Os relatos de famílias que dão autonomia de gênero aos filhos
Alice Sousa
28 de janeiro de 2022(atualizado 28/12/2023 às 23h35)Menino ou menina? A experiência de pais e mães que deixaram de lado estereótipos de masculinidade e feminilidade para proporcionar às crianças a descoberta da própria identidade
Júpiter, 3 anos, segura um brinquedo
Este conteúdo foi produzido pelos autores como trabalho final do Lab Nexo de Jornalismo Digital, que teve como tema “Primeira Infância e Desigualdades” e foi realizado no segundo semestre de 2021. O programa é uma iniciativa do Nexo Jornal em parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e apoio da Porticus América Latina e do Insper.
Em “Raising Them: Our Adventure in Gender Creative Parenting”, lançado em 2020 e ainda sem edição no Brasil, a socióloga australiana Kyl Myers conta sua experiência de maternidade com a filha Zoomer Coyote, de 3 anos, que tem autonomia em relação ao próprio gênero. Numa tradução livre, o nome do livro é algo como “Criando ‘filhes’: nossa aventura numa educação criativa em relação ao gênero”.
A visibilidade cada vez maior do tema e os avanços contra o preconceito, tanto legais quanto sociais, têm encorajado pais e mães a adotar uma criação que passa ao largo do sexo biológico dos filhos, deixando de lado estereótipos de masculinidade e feminilidade para proporcionar uma descoberta em que a decisão sobre a identidade de gênero fica nas mãos da criança.
Neste texto, o Nexo explica os princípios nos quais esses pais e mães se baseiam e traz dois relatos de famílias brasileiras que decidiram adotar a mesma atitude de Myers em relação a seus filhos.
A questão da identidade de gênero é alvo de uma série de pesquisas, que vêm sendo feitas pelo menos desde a década de 1950. Debruçam-se sobre o tema profissionais das ciências sociais e das ciências biológicas. Há trabalhos focados na influência genética na definição dessa identidade. Há também trabalhos que se dedicam aos aspectos sociais que envolvem o tema.
Pioneiro no uso do termo “gênero” no âmbito psicanalítico, o professor de psiquiatria na Universidade da Califórnia Robert Stoller definiu nos anos 1960 a diferença entre gênero e sexo . Segundo Stoller, o gênero está ligado a aspectos culturais e históricos; já o sexo se refere ao aspecto fisiológico.
Autoras como a filósofa Judith Butler definem a identidade de gênero como um tipo de performance, culturalmente construída , múltipla e passível de mudanças: não é binária (dividida nas categorias homem e mulher) ou linear.
No livro “Diferentes, não desiguais – a questão de gênero na escola”, lançado em 2016, os pesquisadores Beatriz Accioly Lins, Bernardo Fonseca Machado e Michele Escouras ressaltam que as diferenças percebidas entre o corpo feminino e o masculino acabaram por se transformar em desigualdades, que começam no espaço escolar e acabam por se reproduzir na vida adulta.
É levando em conta questões como essas que pais e mães vêm adotando uma nova atitude em relação à criação dos filhos. O Nexo conversou com duas família, a de Júpiter, de 3 anos, criada com autonomia sobre o gênero até que ela mesma verbalize sua identidade; e de Guilherme, de 6 anos, que já deu início ao processo de transição a partir da masculinização da aparência, após deixar claro seu desconforto em relação ao próprio corpo.
Júpiter é filha da taróloga Meliny Bevacqua, de 27 anos, e da astróloga Luisa Lentz, de 29 anos, moradoras de Ilhéus, na Bahia. O nome Júpiter foi escolhido justamente pela não binariedade de gênero. É algo incorporado pela própria criança que, quando questionada se é um menino ou uma menina, responde:“sou Júpiter”.
A família não utiliza o gênero neutro com a criança. As mães dizem apenas dar espaço para a descoberta da criança.“O gênero nunca é o porquê, mas nos referimos a ela como menina desde pequena. Geralmente quando perguntam se é menino ou menina, eu falo criança e a Mel fala ‘não sei, muito cedo para dizer’. Essa pergunta é muito frequente pelo caráter transitório dos últimos anos da família [que antes morava em Urubici, em Santa Catarina]. Júpiter tem os cabelos curtos e quando veste vestidos pode ser lida como uma menina, e quando usa sunga na praia pode ser lido como um menino. E ela não se importa muito com isso”, afirma Luisa.
Júpiter e suas mães em comemoração
As mães relatam que já houve constrangimento na socialização da criança, que chegou a frequentar a escolinha por pouco tempo antes do início da pandemia, em março de 2020. Algumas crianças, todos meninos, estavam brincando de construção no pátio do colégio. Acostumada a brincar de tudo dentro de casa, ela foi direto se enturmar e pedir para brincar com eles. Júpiter foi repreendida com a resposta de que a brincadeira era só para meninos.
“Nesse dia fiquei muito mal e mandei mensagem no grupo das famílias dos alunos descrevendo a situação, nem falei sobre gênero, mas sim sobre sexismo”, conta Luisa. Apenas uma pessoa respondeu a mensagem se solidarizando com Luísa. Outra mãe falou que as crianças não têm maldade. “Mas essas limitações sobre brincadeiras de menino ou menina são uns cinco passos pra trás. Apesar de ter sido difícil, foi a única vez que aconteceu esse embate mais forte e ela ficou chateada e comentou essa situação por muito tempo”, diz a astróloga.
A família, porém, afirma partilhar muito mais momentos engraçados do que embaraçosos. Tal leveza é proporcionada, segundo as mães, por Júpiter mesmo.“As vezes acontece de perguntarem pra ela ‘você é menina?’ e ela responde ‘eu sou Júpiter!’. E isso é muito dela, a gente não usa linguagem neutra, mas não acoplamos a sociabilidade dela ao gênero”, explica Luisa.
