil, segundo dados do Cofen (Conselho Federal de Enfermagem).

Em abril de 2021, de acordo com a entidade, a queda de óbitos entre esses profissionais foi de 71% em comparação com o mês anterior — foram 24 óbitos em todo o país em abril contra 82 em março. Desde o início da pandemia, o Brasil registrou 776 mortes por covid-19 entre trabalhadores da categoria.

O número de abril é o mais baixo desde novembro de 2020, quando foram registrados 13 óbitos. Em março de 2021, o índice foi um dos mais altos, ficando atrás apenas de abril e maio de 2020, quando 86 e 105, respectivamente, desses profissionais morreram durante a primeira onda da doença no Brasil.

Houve queda também nas mortes entre os médicos, segundo um levantamento do CFM (Conselho Federal de Medicina). A redução dos óbitos em março de 2021 foi de 83% em comparação com janeiro, quando eles começaram a ser vacinados.

Ao todo, 59 médicos morreram de covid-19 no Brasil em janeiro de 2021. Em fevereiro, o número caiu para 24, e foi de apenas dez em março, de acordo com a entidade.

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