“A gente nunca corrige ninguém”, explica Luisa. Como a própria Júpiter não liga muito se é chamada de menino ou menina, as mães explicam que é frequente as pessoas chegarem cumprimentando a criança a partir de algum gênero. “Mas tem que ser dito que nada que a gente faz é algo planejado na cabeça, é sempre circunstancial. Geralmente eu entro na onda da pessoa, se a pessoa se refere a ela no feminino ou masculino, ela não se importa”, acrescenta a mãe.
“Em Urubici, falar sobre o gênero dela era uma bomba de afastamento das pessoas do nosso convívio, elas não aceitavam muito bem. Por outro lado, outras pessoas acham super bacana e concordam que é verdade, não tem como rotular uma criança. Uma vez, estávamos em um bar e ouvimos do dono que ‘É isso mesmo hoje em dia, né’ e é visto como algo normal no contemporâneo”, exemplifica Luisa, enquanto Mel ri. As duas tratam essas situações com humor quando não interferem na sociabilidade da criança.
Para o casal, a liberdade que a criança tem em relação à própria identidade se reflete na autoconfiança de Júpiter. “No geral, parece que há uma barreira social imposta pelo gênero que faz você ficar na ‘noia’ como mãe em situações rotineiras de crianças, sobre brincadeiras e comportamentos. Eu percebo ela [Júpiter] muito autoconfiante [por não lidar com a barreira social] e todo mundo se impressiona com isso. Ela chega, troca ideia, grita, se apresenta…”, afirma Meliny.
As mães dizem que vão aguardar Júpiter verbalizar sua identidade de gênero, mantendo uma criação solta de amarras pré-determinadas pela binariedade do masculino e do feminino. “É mais simples de entender do que parece. É só tratar como criança”, diz Luisa.
Em Catarina, cidade de 19 mil habitantes do interior do Ceará, Guilherme, de 6 anos, vive numa família que dá autonomia à sua identidade de gênero. Quando fez 5 anos, ele verbalizou sua intenção de se apresentar como menino. Então escolheu o próprio nome. A professora Diana Oliveira, mãe da criança, conta que o filho sempre gostou de se vestir com roupas mais masculinas. Para ela, isso nunca foi um problema. Mas a transição não foi simples.
Diana engravidou novamente, já na pandemia, do padrasto de Guilherme, o funcionário público Germânio Alves. Ela afirma ter percebido que o filho estava num processo de identificação com um novo gênero quando estava prestes a dar à luz seu segundo filho. “Eu conversei com o padrasto dele e ele comentou: mas será? ”, lembra a professora. Quando a pandemia começou a arrefecer, e a rotina presencial escolar foi voltando, surgiu um problema: Guilherme não queria mais sair de casa e não comia direito. “Certo dia perguntei porque ele não saia e ele me disse que gostava de ficar em casa, porque em casa podia ser menino”, conta Diana.
Dias depois Guilherme disse à mãe que tinha uma“doença rara”: era um menino no corpo de uma menina. Diana afirma ter ficado preocupada pelo fato de o filho associar sua condição a uma doença. E decidiu procurar ajuda. “Foi aí que encontrei o Mães da Resistência, foi lá onde encontrei orientação e acolhimento”, diz Diana. O coletivo reúne mães do Nordeste e do Rio de Janeiro que têm filhos LGBTI+.
O apoio do coletivo veio através de conhecimento sobre gênero, com livros, palestras, histórias infantis, e também pela partilha de experiências semelhantes de outras mães e filhos, que se reúnem periodicamente.
Guilherme completou a transição em julho de 2021. Diana conta que sua atitude como mãe foi questionada na pequena cidade. Ela diz ter ouvido comentários como: “criança não decide isso, foi imposição da mãe”. “Eu tinha que deixar meu filho ser quem ele é, eu ia criar uma criança frustrada? Doente? Ele não se via de jeito nenhum como menina.”
A mãe já mudou os documentos da criança, adotando o nome social. A identidade e o cartão do SUS (Sistema Único de Saúde) já foram garantidos. “É uma luta diária que a gente tem. É preciso observar pessoas trans de sucesso. Minha vida mudou completamente com a transição do meu filho, minhas perspectivas são outras agora, mas estou pronta para lutar pela felicidade dele, seja Guilherme ou quem ele quiser ser.”
O Supremo Tribunal Federal determinou que a identidade de gênero é um direito humano. É algo que pode ser obtido por meio de uma autodeclaração desde março de 2018, não sendo mais necessário apresentar tratamento hormonal, laudos médicos ou comprovantes de cirurgias. Qualquer pessoa maior de 18 anos consegue ir diretamente ao cartório de registro para realizar essa modificação. Nos casos de crianças e adolescentes, é preciso judicializar a ação. Quem não pode custear as taxas que são cobradas deve procurar a Defensoria Pública do seu estado.
Diana conta que a volta do filho à escola no segundo semestre de 2021 foi tranquila, com o acolhimento das outras crianças. “A escola aceitou. No reforço escolar também foi aceito. O Guilherme chegou para o melhor amigo, o Vini, e disse assim: Vini, você lembra da Maria Esther? Sou eu, agora eu sou o Guilherme. E o Vini concordou sem ressalvas.”
A mãe diz conversar abertamente com Guilherme sobre a autonomia do filho em relação ao próprio gênero. Se ele quiser voltar a usar vestidos, o caminho está aberto. Ele está livre, segundo ela, para ser quem quiser. “Guilherme pode transitar entre os gêneros e isso quem decide não sou eu nem a sociedade, é ele.”
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